AMOR NUNCA  DEMAIS
The MacGregor Grooms
Nora Roberts

Nora Roberts - MacGregors 08



O rico e poderoso Daniel MacGregor descobre as mulheres perfeitas para seus trs netos. D.C., Duncan e Ian so, assim, apresentados das formas mais criativas a Layna
Drake, Cat Ferrell e Naomi Brightstone. Agora, eles e suas futuras noivas precisam apenas ser convencidos de que esto diante dos amores de suas vidas. Mas este 
 um trabalho para o destino... e para o corao. 


Digitalizao e reviso - Marelizpe
Traduo: Mrcia do Carmo Felismino Fusaro
1999
EDITORA BEST SELLER
Ttulo original: The MacGregor Grooms


Copyright (c) 1998 by Nora Roberts
Licena editorial para a Editora Nova Cultural Ltda. Todos os direitos reservados.
Coordenao editorial Janice Florido
Chefe de Arte Ana Suely Dobn
Reviso Levon Yacubian
Editorao eletrnica
Nair Fernandes da Silva
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Rua Paes Leme, 524 - 10 andar - CEP 05424-010
Caixa Postal 9442 - So Paulo - Brasil
EDITORA BEST SELLER
Uma diviso da Editora Nova Cultural Ltda.
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar - CEP 05424-010
Caixa Postal 9442 - So Paulo - Brasil
1999
Impresso e acabamento: Grfico Crculo.



Do Dirio
de
Daniel Duncan MacGregor

Para algum da minha idade, os anos passam rapidamente, com uma estao logo se seguindo  outra. Nesse estgio da vida, cheguei  concluso de que cada momento 
deve ser aproveitado ao mximo. Se bem que eu j costumava dizer isso quando estava com trinta anos de idade.
Ao longo dos ltimos tempos, tive a chance de ver quatro de meus queridos netos encontrarem o amor, casarem-se e comearem novas famlias. Primeiro Laura, depois 
Gwen, Jlia e finalmente Mac. Vejo a felicidade estampada no rosto de cada um deles e na maneira como se referem s suas famlias.  muito bom compartilhar a vida 
com algum a quem amamos, e agora eles sabem disso melhor do que ningum.
Ento por que, pergunto eu, aqueles quatro demoraram tanto tempo para se decidir?
Se no fosse por minha interveno, eles ainda estariam por a, esvoaando feito borboletas, e minha Anna no teria sequer um neto para mimar! Mas no sou do tipo 
que exige gratido. Imagine! Desde que me tornei o patriarca da famlia, cumpro minha obrigao sem esperar nenhum agradecimento. Porm, no se trata apenas de uma 
obrigao. Para mim,  um prazer cuidar para que meus descendentes encontrem a mesma felicidade que eu sempre tive ao lado de Anna.
Com toda essa atmosfera matrimonial, imaginei que meus outros netos tambm fossem se animar e seguir o exemplo dos irmos e dos primos. Mas no! Os MacGregor no 
passam mesmo de um bando de rapazes teimosos e com esprito independente. Ora, e Deus os abenoe por isso!
De qualquer maneira, ainda estou por perto para fazer o que  preciso ser feito. Levei trs de minhas netas para o altar e dei a meu primeiro neto o "empurrozinho" 
de que precisava. Alguns dizem que  interferncia demais, mas isso pouco me importa! Em minha opinio, trata-se de pura sabedoria. E decidi que est na hora de 
us-la a favor do neto batizado com meu primeiro nome: Daniel Campbell MacGregor.
Daniel  um bom rapaz, se bem que um pouco temperamental de vez em quando. Oh, e  muito atraente tambm. Acho at que se parece comigo quando tinha a idade dele, 
por isso, no lhe faltam companhias femininas. Porm, na verdade,  justamente esse o problema. Muita quantidade e pouca qualidade entendem? Mas encontrei um modo 
de resolver isso.
D.C.  um artista nato. Bem, pelo menos  o que dizem, pois eu no entendo nada do que ele pinta. De qualquer maneira, meu neto  reconhecido por seu trabalho e 
parece mais do que satisfeito com ele. Mas o que eu acho que o rapaz realmente precisa  de uma linda jovem com quem possa compartilhar todo esse sucesso, e que 
possa dar a ele os filhos que um homem precisa ter para se centrar na vida. Porm, no pode ser qualquer mulher. Para D.C, tem de ser uma jovem culta, inteligente 
e ambiciosa. De fato, ela  a pretendente que escolhi para ele quando os dois ainda eram crianas. At que fui paciente durante todo esse tempo... Com o passar dos 
anos, aprendi a conhecer meu neto muito bem e agora sei exatamente como lidar com ele. D.C.  um cabea-dura. Do tipo que decide ir para a esquerda s porque o aconselhamos 
que seria melhor ir para a direita. Talvez esse temperamento seja resultado dos oito anos de infncia em que passou tendo o pai como presidente. Havia muitas regras 
a serem seguidas, e D.C. sempre detestou regras.
Mas agora que estou contando com a ajuda de uma velha amiga, finalmente verei o jovem Daniel Campbell seguir na direo certa. Deixemo-lo pensar que est agindo 
por conta prpria. Um homem sbio no deve contar com agradecimentos, apenas com resultados.

PARTE I


1

Uma rstia de luz atravessou as amplas janelas, incidindo sobre os carregados matizes em tons de safira e de rubi. A luz tambm atingiu o artista que se encontrava 
diante do cavalete, lidando com o pincel feito um soldado empunhando uma espada em plena batalha.
De fato, ele tinha o semblante de um guerreiro. Os traos bem definidos denunciavam um carter intenso, determinado, e os lbios polpudos se encontravam firmemente 
unidos, devido  concentrao. Os olhos muito azuis, ressaltados por sobrancelhas espessas, no perdiam nenhum detalhe da tela. Os cabelos de um tom castanho-avermelhado, 
semelhante ao mogno, passavam por sobre o colarinho da camisa jeans, atribuindo-lhe uma aparncia jovial e ousada ao mesmo tempo. As mangas dobradas at a metade 
do antebrao mostravam parte dos msculos firmes se movimentando conforme ele aplicava o pincel sobre a tela.
Sim, ele se parecia muito com um guerreiro: ombros largos, corpo atltico e pernas esguias. Os ps descalos estavam plantados firmemente no cho e as mos sujas 
de tinta indicavam que ele estava ali desde algum tempo.
Em sua mente, surgiam exploses emotivas, arrebatadoras. Paixo e desejo se misturavam com intensidade, extravasando por meio de seu gil pincel. Ao fundo, o som 
de um rock instrumental completava aquela verdadeira batalha de emoes.
Pintar sempre fora uma espcie de batalha para ele. Uma batalha da qual ele participava com o intuito de vencer, sempre vencer. Quando estava com disposio, costumava 
trabalhar at seus braos doerem. Mas quando seu estado de esprito no o animava a ficar diante de uma tela, ele era capaz de deixar a pintura de lado durante dias 
ou at mesmo semanas.
Algumas pessoas diziam que D.C. MacGregor no tinha disciplina. Mas ele sempre argumentava: "Quem diabo precisa dela?"
Ao segurar o cabo do pincel entre os dentes, enquanto abria um tubo de tinta verde-esmeralda, um brilho de triunfo surgiu em seus olhos. Seu mais novo trabalho estava 
quase pronto. As horas de batalha estavam quase chegando ao fim.
Uma gota de suor escorreu pelo centro de suas costas. A essa altura, o sol que entrava pela janela havia se tornado mais intenso, deixando o ateli abafado. Na verdade, 
ele havia se esquecido de ligar o ar-condicionado e de abrir algumas janelas.
Tambm se esquecera de comer, de verificar a correspondncia, de atender ao telefone e at mesmo de observar pelo menos por um instante a linda paisagem que se estendia 
alm das amplas janelas do apartamento. Sua energia parecia estar fluindo com a mesma urgncia com que o roqueiro dedilhava as cordas da guitarra, fazendo o som 
vigoroso ecoar pelo ambiente.
Depois de mais algumas pinceladas, deu um passo atrs c curvou os lbios em um sorriso satisfeito.
- Pronto - murmurou.
Colocou o pincel no vidro com solvente e comeou a limpar a esptula evasivamente, enquanto examinava o resultado de seu trabalho.
- Desejo - anunciou. Aquela obra se chamaria Desejo.
Pela primeira vez, em horas, deu-se conta de que o aposento estava abafado. Um forte cheiro de terebintina e de tinta recendia pelo ar. Atravessando o ateli improvisado, 
abriu uma das janelas e respirou o agradvel ar fresco.
Haviam sido justamente aquelas amplas janelas e a belssima vista do Canal C&O que o tinham levado a comprar aquele apartamento, quando decidira voltar para Washington. 
Havia crescido ali, e passara oito anos de sua infncia na Casa Branca, como o filho mais velho do presidente.
Durante algum tempo, vivera e trabalhara em Nova York, e gostara muito de l. Tambm j havia morado em San Francisco, cidade que lhe deixara saudades. Porm, durante 
todos aqueles anos, algo sempre parecera atra-lo para Washington. At que ele finalmente cedera. De fato, ali era seu lar.
Com um suspiro, permaneceu diante da janela, com as mos nos bolsos traseiros do jeans desbotado. A vegetao estava mais verdejante do que nunca e as guas do canal 
brilhavam sob o intenso sol da tarde.
Que dia do ms seria? D.C. se perguntou. Enquanto, tentava encontrar a resposta, ouviu seu estmago roncar e deu-se conta de quanto estava faminto. Ainda com o som 
do rock ecoando pelo ar, dirigiu-se  cozinha.
O apartamento era duplex, mas o andar de cima comportava apenas uma grande sute. Com uma espcie de biombo, D.C. havia dividido o aposento em dois e transformara 
uma parte em seu ateli. Dormia em um colcho deixado do outro lado do quarto. Desde que chegara, no tivera nimo para sair e comprar uma cama.
A maioria de suas roupas ainda se encontrava guardada nas caixas que haviam chegado de navio, dois meses antes. As caixas estavam servindo como um bom guarda-roupa 
improvisado, enquanto ele no encontrava tempo e disposio para comprar um de verdade.
O andar principal tinha um living espaoso, cercado por outro conjunto de janelas amplas. Tudo que havia nele era um sof, ainda com a etiqueta, uma bela mesa Duncan 
Phyfe, com uma considervel camada de poeira, e um abajur de cho, com uma haste de metal trabalhado. O nico item que encobria parte do assoalho era um tapete bege 
que parecia ter ido parar ali por mero acaso.
Os armrios da cozinha estavam praticamente vazios. A loua que no se encontrava na pia continuava nas caixas, deixadas a um canto. D.C. abriu a geladeira e no 
gostou nem um pouco de v-la vazia, exceto por trs latas de cerveja, uma garrafa de vinho branco e dois ovos.
Poderia jurar que sara para fazer compras! Mas onde estariam elas? Ao abrir a portinhola da despensa, encontrou alguns pedaos de po mofado, um pacote de caf, 
trs caixas de cornflakes e uma lata de sopa.
Com um suspiro resignado, abriu uma das caixas de cereal e comeu um punhado, enquanto se decidia entre preparar um caf ou tomar um banho. Havia acabado de optar 
por preparar o caf, e lev-lo consigo para o banho, quando o telefone comeou a tocar.
Ainda mastigando os flocos de milho, adiantou-se para atend-lo.
- Al?
- Oh, a est meu rapaz.
Um brilho surgiu nos olhos azuis de D.C. enquanto se encostava no balco, com os lbios curvados em um sorriso.
- Ei, vov. O que est aprontando dessa vez?
- Algo diablico pode ter certeza - respondeu Daniel, com bom humor. - Nunca ouve os recados, rapaz? Falei com essa maldita secretria eletrnica mais de cinco vezes 
nos ltimos dias. Sua av j estava querendo ir at a, para saber se no havia lhe acontecido alguma coisa.
D.C. arqueou uma sobrancelha. Todos na famlia sabiam que o velho Daniel sempre usava o nome da esposa quando queria censurar algum dos netos.
- Eu estive trabalhando, vov.
- timo. Sim, isso  timo, mas precisa parar um pouco de vez em quando, no?
- Na verdade, estou no meio de uma parada.
- Quero lhe pedir um favor, D.C. Detesto ter de fazer isso, mas no tenho outra escolha.
Daniel exalou um longo suspiro, levando o neto a franzir o cenho.
- O que foi vov?
- Voc no vai gostar... E no posso culp-lo por isso. Estou com um probleminha. Sua tia, Myra...
- Ela est bem?
D.C. se desencostou do balco. Myra Dittmeyer era a amiga mais antiga e querida de sua av, sua madrinha e uma participante ativa do cl dos MacGregor. D.C. sempre 
a adorara. Com sentimento de culpa, lembrou-se de que no havia ido visit-la desde que chegara a Washington, seis semanas antes.
- Oh, ela est tima, meu rapaz. No se preocupe com isso. Myra est mais saudvel do que nunca. Mas  que... Bem, ela tem outro afilhado, alm de voc, sabia? Na 
verdade, trata-se de uma afilhada. No creio que se lembre dela, afinal vocs se encontraram apenas uma ou duas vezes quando ainda eram crianas. O nome dela  Layna 
Drake.
D.C. repetiu o nome mentalmente, at que a vaga imagem de uma menina franzina e com cabelos cacheados surgiu em sua memria.
- O que h com ela? - perguntou ao av.
- Ela est de volta a Washington, depois de passar algum tempo fora. As lojas de departamentos da rede Drake's pertencem  famlia dela. Layna est trabalhando na 
loja principal e Myra... Bem, vou falar de uma vez. Haver um baile beneficente amanh  noite, e Myra est aborrecida porque Layna no tem um acompanhante. Por 
isso, ela me pediu para lhe perguntar se...
- Pelo amor de Deus, vov! - D.C. o interrompeu.
- Eu sei, eu sei. - Daniel usou outro de seus longos suspiros. - Isso  coisa de mulher, meu rapaz. O que posso fazer? Elas ficam falando no nosso ouvido at cedermos 
de uma maneira ou de outra, e voc sabe muito bem como  isso. Eu disse a Myra que iria perguntar a voc. Faria um grande favor a seu av se fizesse um esforo para 
colaborar.
- Se voc e Myra estiverem tramando alguma coisa... Daniel o interrompeu com um riso espontneo, do outro lado da linha. D.C. franziu o cenho mais uma vez.
- No  nada disso, D.C. Na verdade, essa garota no tem nada a ver com voc, pode acreditar. Admito que ela seja bonita e inteligente, mas no daria certo com voc. 
E um pouco afetada, em minha opinio. Do tipo que mantm o nariz empinado durante a maior parte do tempo, entende o que quero dizer? Para ser sincero, eu no gostaria 
de v-lo se interessar por ela. Se no puder acompanh-la, basta avisar que eu direi a Myra que voc j tinha outro compromisso.
- Amanh  noite? - D.C. passou a mo pelos cabelos. Detestava bailes beneficentes. - Os trajes sero a rigor?
- Receio que sim. - Daniel deu um riso simptico. - Sabe de uma coisa? Direi a Myra que voc no poder ir. Ser tolice desperdiar a noite com uma garota que provavelmente 
o deixar aborrecido. Duvido que vocs dois tenham sequer uma coisa em comum. De qualquer maneira,  melhor voc comear a procurar uma esposa. J passou do tempo 
de se casar e de formar uma famlia, Daniel Campbell. Sua av tem medo de que voc acabe morrendo de fome nesse ateli, sem nenhuma esposa ou filhos para cuidarem 
de voc. Por falar nisso, tenho outra garota em mente para voc. Ela ...
- Eu irei - D.C. o interrompeu, mais por autodefesa do que por vontade prpria.
Se seu av no se importava com a afilhada de Myra, era sinal de que no ficaria telefonando e tentando marcar encontros entre eles. Talvez depois de fazer aquele 
favor para o velho MacGregor, ele parasse de tentar aumentar a famlia. Mesmo no acreditando muito que isso fosse possvel, decidiu que valeria a pena tentar.
- A que horas amanh, e onde terei de apanhar... Como  mesmo o nome dela?
- Oh, ainda bem. Vou ficar lhe devendo essa. O baile comear s oito da noite, no Shoreham Hotel. Layna est morando na antiga casa dos pais, na O Street. - Examinando 
as unhas, Daniel ditou o endereo ao neto. - Agradeo por se dispor a me ajudar, meu rapaz.
D.C. deu de ombros, virando a caixa de cereal na boca, antes de comear a conversar com o av a respeito das novidades sobre a famlia. A certa altura, perguntou-se 
onde teria guardado seu smoking.

- Oh, tia Myra, pelo amor de Deus!
Layna estava vestida apenas com a lingerie, segurando um longo vestido de seda branca diante do corpo. Olhou para a madrinha, a quem tratava por tia, com uma expresso 
atnita.
- Um acompanhante que eu nem sequer conheo?- indagou.
- No exagere, meu bem. - Myra sorriu. - Vocs se conheceram quando eram crianas. Sei que  uma imposio, mas  que Daniel raramente me pede algum favor. Ser 
apenas uma noite, e voc j iria ao baile de qualquer maneira.
- S que eu pretendia ir com voc.
- Mas eu estarei l - afirmou Myra. - D.C.  um rapaz muito gentil, querida. Um pouco excntrico, mas muito gentil.- Ela sorriu. - Claro que meus afilhados so pessoas 
maravilhosas.
Myra continuou sorrindo ao sentar-se na cama e observar a afilhada. Myra tinha cabelos brancos e macios como algodo. Embora estivesse na casa dos setenta anos, 
sua mente era astuta e dinmica. Mas quando a situao exigia, como naquele momento, usava seu ar mais frgil para conseguir o que queria. "A indefesa viva Dittmeyer" 
ela pensou, contendo a vontade de rir.
- Daniel se preocupa com ele - prosseguiu. - E eu tambm. Mas quem poderia imaginar que Daniel teria essa idia quando eu mencionei que voc havia voltado para Washington 
e que iria ao baile de hoje  noite? No tive como... - Myra agitou as mos, sem palavras. - No consegui dizer "no", entende? Mas sei que  uma imposio.
Layna suspirou. Sua madrinha pareceu to triste e embaraada com a situao que a fez voltar atrs.
- No tem importncia, tia Myra. Como voc mesma disse, eu iria de qualquer maneira. - Colocou o vestido com elegncia. - Iremos encontr-lo no baile?
- Ah... - Tentando calcular o tempo, Myra ficou de p. - Na verdade, ele chegar dentro de poucos minutos para apanh-la. Irei encontr-los por l. Meu Deus, veja 
que horas so! Meu motorista j deve estar se perguntando por que no apareci ainda.
- Mas...
- Nos veremos no baile, querida.
Dizendo isso, Myra se encaminhou para a porta, com uma agilidade surpreendente para uma mulher de sua idade.
- Oh, e voc est linda - falou, antes de seguir pelo corredor sem olhar para trs.
Layna continuou de p diante do espelho, com o zper do vestido aberto nas costas. Tpico, pensou com um suspiro. No esperava uma atitude diferente de sua madrinha. 
Myra vivia tentando lhe arranjar pretendentes, o que a deixava sempre com a embaraosa tarefa de rejeit-los.
Casamento era algo que ela considerava estar totalmente fora de seu plano de vida. Depois de crescer em meio a uma famlia onde as boas maneiras eram mais valorizadas 
do que o amor, e romances casuais eram polidamente ignorados, no tinha a mnima inteno de acabar tendo esse mesmo tipo de relacionamento com algum.
Os homens serviam como timas companhias temporrias, desde que ela estivesse no comando do jogo, claro. No momento, porm, sua carreira era muito mais importante 
do que ter algum com quem jantar no sbado  noite.
Pretendia continuar sua escalada na Drake's e nada a faria desistir disso. Segundo seus clculos, dentro de dez anos ela estaria apta a ocupar o cargo de gerente 
executiva da empresa. Essa era sua principal meta.
A Drake's no era apenas uma rede de lojas de departamentos, era uma instituio. Se continuasse solteira, poderia devotar todo seu tempo e energia para manter a 
reputao e o estilo da empresa.
No queria ser como sua me. Definitivamente no, pensou, franzindo o cenho. Donna Blake sempre considerara a Drake's apenas como uma extenso de seu guarda-roupa, 
nada mais. Matthew Blake, por sua vez, preocupava-se apenas com os lucros da empresa. Por isso, rejeitava as idias da filha, que vivia tentando inovar e criar novos 
setores na loja, s que mantendo a tradio e o estilo da conhecida rede de lojas.
Layna sempre tivera idias muito prprias e isso parecia incomodar a famlia de alguma maneira. Para ela, a Drake's era uma responsabilidade, mas tambm uma fonte 
de prazer. Seus colegas de trabalho e a rede de lojas eram sua verdadeira famlia. Algumas pessoas podiam at considerar a idia meio decadente, mas ela prpria 
a considerava muito confortadora.
Com um movimento preciso, fechou o zper do vestido. Uma parte de sua responsabilidade com relao  Drake's dizia respeito s funes sociais da empresa. Por isso 
teria de comparecer quele baile. A outra parte do "trabalho" significava ter um acompanhante apropriado, j que era o que todos esperavam.
Pelo menos dessa vez sua tia no demonstrara nenhum interesse real em aproxim-la de seu acompanhante. Ao longo das horas seguintes, tudo com que teria de se preocupar 
seria em manter uma conversa superficial com D.C. MacGregor. Nada mais, nada menos. De qualquer maneira, tinha um ponto a seu favor: nunca fora tmida para conversar 
com estranhos.
Aproximando-se da penteadeira, pegou um par de brincos com pingentes de prolas e brilhantes. A decorao do quarto era um reflexo de sua preferncia pessoal: elegncia 
discreta com um ligeiro toque de ousadia. A cama antiga, feita de cerejeira entalhada, a superfcie cuidadosamente polida da escrivaninha, da penteadeira e da mesinha-de-cabeceira,
 onde havia vasos com flores frescas, as discretas peas de arte... Tudo ali parecia emanar uma atmosfera de bom gosto.
Layna ainda pretendia morar ali por algum tempo, at conseguir ter seu prprio espao. Por isso, decidira deixar o quarto com o aspecto mais prximo possvel daquele 
que teria o quarto de seu prprio apartamento. Felizmente, seus pais haviam decidido passar algum tempo em Nova York. Pelo menos lhe restariam alguns dias de paz 
at que eles decidissem voltar e tentar mandar em sua vida. Essa sempre fora a parte mais difcil que ela enfrentara ao lidar com eles.
Ao lado da pequena lareira de mrmore, situada a um canto do quarto, via-se um estojo aberto sobre uma mesinha, exibindo uma bela coleo de pequenos vidros de perfume. 
Enquanto escolhia um deles, deu-se a liberdade de pensar, ainda que por um instante, em quanto daria tudo para passar uma noite tranqila em casa, vestida com um 
pijama confortvel e lendo um bom livro em sua cama.
Havia acabado de sair de um turno de dez horas na Drake's. Seus ps estavam doendo, sua mente exausta e seu estmago vazio.
Decidindo deixar aqueles "meros detalhes" de lado, virou-se mais uma vez para o espelho inteirio. O vestido longo emoldurava seu corpo com perfeio, deixando-a 
atraente e feminina ao mesmo tempo. O toque final de sofisticao ficava por conta da parte superior do modelo, que mostrava seus ombros nus. Com cuidado, vestiu 
o casaquinho bordado com prolas, colocou os sapatos forrados com cetim branco e verificou o contedo de sua pequena bolsa de mo feita de madreprola.
Ao ouvir a campainha, suspirou com desnimo. Pelo menos ele era pontual, pensou. Lembrava-se vagamente de haver conhecido D.C. durante a infncia. Ao ser apresentada 
ao pai dele, na poca o presidente dos Estados Unidos, ficara nervosa e impressionada demais para prestar ateno a qualquer outro detalhe. Porm, ouvira falar dele 
ao longo dos anos.
D.C. era um artista, lembrou a si mesma, enquanto descia a escada. E pertencente  escola moderna, que ela nunca fizera muita questo de entender. Suas preferncias 
se voltavam para o clssico em todos os sentidos. Teria sido mesmo verdade que ele e uma bailarina haviam tido um relacionamento escandaloso alguns anos antes? Ou 
teria sido uma atriz?
Bem, no valeria a pena ficar se questionando a respeito disso. Afinal, at mesmo um espirro do filho de um ex-presidente era notcia suficiente para aparecer nas 
manchetes dos jornais. Alm disso, ser o neto de Daniel MacGregor aumentava ainda mais sua notoriedade. Devia ser desagradvel estar sempre sendo assediado por reprteres 
sedentos por notcias sensacionalistas. Ela prpria preferia viver nos bastidores, sem ter de enfrentar as luzes da ribalta.
De qualquer maneira, ele no devia ser l muito atraente, j que precisara da ajuda do av para encontrar uma acompanhante para um baile de sbado  noite.
Ensaiando seu melhor sorriso, Layna se adiantou e abriu a porta. De fato, somente os anos de disciplina adquirida em uma escola sua de freiras impediram-na de 
arregalar os olhos e ficar boquiaberta.
Aquele homem estonteantemente bonito, trajando smoking, com cabelos de prncipe encantado e olhos azuis que pareciam capazes de ler sua alma, precisara mesmo da 
ajuda do av para encontrar uma acompanhante? Ah, aquela histria estava muito mal contada.
- Layna Drake?
"S posso estar na casa errada", foi tudo que D.C. conseguiu pensar. Aquela belssima mulher, cuja aparncia lembrava a delicadeza de uma gaivota branca, no se 
parecia nem de longe com a imagem da menina franzina que ele trazia na lembrana.
Os longos cabelos loiros caam em ondas sedosas sobre seus ombros, terminando em pontas ligeiramente cacheadas. Deus, ele estava diante de um anjo! Justo ele, que 
se considerava um grande pecador. Talvez o paraso houvesse decidido lhe dar uma chance.
Fitando o rosto de traos perfeitos, e sentindo-se hipnotizado pelo brilho inteligente daqueles olhos verdes, continuou esperando por uma resposta.
Layna se recuperou da surpresa mais do que depressa e estendeu a mo para ele, mantendo o sorriso.
- Sim, sou Layna Drake. E voc  Daniel MacGregor, certo?
- Apenas D.C. Daniel  meu av.
- D.C. ento.
Normalmente, Layna o convidaria para entrar e cumpriria o papel de anfitri por alguns minutos, para terem a chance de ficar mais  vontade na companhia um do outro. 
No entanto, no se sentiu segura o suficiente para fazer isso com ele. D.C. era atraente e msculo demais para sua paz de esprito.
Deliberadamente, deu um passo adiante e fechou a porta atrs de si.
- Vamos?
- Sim, claro.
Enquanto andavam em direo ao carro, D.C. passou um leno discretamente pela testa. Pelo visto, teria uma longa noite pela frente.
Assim que olhou para o excntrico carro esporte estacionado diante da casa, Layna se perguntou como conseguiria entrar nele com aquele vestido. No se lembrava de 
ter feito nenhum curso de contorcionismo nos ltimos tempos.
"Oh, tia Myra, o que voc foi me arranjar desta vez...", lamentou com um suspiro.

2

Layna estava se sentindo trancada em um sapato mecnico com um gigante a seu lado. D.C. devia ter mais de um metro e oitenta, mas parecia perfeitamente  vontade 
dirigindo seu carro de brinquedo. E em alta velocidade, segundo ela logo teve chance de perceber. O trfego intenso de Washington no parecia ser problema para ele.
Quando deu por si, estava segurando a maaneta da porta com tanta fora que seus dedos haviam ficado esbranquiados. Em um gesto automtico, verificou o cinto de 
segurana e rezou para no acabar com o rosto colado no pra-brisa antes mesmo do incio da noite.
Melhor seria tentar conversar sobre amenidades. Talvez assim conseguisse parar de pensar no risco que estava correndo.
- Tia Myra me disse que fomos apresentados h alguns anos, quando seu pai era presidente.
A ltima palavra saiu entrecortada quando D.C. passou o carro por entre um nibus e uma limusine, antes de voltar  pista principal.
Foi o que eu tambm soube - respondeu ele, despreocupadamente.
- Voc se mudou para Washington h pouco tempo?
- Sim.
Dando-se conta de que havia fechado os olhos, Layna voltou a abri-los e levantou o queixo, fingindo demonstrar uma coragem que estava longe de sentir.
- Eu tambm - afirmou D.C.
Deus, ela estava usando um perfume maravilhoso, pensou ele. Dando-se conta de que aquilo poderia perturbar sua concentrao, abriu um pouco sua janela, deixando 
o ar da noite invadir o carro.
- Oh,  mesmo?
Layna conteve o flego, sentindo o corao acelerar. Seria possvel que ele no estava vendo o semforo prestes a fechar? No ia diminuir a velocidade? Conteve uma 
exclamao de susto quando o carro passou direto pelo cruzamento bem no instante em que a luz amarela do semforo havia mudado para vermelha.
- Estamos atrasados? - perguntou, recuperando-se do susto.
- No, por qu?
- Voc parece estar com pressa.
- No exatamente - respondeu D.C.
- Acabou de passar pelo semforo vermelho. Ele arqueou uma sobrancelha.
- Estava amarelo.
- Bem, pensei que a luz amarela indicasse que o motorista
deve diminuir a velocidade e se preparar para parar.
- No se voc quiser chegar a seu destino. Foi a vez de Layna arquear uma sobrancelha.
- Voc sempre dirige assim?
- Assim como? - indagou D.C, com um ar inocente.
- Como se estivesse fugindo depois de assaltar um banco. Ele riu da comparao espirituosa.
- Sim. - Virou a esquina do hotel e parou com uma breve cantada de pneus. - Meu estilo de dirigir me faz ganhar tempo - explicou, saindo facilmente do carro.
Layna continuou paralisada, enquanto sua respirao voltava ao normal. Em pensamento, agradeceu por haver chegado inteira, mas ainda estava na mesma posio quando 
D.C. entregou as chaves ao manobrista e abriu a porta para ela.
- Acho melhor soltar o cinto de segurana - ele sugeriu, com um brilho de divertimento no olhar.
Depois que Layna soltou o cinto, D.C. tomou-lhe a mo e ajudou-a a sair do carro. A proximidade entre eles fez uma onda de perfume envolv-lo mais uma vez, deixando-o 
com os sentidos estranhamente aguados.
Tinha de admitir que ela era linda. Tinha um rosto com traos exticos e clssicos ao mesmo tempo. Sem dvida, uma intrigante combinao. Embora sua especialidade 
no fosse pintar retratos, s vezes seu olhar de artista o levava a esboar rostos que o interessavam. E o de Layna parecia perfeito para um esboo.
Layna sentiu a respirao voltar ao normal. Estava com as pernas um pouco trmulas, mas o importante era ainda estar viva.
- No deveria ser permitido que pessoas como voc tirasse carta de motorista e sassem dirigindo por a feito loucas. Principalmente algum do seu tamanho, ao volante 
de uma lata de sardinhas sobre rodas.
- Meu carro  um Porsche - corrigiu D.C, ainda segurando a mo dela, enquanto se encaminhavam para a entrada do hotel. - Se queria que eu diminusse a velocidade, 
por que simplesmente no pediu?
- Estava ocupada demais rezando para no morrer. D.C. sorriu com bom humor. Mas nem mesmo isso serviu para amenizar o brilho perigoso que Layna identificou nos olhos 
dele. De fato, o riso espontneo serviu apenas para enfatiz-lo.
- Bem, parece que suas preces foram atendidas - disse ele. - Par onde teremos de ir?
Sem responder  pergunta, Layna se aproximou dos elevadores e apertou o boto de chamada. Quando as portas se abriram, ela entrou primeiro e apertou o boto do andar 
para onde iriam.
Atrs dela, D.C. revirou os olhos com impacincia.
- Ah... - Como era mesmo o nome dela? - Layna? Se ficar mal-humorada, teremos uma noite longa e tediosa.
Ela continuou olhando para frente, tentando se manter calma.
- No estou mal-humorada - declarou, com um tom de voz que no denotava o mnimo bom humor.
Somente uma boa dose de educao refinada a impediu de sair correndo do elevador assim que as portas se abriram. Em vez disso, porm, saiu com elegncia e ficou 
de lado, esperando que D.C. se unisse a ela.
Ao segur-la pelo brao, D.C. notou que Layna havia ficado corada depois do acesso de indignao. Um toque de calor a um semblante clssico. Sem dvida, uma combinao 
interessante do ponto de vista artstico. Se tivesse algum interesse por ela, com certeza daria um jeito para que o adorvel tom rosado aparecesse mais vezes naquele 
rosto bonito.
Mas j que no tinha nenhum interesse, e que pretendia ter uma noite tranqila, decidiu manter a diplomacia.
- Desculpe-me - disse a ela.
"Desculpe-me?", pensou Layna, enquanto D.C. a conduzia ao salo de baile. Aquilo era tudo que ele tinha a dizer? Pelo visto, ele no havia herdado as habilidades 
diplomticas do pai.
Pelo menos o salo estava cheio de convidados animados, e ela no teria de passar a festa inteira falando sobre amenidades com seu acompanhante. Assim que a boa 
educao permitisse, pretendia encontrar algum mais sensvel com quem conversar.
- Aceita vinho? - D.C. ofereceu. - Branco ou tinto?
- Branco, obrigada.
At ento, estava tudo sob controle, pensou D.C, enquanto pegava um clice de vinho para Layna e um copo de cerveja para si prprio. Deu graas por seu av no estar 
por perto, bancando o casamenteiro.
- Oh, a est voc! - Myra se adiantou, com as mos estendidas na direo dos dois.
No formavam um lindo casal? Oh, mal podia esperar para contar a Daniel como seus pimpolhos ficavam bem juntos.
- D.C, voc est simplesmente maravilhoso - elogiou-o, oferecendo o rosto para um beijo.
- Reservou uma dana para mim? - gracejou ele.
- Claro que sim. Seus pais esto aqui, querido. Por que no vm se sentar conosco um pouquinho? - Dizendo isso, ficou no meio dos dois e enlaou os braos por suas 
cinturas, impelindo-os a seguir em frente. - Sei que querem se divertir e danar, mas vou me dar ao luxo de ser um pouco egosta por alguns minutos.
Com uma habilidade e um estilo adquiridos depois de muita prtica, Myra os acompanhou por entre os convidados at alcanar as mesas, guarnecidas com toalhas brancas 
e pequenos vasos com flores frescas.
Myra estava morrendo de vontade de observar os dois por algum tempo. Queria estudar os pequenos detalhes da linguagem corporal, para ver como eles se comportavam 
na presena um do outro. De sbito, comeou at a imaginar qual seria a lista de convidados para o casamento.
- Vejam s quem eu encontrei - anunciou, com um sorriso.
- D.C.! - Shelby Campbell MacGregor ficou de p.
O vestido de seda verde-Iimo esvoaou quando ela abriu os braos para cumprimentar o filho. Os cabelos cacheados, reunidos em um coque no alto de sua cabea, roaram 
o rosto de D.C.
- Eu no sabia que voc viria a este baile - disse a ele.
- Nem eu - confessou D.C.
Depois de mant-la junto de si por alguns segundos, virou-se para abraar o pai com fora.
Os cabelos grisalhos de Alan MacGregor brilhavam sob as luzes do salo. Seus lbios se curvaram em um sorriso satisfeito, quando ele olhou para o filho.
- Meu Deus, voc est ficando cada dia mais parecido com seu av.
Bem, at mesmo uma esttua insensvel adoraria a famlia de D.C, concluiu Layna. Sentiu-se mais tranqila ao ver-se em meio a pessoas to gentis e simpticas.
Se seus pais estivessem em circunstncias semelhantes, com certeza haveria apenas uma troca superficial de cumprimentos.
Shelby olhou em sua direo, com um sorriso amvel e um brilho de curiosidade nos olhos acinzentados.
- Shelby, esta  minha afilhada, Layna Drake - anunciou Myra, com um ar de orgulho.
-  um prazer conhec-la, Sra. MacGregor.
Shelby cumprimentou-a com um aperto de mo, satisfeita ao notar a firmeza do toque de Layna.
-  filha de Donna e Matthew?
- Sim - Layna confirmou. - Eles esto viajando no momento.
- D lembranas minhas a eles, quando os encontrar. Alan, esta  Layna Drake, filha de Donna e Matthew, lembra? E afilhada de Myra.
- Claro que me lembro - afirmou ele, com um sorriso. - Myra fez timos elogios a seu respeito. - Estendeu a mo para cumpriment-la. - Mudou-se para Washington?
- Sim - respondeu Layna. - E bom estar de volta. E  uma honra encontr-lo novamente, Sr. MacGregor. Fui apresentada ao senhor quando ainda era criana. Confesso 
que fiquei aterrorizada.
Ele riu, puxando uma cadeira para ela.
- Eu era to assustador assim? Layna tambm riu, sentando-se.
- No. Mas sua aparncia era muito... Presidencial. Eu havia acabado de perder os dois dentes da frente e estava me sentindo a mais desengonada das criaturas. Ento 
o senhor me contou a histria da fada dos dentes. - Ela sorriu. - E eu me apaixonei no mesmo instante.
- E mesmo?
Alan deu uma piscadela para a esposa quando ela riu.
- Voc foi minha primeira vtima - gracejou ele. - E levou pelo menos dois anos at ser substituda por Dennis Riley, que sempre se sentia embaraado quando tinha 
de usar o uniforme de escoteiro. No sei por que, mas depois da conversa que tive com o garoto, ele passou a adorar aquela roupa.
Todos riram. D.C. olhava a cena com ateno. Estava sendo interessante observar Layna conversando com seus pais. Aquela atmosfera animada parecia estar fazendo bem 
a todos. O ar esquivo continuava a se esconder em algum canto daqueles belos olhos verdes, mas o charme e a vivacidade o haviam sobrepujado, tornando Layna to linda 
quanto uma flor recm-desabrochada.
Aquele sorriso sexy, mas discreto, trouxe  sua viso de pintor a imagem de um arco-ris surgindo no meio de uma nuvem. Para um artista, nada era impossvel.
Teve de admitir que era um prazer observ-la daquela maneira. Os gestos polidos, os cabelos dourados deslizando sobre os ombros esguios, o formato delicado e convidativo 
dos lbios rubros...
Tambm era fascinante ouvi-la falar. A voz firme e ligeiramente rouca mantinha-se em um tom sempre ameno, levando-o a imaginar quanto seria agradvel ouvi-la com 
mais freqncia.
- D.C., pelo amor de Deus!
Ele despertou do devaneio quando a me o cutucou e abaixou o tom de voz ao dizer:
- Voc nem a convidou para danar!
- O qu?
- Convide Layna para danar - sussurrou ela, com um ar impaciente. - Onde esto seus bons modos?
- Oh, sinto muito.
"Droga", pensou ele, tocando o ombro de Layna mesmo contra a vontade.
Ela quase pulou na cadeira, voltando-se para D.C. no mesmo instante. Acabara se esquecendo de que ele estava ali perto. No deveria estar agindo assim. Onde estavam 
seus bons modos? Afinal, D.C. era seu acompanhante, por mais que isso no a agradasse.
Mostrando seu melhor sorriso, preparou-se para deixar os pais dele um pouco de lado e dar mais ateno ao dono do Porsche assassino.
- Quer danar um pouco? - convidou ele.
Layna conteve o flego. Se D.C. danasse como dirigia, ela teria sorte em sair da pista de dana caminhando com os prprios ps.
- Sim, claro.
Sentindo-se como algum prestes a entrar em uma jaula de lees, ficou de p e deixou que ele a conduzisse at a pista de dana.
Pelo menos a msica estava agradvel, pensou ela. Lenta, ritmada, romntica... Bem, a ltima caracterstica no vinha ao caso. Vrios casais estavam aproveitando 
o momento de descontrao e a pista de dana se encontrava cheia.
Layna chegou a alimentar a esperana de que seu acompanhante desistisse da dana ao ver toda aquela gente mais de perto, mas no adiantou. Assim que puderam se encaixar 
no meio dos casais, ele se virou e enlaou-a entre os braos.
Ela disse a si mesma que o arrepio que sentiu pelo corpo foi apenas resultado de sua surpresa. Quem poderia imaginar que algum to alto e atltico como D.C. podia 
se mover com tanta facilidade? Ele no parecia se importar com a quantidade de pessoas ao redor, conduzindo-a como se a pista houvesse sido reservada apenas para 
eles.
A mo apoiada em sua cintura tambm no estava sendo nem um pouco rude ou desajeitada, embora fosse a mais mscula que ela j tinha visto na vida. De sbito, tornou-se 
muito consciente de que havia apenas uma seda fina separando sua pele daquela mo forte. No soube por que, mas aquilo a incomodou e fascinou ao mesmo tempo.
As tnues luzes da pista de dana iluminavam o rosto de traos marcantes e os cabelos ligeiramente crescidos de D.C. Layna olhou para a prpria mo, notando como 
ela parecia pequena sobre aquele ombro largo. Mesmo sob as luzes oscilantes, os olhos muito azuis denotavam um brilho de interesse por seu rosto. Estaria ele avaliando-a 
como artista ou como homem? Bem, seria melhor no saber a resposta.
Tentando afastar a onda de pensamentos comprometedores que insistiam em invadir sua mente, falou a primeira coisa que lhe veio  mente.
- Seus pais so pessoas maravilhosas.
- Tambm gosto muito deles - falou D.C.
Somente ento ele se deu conta de que havia trazido Layna mais para perto de si. Mas seu interesse era meramente artstico, claro. Queria observar melhor o rosto 
dela, e a pouca iluminao no estava colaborando muito.
Layna sentiu o corao acelerar. Em um gesto inconsciente, deslizou a mo sobre o ombro dele at tocar-lhe a nuca.
- Hum... - Sobre o que estavam falando mesmo? - Eu havia me esquecido de como Washington fica agradvel durante a primavera.
- Hum-hum. - Uma onda de desejo invadiu o corpo de D.C. de repente. O que diabos estava acontecendo com ele? - Quero esboar seu rosto.
- Sim, claro - respondeu Layna, sem prestar muita ateno ao que ele havia dito.
No era possvel que uma mulher que passasse tanto tempo sob aquele olhar perscrutador pudesse sair imune da companhia de D.C. MacGregor, pensou Layna. Um suspiro 
escapou-lhe pelos lbios quando ele subiu a mo at suas costas. Teve de admitir que era difcil se manter indiferente quele toque. Mas era preciso. Talvez at 
por uma questo de sobrevivncia.
- timo - disse D.C.
Se inclinasse a cabea, poderia provar o sabor daqueles lbios e descobrir se eram mesmo to doces quanto pareciam. Talvez isso servisse para aliviar o calor em 
seu corpo. Ou para pior-lo.
Os ltimos acordes da msica romntica ecoaram pelo salo. Os casais em torno deles se separaram, pondo um fim  atmosfera de magia. Quando D.C. e Layna finalmente 
se afastaram, entreolharam-se em silncio.
- Obrigada - Layna foi a primeira a falar, aflita para preencher aquele vazio com algum som. Deu graas por sua voz haver sado calma. - Foi muito agradvel danar 
com voc.
- Tambm gostei de danar com voc.
D.C. a segurou pelo brao, enquanto a conduzia de volta  mesa de seus pais. Dessa vez, conseguiu toc-la de uma forma bastante impessoal. Queria deix-la logo em 
companhia de outras pessoas, enquanto tentava recuperar seu raciocnio lgico.
Mostrando-se mais do que disposta a cooperar, Layna permitiu que D.C. a levasse at os pais dele. Precisava sentar-se logo, antes que suas pernas trmulas acabassem 
denunciando seu estado interior.

3

Os planos de D.C. para o domingo eram dormir at tarde, tomar um farto desjejum, que ele j havia comprado previamente, e passar algumas horas no clube.
Depois disso, ainda no tinha certeza se iria passar o resto da tarde sozinho, em casa, ou se iria at a M Street para assistir ao festival de blues.
Porm, seus planos foram por gua abaixo quando ele acordou bem cedo na manh de domingo e no conseguiu mais dormir. Aborrecido, cobriu a cabea com o travesseiro 
e tentou adormecer. Havia tido uma noite de sono agitado. Acordara vrias vezes e, sempre que estava quase adormecendo, flagrava-se sonhando com Layna. A imagem 
do rosto dela surgira em sua mente com uma inquietadora freqncia ao longo da noite.
No tinha motivos para pensar tanto em Layna Drake. O contato que tivera com ela fora superficial. Nada alm de uma dana e algumas horas de conversa entrecortada.
Depois a levara para casa, mantendo seu carro deliberadamente a uma velocidade reduzida, sinalizando a cada curva e freando com gentileza. Ao se despedirem, haviam 
trocado apenas um aperto de mos diante da casa dela. Tinha certeza de que ele no fora o nico a sentir-se aliviado com o fim da noite.
Justamente por isso parecia to ridculo que a imagem do rosto dela continuasse a surgir em sua mente com tanta insistncia. Como se no bastasse, era como se ele 
tambm pudesse se lembrar de cada sensao que experimentara ao toc-la, ao sentir aquele delicioso perfume e ao imaginar aqueles lbios sob os seus.
Talvez estivesse apenas impressionado com o rosto dela, nada mais. De um ponto de vista artstico, claro.
Tentando se livrar de todas aquelas impresses, foi ao clube mais cedo. Depois de passar horas jogando squash e suando at molhar a camisa, disse a si mesmo que 
estava se sentindo melhor. Quando voltou para o apartamento, considerou-se mais do que pronto para aquele generoso desjejum, planejado desde o dia anterior.
Ligou o aparelho estreo em um volume considervel, arregaou as mangas da camisa preta e foi para a cozinha fritar tiras de bacon. Sentindo-se muito mais calmo 
e controlado, cantarolou com Bruce Springsteen, enquanto tambm preparava ovos mexidos.
Quando o telefone tocou, continuou cantarolando e atendeu-o com uma s mo, enquanto mexia a panela.
- Ah, pelo visto j est acordado e em plena atividade - disse Daniel, do outro lado da linha, - Baixe um pouco essa msica, rapaz. Desse jeito, acabar surdo.
- Espere um pouco.
D.C. demorou alguns segundos procurando o controle remoto. Como sempre, nunca conseguia encontr-lo quando precisava dele. Por fim, desistiu e foi baixar o som manualmente. 
Ao chegar novamente  cozinha, comeu um pedao de bacon antes de voltar ao telefone.
- Sim, estou acordado e em plena atividade, vov. J fui ao clube jogar squash e agora voc me flagrou prestes a entupir um pouco de artrias.
- J sei, ovos mexidos com bacon. - Daniel suspirou.- Ainda me lembro de quando costumava sentar  mesa aos domingos pela manh para comer essa maravilha. Sua av 
 uma carrasca, sabia? Vive controlando meu colesterol e no me deixa ver nem a foto de um pedao de bacon de algum tempo para c.
- Pois estou comendo um pedao de bacon tostadinho neste exato momento - D.C. o provocou, com um sorriso deliberadamente maldoso. - Hum... Est incrvel!
- No tem a mnima piedade de seu av, no , rapaz? - Daniel suspirou novamente. - E pensar que eu telefonei para agradecer pelo favor que me fez. Depois do que 
acabei de ouvir, espero que tenha tido uma noite horrvel acompanhando a afilhada de Myra.
- Eu sobrevivi.
- Bem, fico aliviado por isso. Sei que tem coisas mais importantes a fazer. No que Layna no seja uma garota adorvel. S que no a considero adequada para voc. 
Estamos procurando uma jovem mais... excntrica para voc.
D.C. franziu o cenho.
- Posso fazer isso sozinho, obrigado.
- De que jeito? - indagou Daniel. - Trancado nesse apartamento e cercado de tintas e telas por todos os lados? Duvido! Voc deveria estar procurando um pouco de 
romance, D.C. No sabe quanto sua av sofre ao v-lo fechado dia e noite nesse apartamento?
- Hum-hum.
Mais do que acostumado a ouvir o mesmo discurso, D.C. colocou outro pedao de bacon na boca.
- O lugar onde voc mora parece mais um hospcio, isso sim - continuou Daniel. - Na idade em que est, precisa de uma casa decente, de uma boa esposa e de filhos 
barulhentos. Mas no telefonei para lembr-lo de algo que voc j deveria ter feito. Estou realmente agradecido pelo que fez. Antes de conhecer sua av, lembro bem 
como era terrvel ter de passar uma festa inteira aborrecido, ouvindo conversas cansativas de garotas que no tinham nada de interessante para dizer. Como eu, naquela 
poca, voc precisa  de uma garota dinmica, disposta a lutar a seu lado se for preciso. E claro que no encontrar essas caractersticas em Linda.
- Layna - D.C. corrigiu com um resmungo, sentindo-se irritado de repente. - O nome dela  Layna, vov.
- Oh, sim, isso mesmo. Nome diferente, no acha? Bem, mas agora que se livrou do encargo, pelo menos no ser forado a v-la novamente. Quando pretende vir visitar 
sua av? Ela est morrendo de saudade.
- Irei assim que puder. - Intrigado, D.C. colocou o restante do bacon tostado em um prato. - O que h de errado com Layna?
- Quem?
Sentado  mesa de seu escritrio, em Hyannis Port, Daniel teve de cobrir o bocal do telefone, at ter certeza de que conseguira conter o riso.
- Layna - D.C. repetiu por entre os dentes. - O que h de errado com ela?
- Oh, nada. Ela  adorvel e tem timas maneiras. S que no  do tipo que combinaria com voc, D.C. Ela trata todos com uma certa reserva, no acha? Os pais dela 
parecem dois icebergs, pelo que me lembro. Bem, mas agora tome seu desjejum e d um jeito de vir visitar sua av logo, antes que ela me deixe maluco.
D.C. sorriu.
- Est bem. Diga a ela que mandei um beijo.
- Pode deixar.
Daniel desligou em seguida. Com um sorriso se insinuando nos lbios, imaginou quanto tempo demoraria para seu neto voltar a entrar em contato com a bela Layna Drake.
D.C. entrou em contato com Layna menos de uma hora depois. Quando seu av desligara, no demorara para perceber que acabara perdendo o apetite.
Aps alguns minutos de hesitao, reuniu o caderno de esboos, os lpis e os gizes em sua velha bolsa de couro e pendurou-a no ombro.
Seu av tinha razo, claro. Mas o fato de o velho Mac-Gregor haver descartado to resolutamente a possibilidade de Layna ter algo em comum com ele deixou D.C. incomodado. 
De fato, aquilo o incomodou tanto quanto as tentativas de seu av em lhe arranjar uma esposa. Afinal, tinha idade mais do que suficiente para fazer suas prprias 
escolhas.
Era evidente que no estava pensando em Layna em termos mais... ntimos. Queria apenas esboar o rosto dela. E j que ela concordara com a idia na noite anterior, 
no haveria maiores problemas em ir  casa dela cumprir a tarefa.
Layna no apareceu quando ele bateu  porta. Intrigado, ajeitou a bolsa no ombro, imaginando se no seria melhor ir at a M Street e fazer alguns esboos por l 
mesmo. Porm, o som delicado e melodioso de um concerto de Vivaldi lhe chegou at os ouvidos, vindo de dentro da casa.
Dando de ombros, abaixou a maaneta da porta. Ao descobrir que esta se encontrava destrancada, entrou na casa.
- Layna?
Olhou em volta, com ar de curiosidade, j que ela no o havia convidado para entrar no dia anterior. O hall tinha um assoalho lustroso e as paredes eram de um agradvel 
tom de bege. Sobre uma antiga mesa de mogno, um vaso com lrios brancos recendia um delicioso perfume pelo ambiente.
Dois quadros pendurados na parede chamaram sua ateno. Tratava-se de dois esboos feitos a lpis, mostrando cenas de rua retratadas por um artista detalhista na 
observao e habilidoso no traado.
Aproximando-se da escada, apoiou a mo sobre o corrimo e olhou para cima, chamando-a mais uma vez. Nenhuma resposta. Pensou em subir, porm achou mais sensato procur-la 
primeiro no andar de baixo.
Layna tambm no estava na sala de visitas, localizada logo depois da escada. O aposento era decorado com uma moblia elegante e prtica ao mesmo tempo. Depois de 
tambm passar pela sala de jantar e pela cozinha, teve uma idia mais clara a respeito das preferncias e do estilo de vida de Layna.
Elegncia e tradicionalismo com alguns toques discretos de modernidade. Layna era uma pessoa conservadora que gostava de coisas belas, preferia msica e mveis clssicos, 
mas que no resistia a um toque mais ousado aqui e acol.
Ao se aproximar da janela da cozinha, avistou-a do lado de fora. O ptio que ia dar no jardim se encontrava repleto de flores. E, no meio delas, estava a mais bela 
de todas: Layna. Usando luvas de jardinagem e um chapu de palha com abas largas, plantava tulipas de vrias cores sob a luz do sol. Trajava um avental marrom, tambm 
prprio para jardinagem, por cima da cala caqui e do fino suter branco.
Aos olhos de D.C., a imagem parecia haver sado de uma revista feminina abordando "O Modo Mais Elegante de Praticar Jardinagem".
A incidncia de luz estava tima, concluiu ele, observando o ambiente atravs da janela. As rvores do jardim tambm estavam perfeitas, com a folhagem nova comeando 
a aparecer nos galhos. Mantendo-se no mesmo lugar, fez trs esboos rpidos.
Enquanto trabalhava, ficou encantado com a habilidade com que Layna lidava com as plantas. Revolvia a terra com uma esptula, acrescentava o fertilizante, transplantava 
a muda com cuidado para o centro do vaso e preenchia o espao restante com mais terra fertilizada.
Os vasos estavam sendo colocados um ao lado do outro, lembrando um pequeno batalho de soldados.
D.C. estava sorrindo quando saiu para o ptio. Layna, que at ento estivera concentrada em sua tarefa, sobressaltou-se ao ouvir a porta da cozinha ser aberta e 
fechada de repente. A esptula caiu no cho, fazendo o rudo da lmina batida contra o piso ecoar pelos ouvidos de ambos.
- Desculpe-me se a assustei - disse D.C.
- Como conseguiu entrar aqui? - indagou ela, levando a mo ao peito.
- Entrei quando vi que a porta estava aberta e que voc no respondeu ao meu chamado.
Ele colocou a bolsa sobre a mesa de ferro, no centro do ptio. Sorriu ao ver um livro de jardinagem aberto na pgina sobre tulipas.
- No pode entrar assim na casa dos outros - ralhou Layna.
- Posso, sim - respondeu ele, aproximando-se e pegando a esptula. - Chamei por voc ao longo da casa, mas no ouvi nenhuma resposta - explicou, entregando a ferramenta 
a ela.
Um delicioso perfume amadeirado invadiu as narinas de Layna. Sempre tivera um fraco por perfumes, principalmente os masculinos.
- Tambm no ouvi nenhum chamado - replicou, mantendo a voz firme.
- Ento estamos empatados. Deveria arrumar os vasos de uma maneira mais desprendida. O estilo ficaria mais moderno.
Estreitando o olhar, segurou o queixo de Layna com delicadeza e virou o rosto dela para a esquerda. Ento estudou seu perfil com ateno.
- Eu disse que queria esboar seu rosto.
Layna se afastou to irritada com a maneira como ele a tocara quanto com a crtica sobre a disposio de seus vasos.
- No me lembro de t-lo ouvido dizer isso.
- Fiz o comentrio quando estvamos danando. A iluminao daqui est tima. - Dizendo isso, D.C. foi pegar seu material. - Pode continuar mexendo com as plantas 
se quiser.
Quando estavam danando?, pensou Layna, sentando-se sobre os calcanhares, pensativa. No conseguia se lembrar direito de nada do que havia acontecido enquanto estavam 
danando, exceto que ficara momentaneamente hipnotizada.
Em silncio, observou D.C. se sentar em uma pequena cadeira de jardim, segurando um lpis e um bloco com folhas de papel em branco.
- No precisa posar - ele avisou com um sorriso entontecedor. - Finja que no estou aqui.
Bem, seria o mesmo que tentar ignorar um leo sentado no ptio, concluiu Layna.
- No vou conseguir trabalhar com voc me olhando e preciso terminar de transplantar essas mudas.
- Faltam apenas algumas - salientou D.C. - Aproveite para descansar um pouco. - Com o p, afastou outra cadeira para longe da mesa. - Sente-se e converse comigo.
Layna ficou de p com visvel hesitao e livrou-se das luvas.
- Acha mesmo que temos algo a dizer um ao outro? - perguntou a ele.
- No temos? - D.C. respondeu com outra pergunta. - Voc gosta de msica, eu tambm. Ento vamos falar sobre isso. Vivaldi combina com seu estilo. Clssico com uma 
pitada de ousadia.
Layna enfiou as luvas no bolso do avental.
- J no seu caso, eu diria que gaitas de fole combinam mais com seu estilo.
D.C. arqueou uma sobrancelha.
- Tem algo contra gaitas de fole?
Layna suspirou com impacincia e sentou-se.
- Oua, D.C, no quero parecer rude, mas...
- Nunca conseguiria ser rude, a menos que tivesse essa inteno - ele a interrompeu. -  educada demais para isso. Agora sorria - pediu, traando alguns riscos no 
papel. -  uma pena que mostre seu sorriso com to pouca freqncia.
- No hesito em mostr-lo - contestou Layna. - Quando gosto da pessoa com quem estou conversando.
Os lbios dele se curvaram com charme.
- Oh, agora vejo que estava querendo ser rude. No sei se meu corao sensvel agentar tanta crueldade.
Layna no conseguiu conter o riso, diante da expresso dramtica de D.C. Porm, seu bom humor logo se esvaiu novamente quando ele se inclinou para a frente e tirou 
seu chapu.
- Est fazendo sombra em seus olhos - explicou D.C, colocando-o sobre a mesa.
- Era essa a inteno - ironizou Layna. - Corrija-me se eu estiver errada, mas, na minha opinio, no nos demos to bem assim ontem  noite.
- Sim, tem razo.
Ela abriu a boca para retrucar, mas voltou a fech-la. Seria ridculo protestar por ele haver concordado com ela.
- Por que quer me esboar?
- Porque gostei do seu rosto. Ele tem traos fortes, mas muito femininos. Olhar sexy, lbios cheios... No  necessrio que eu esteja pessoalmente atrado por voc 
para querer esboar seu rosto.
- Agradeo por sua sinceridade - afirmou Layna, com frieza.
- No, no est agradecida. Acabei de deix-la furiosa. - Ele virou a pgina e comeou um novo esboo. - Mas isso tambm  muito feminino - continuou. - Por que 
ficar aborrecida com o fato de concordarmos que no nos sentimos atrados um pelo outro? Isso no significa que voc no seja linda. Voc sabe que . Vire o rosto 
um pouco para a direita, por favor. Seria melhor se jogasse os cabelos para trs.
Antes que Layna pudesse fazer ou dizer algo, ele mesmo se inclinou para a frente e colocou os cabelos dela para trs. Em seguida, observou com ateno o perfil delicado. 
Ambos se mantiveram em silncio por alguns segundos.
Layna sentiu o corao acelerado. E no conseguiu faz-lo voltar ao ritmo normal, por mais que dissesse a si mesma que aquela estava sendo uma reao idiota de sua 
parte. De repente, o ptio pareceu abafado demais e sua boca secou.
- Tem uma pele maravilhosa - elogiou D.C., quebrando o silncio.
Devagar, traou o contorno do rosto dela com a ponta dos dedos, at descer para a curva sensvel de seu pescoo, sentindo-lhe a pulsao alterada. Queria que seus 
lbios estivessem ali, sentindo aquele ritmo mais de perto.
"Concentre-se no trabalho, D.C. Apenas no trabalho", disse a si mesmo, pegando o lpis novamente. No entanto, seus dedos pareceriam ter ficado abobados de repente. 
De fato, teve de se esforar para continuar o esboo.
- Pensei... - Layna limpou a garganta. - Pensei que pintasse telas abstratas. No pertence  escola moderna?
- Sim - D.C. confirmou. - Mas costumo pintar tudo que provoca um apelo especial em mim. - Levantando a vista do papel, fitou-a nos olhos. - Pelo visto, voc conseguiu 
isso. Em um certo sentido. Preferindo ignorar o ltimo comentrio, Layna continuou:
- Fez uma exposio em Nova York h poucos anos. Eu no a vi, mas uma amiga minha foi v-la.
- Tudo bem. Tambm no costumo fazer compras na Drake's, mas minha me faz - gracejou ele.
Layna riu com espontaneidade.
- Bem, mas agora que j trocamos alguns insultos, o que faremos? - ela perguntou.
- Poderamos tentar conversar normalmente - D.C. sugeriu. - O que acha de estar de volta a Washington?
- Oh, estou adorando. Sempre gostei desta casa e deste lugar. - Ela olhou para os vasos de tulipas. - Acho que vou gostar de passar algum tempo por aqui. - Franzindo 
o cenho, indagou: - O que quis dizer com arrumar os vasos de uma maneira "desprendida"?
- Hum? Oh, os vasos. Eu quis dizer para arrumar as flores de uma maneira mais livre. Algo mais parecido com o estilo de Monet entende o que quero dizer?
Layna assentiu.
- Sim, tem razo. Costumo seguir as regras muito ao p da letra quando estou aprendendo algo novo. Acho que assim corro menos risco de cometer erros. - Inclinando 
o rosto de lado, deixou que uma rstia de sol o iluminasse enquanto continuava a falar. - Bem, mas voc observa as coisas com olhos de artista. E no consigo imagin-lo 
se preocupando
com erros.
- Geralmente no me preocupo mesmo - confirmou D.C.
No entanto, deu-se conta de que estava com receio de cometer um naquele exato instante. A luz do sol incidindo indiretamente sobre eles, a msica suave ao fundo 
e o perfume de Layna chegando at suas narinas poderiam se transformar em fatores agravantes ao seu estado de esprito.
- Eu no gosto de cometer erros - declarou Layna. - Por isso planejo com cuidado todos os passos do que pretendo fazer e no me desvio deles.
Algo na presena de D.C. quase a impelia a tentar um mtodo diferente de vida. Porm, tratando-se da influncia de algum como ele, seria bem provvel que ela acabasse 
entrando em uma enrascada.
- Acho que j reuni material suficiente - anunciou D.C.,
guardando o lpis na bolsa.
No queria correr o risco de ficar ali por mais tempo e de acabar tocando-a novamente.
- Agradeo por sua colaborao.
- No precisa agradecer - disse ela.
Ficou de p logo depois de D.C., com a inteno de acompanh-lo at a porta. Contudo, os dois continuaram no mesmo lugar, entreolhando-se em silncio.
- Conheo o caminho at a sada - afirmou D.C., por fim. Ento virou-se para partir. Teve receio de que Layna o seguisse e de que ele acabasse cometendo a loucura 
de beij-la ao som de Vivaldi.
- Est bem - disse Layna.
D.C. ajeitou a bolsa no ombro e seguiu para a porta. Estava quase passando por ela quando se virou para olhar uma ltima vez para Layna. Ela continuava no mesmo 
lugar, com o sol iluminando-a por trs e tornando-a ainda mais linda.
- Haver uma exposio das obras de Dali, no Smithsonian,
a partir de quarta-feira. Passarei para apanh-la s sete horas.
"No aceite, Layna Drake!"
- Est bem - ela se ouviu responder, surpresa.
D.C. apenas assentiu e entrou na casa. Eslava passando pela porta principal quando resmungou um palavro, censurando-se pelo que acabara de fazer.

4

D.C. pensou em vrias desculpas para cancelar o encontro. Preferiria ir sozinho, para aproveitar melhor a visita  exposio. Depois, talvez, fazer amizade com alguma 
mulher interessante com quem poderia comentar as obras durante um caf ou um jantar. Afinal, era essa a maneira como ele costumava agir.
Entretanto, no desmarcou o compromisso. Nem o encontro seguinte, marcado na mesma noite da exposio. De fato, no conseguia entender por que se sentia to bem 
na companhia de Layna. Como seu av dissera desde o incio, os dois no tinham quase nada em comum. Mesmo assim, ele vinha se flagrando cada vez mais ansioso para 
rev-la sempre que se despediam.
Layna gostava do tipo de arte que expressasse algo especfico, de preferncia em termos tangveis. Alm disso, tambm apreciava msicas elaboradas e filmes com subttulo.
Quando estavam juntos, os dois eram capazes de conversar sobre um mesmo assunto durante horas, sentados  mesa de algum pub ou de um restaurante mais requintado. 
Nem ele mesmo sabia explicar, mas eles j haviam tido trs desses encontros. E todos perfeitamente agradveis. s vezes, imaginava se Layna estaria to surpresa 
quanto ele com o fato de estarem se dando bem.
Na verdade, estavam prestes a ter um quarto encontro. Quatro encontros em duas semanas, pensou ele. Aquilo era, no mnimo, inusitado.
Com um suspiro, afastou-se um pouco da tela na qual estava trabalhando. Dessa vez, preferira pintar uma aquarela para mudar um pouco de estilo. No queria fazer 
um retrato, e os esboos do rosto de Layna haviam sido apenas um exerccio. As imagens desenhadas a lpis surgiram tantas vezes em sua mente que ele acabara se rendendo. 
Por isso, comeara a pintar a tela naquela manh.
O estilo de uma aquarela combinava mais com Layna. Os tons frios e as linhas suaves seriam perfeitos para retratar o rosto dela. Somente depois que comeara a trabalhar 
foi que D.C. se deu conta de que no havia esboado nenhum detalhe do sorriso de Layna. No por falta de  oportunidade, j que ela andava sorrindo com freqncia 
nos ltimos dias. Mas talvez porque o lado reservado de sua personalidade era o que mais o atraa.
Ele no sabia explicar o motivo, mas era como se algo o desafiasse a quebrar o gelo que ela insistia em manter, feito um escudo de defesa contra os homens. E se 
ele aceitasse o desafio? Acabaria se deparando realmente com um iceberg ou com um vulco? A idia parecia muito interessante. E sensual. Mas pint-la daquela maneira 
o estava deixando com certa frustrao. Nunca conseguiria retratar fielmente o rosto de Layna, se no soubesse o que se escondia por trs dele.
Quando a concluso surgiu em sua mente, seus ombros relaxaram e seus lbios se curvaram em um sorriso. Como no pensara nisso antes? Era esse o motivo que o estava 
levando a querer reencontr-la cada vez que se despediam! Queria retrat-la, mas no poderia faz-lo antes de conhec-la melhor.
Satisfeito com a resoluo daquilo que o intrigava desde que a conhecera, deixou o pincel de lado. Pegou a xcara de caf e tomou um gole generoso, dando-se conta 
de que este j estava completamente frio. Com uma careta de desgosto, desceu para o andar de baixo, disposto a preparar outro cate. Havia terminado de descer a escada 
quando a campainha tocou. Ao atender a porta, sorriu ao ver sua me.
-Interrompi seu trabalho? - perguntou Shelby, hesitante.
-No. Estou no meio de uma pausa. - Passando o brao pelos ombros dela, abraou-a de lado, com carinho. - Agora voc far o caf, mame. O seu sempre foi especial.
Shelby olhou-o de soslaio.
- Est bem. - Sorriu para ele, enquanto seguiam para a cozinha. - Eu havia prometido a mim mesma que no apareceria sem avisar, mas  que acabei de receber algumas 
fotos novas de Travis e seu pai no est em casa. Eu tinha de compartilhar isso com algum.
- Sim, claro. Deixe-me v-las.
Ao notar o estado catico da cozinha, Shelby se convenceu mais uma vez de que seu filho levava uma tpica vida de artista. Mas se D.C. gostava de viver daquela maneira, 
ela achava que no tinha o direito de interferir.
- Puxa, ele est demais - falou D.C, sentando-se enquanto olhava as fotos.
- Est muito parecido com voc quando tinha essa idade.
-  mesmo? - Ele levantou a vista.
Com um sorriso satisfeito, voltou a olhar as fotos do sobrinho,
- Ah, esses genes dos MacGregor - gracejou Shelby, imitando a maneira como Daniel costumava falar. - So fortes feito um batalho. E por falar em MacGregor, tem 
tido notcias de seu av?
- Falei com ele h poucos dias. Queria me agradecer por eu ter feito um favor a ele, e depois cobrou uma visita. Vov est com crise de saudade de novo.
Shelby sorriu, comeando a preparar o caf.
- Aposto que isso  coisa de Daniel. Quem o ouve falar pensa que Anna no tem mais nada a fazer a no ser ficar sempreocupando com os netos todo o tempo. - Olhando-o 
de soslaio por um instante, perguntou: - Que favor fez a ele?
- Oh, Layna Drake - respondeu D.C. de modo evasivo, ainda observando as fotos. - Minha madrinha Myra pediu a ajuda dele para arranjar um acompanhante para lev-la 
a um baile beneficente.
Shelby pressionou a lngua contra a bochecha.
- Oh,  mesmo? E voc acreditou nessa histria? Seu ingnuo.
- Hum? - D.C. pestanejou, confuso. Mas acabou dando de ombros. - Dessa vez vov no falou daquele jeito que j conheo muito bem. Na verdade, ele acha at que Layna 
no combina comigo. Confessou que estava me pedindo aquilo apenas para Myra deix-lo em paz.
Shelby abriu a boca para dizer algo, mas voltou a fech-la. Como seu filho era ingnuo, pensou, contendo o riso.
- Entendo - disse apenas. - E o que achou dela?
- Ela  uma boa companhia e tem um rosto perfeito. Vou pint-la em uma aquarela.
- Mas... - Shelby quase derrubou o p de caf fora do coador. - Mas voc no faz retratos.
- Ah, s de vez em quando.
Na verdade, enquanto olhava aquelas fotos, ele estava pensando se no seria uma boa idia pintar um retrato de Travis e d-lo de presente  sua irm.
Mais uma vez, Shelby resolveu ficar de boca fechada. De fato, seu filho j havia feito alguns retratos de pessoas da famlia. Pessoas por quem ele tinha um carinho 
especial.
- Pediu a ela para posar para voc?
- No. Estou trabalhando a partir de esboos.
- Ento vocs tm se encontrado?
- Uma vez ou outra. - D.C. olhou para ela. - Por qu?
- Apenas curiosidade. Conheci os pais de Layna e ela no se parece nem um pouco com eles.
-  isso  bom ou ruim? Ela no me falou muito sobre a famlia.
Shelby se virou para ele, encostando-se na pia.
- Bem, eu os classificaria como pessoas...superficiais. Preocupam-se demais em manter as aparncias, mas no pareciam realmente felizes. Layna herdou a postura rgida, 
mas demonstra ser mais delicada e sensvel. No acha?
- No conheo os pais dela, mas a considero uma pessoa extremamente sensvel - respondeu D.C. - Gosto de Layna. Ainda no entendi direito por que, mas gosto dela.
- Ela no parece o seu tipo. Ei, foi apenas um comentrio - defendeu-se ela, quando o sorriso de D.C. se transformou na carranca tpica dos MacGregor. - Eu quis 
apenas dizer que suas companhias femininas so mais exticas e extravagantes. E Layna no  nenhuma das duas coisas.
- Eu no disse que a havia escolhido - corrigiu D.C. - Falei apenas que gosto dela. - Ele sorriu. - Ouvi dizer que minha me tambm era uma pessoa extica e extravagante 
na juventude.
Shelby arqueou as sobrancelhas.
- Tambm ouvi isso em algum lugar. Mas o que aconteceu com ela?
- Tornou-se uma mulher finssima, e  aquela que ocupa o lugar mais importante no meu corao.
Sentindo os olhos se encherem de lgrimas, Shelby sorriu e se adiantou para abra-lo. Ento apoiou o queixo no alto da cabea dele.
- Estou to feliz que tenha voltado, D.C. Sabendo que est por perto, pelo menos posso fingir que no me preocupo com voc.
- Papai fingiu isso muito bem quando veio me visitar ontem.
- Ele veio? - Shelby se surpreendeu. D.C. sorriu.
- Sim. E tambm disse que havia prometido a si mesmo que no apareceria sem me avisar.
- Oh, meu Deus, ento isso est ficando pior do que imaginei.
- No se preocupe, mame. Amo vocs e no me aborreo com isso. S acho que seria embaraoso vocs chegarem em um momento... Imprprio.
- Eu sei. Prometo que no iremos aborrec-lo, querido.
E ligaremos antes, se decidirmos vir visit-lo. Falarei com seu pai a esse respeito, no se preocupe.
Dizendo isso, beijou-o no alto da cabea e foi servir o caf j pronto.
- Posso ficar com esta? - perguntou D.C., levantando a foto de Travis mostrando dois dentinhos em um sorriso.
- Sim, claro. Os esboos esto ali? - Ela apontou uma pasta sobre a mesa.
- Apenas alguns - respondeu D.C. - Os outros esto no ateli.
Depois de entregar a xcara para ele, Shelby abriu a pasta e olhou os esboos.
- Layna  linda. E voc est muito atrado por ela.
- Ela tem um rosto maravilhoso. - Quando a me o olhou de soslaio, ele deu de ombros. - No h nada mais. Vov tem razo, ela no  o meu tipo.
- Sim, seu av no perde mesmo nenhum detalhe do que acontece em torno dele.
Daniel era mesmo muito perspicaz, pensou Shelby, servindo-se de uma xcara de caf e sentando-se  mesa. Aquela altura, era bem capaz de j estar planejando a cerimnia 
de casamento do neto.
De sbito, lembrou-se de que andava precisando fazer algumas compras nos ltimos tempos. Talvez houvesse chegado o momento de dar uma olhada nos artigos da Drake's.
A assistente de Layna olhou-a de um modo diferente e sussurrou com reverncia ao colocar a cabea na fresta da porta do escritrio.
- Srta. Drake, a Sra. MacGregor est aqui.
- Sra. MacGregor? - Layna levantou a vista. - Shelby MacGregor?
- Sim. A ex-primeira dama. Ela est na recepo. Tambm mal pude acreditar.
Surpresa, Layna passou a mo pelos cabelos e observou o escritrio, verificando se estava tudo no devido lugar.
- Mande-a entrar, por favor. Layna ficou de p e alisou a saia, antes de ajustar a lapela de seu blazer. Apertou os lbios, verificando se ainda havia algum resqucio 
de batom. Como imaginou o batom j havia desaparecido, mas ela no teria tempo de retoc-lo. Mostrando seu melhor sorriso, adiantou-se quando Shelby entrou no escritrio.
- Que prazer, Sra. MacGregor.
- Sei que estou interrompendo seu trabalho, mas vim fazer algumas compras e pensei em cumpriment-la.
- Fico feliz que tenha vindo. Sente-se, por favor. Aceita alguma coisa? Ch, caf?
- No, no se preocupe.
Shelby sorriu com satisfao ao observar o ambiente de trabalho de Layna. Tudo ali denotava bom gosto, pensou, escolhendo uma cadeira de veludo com espaldar alto.
- No vou demorar muito - avisou. - Vim apenas comprar algumas peas de roupa para usar no dia-a-dia. Vocs tm timos modelos.
- Obrigada. Estou preparando uma coleo melhor ainda para a prxima estao. - Layna tambm se sentou.
- Ah, ento voc  como meu sogro. Est sempre de olho no futuro. - Shelby sorriu. - Conhece Daniel MacGregor?
- Sim - Layna confirmou. - Minha madrinha quis visit-lo, mas no estava com disposio para ir sozinha at Hyannis. Por isso, fui com ela e fiquei alguns dias hospedada 
na casa dele no ltimo outono. A casa  espetacular e seus sogros so pessoas adorveis.
- Sim, eu sei. - "E eis que a histria se repete", pensou Shelby, muito ciente do lado casamenteiro do sogro. - De todos os netos, D.C.  o que mais se parece com 
Daniel.
Notou um brilho diferente nos olhos de Layna ao ouvir a meno a D.C. Oh, Deus, ela tambm j estava apaixonada.
- Suponho que sim - confirmou Layna. - Ambos tm uma atitude extica diante da vida, no?
- E uma caracterstica dos MacGregor. Eles so exigentes, charmosos e, acima de tudo, excntricos. Depois de haver me casado com um deles, posso dizer que a palavra 
"rotina" desapareceu do meu vocabulrio. Por outro lado, passei a usar "caos" com mais freqncia.
- Ento deve saber bem como lidar com ele.
- Oh, mas eu adoro caos! - exclamou Shelby, com um sorriso, ficando de p. - Adoraria almoar com voc qualquer dia desses.
- Ser um prazer, Sra. MacGregor.
- Shelby, querida. Pode me chamar pelo primeiro nome. Vou verificar minha agenda para marcarmos um almoo. - Ao se despedir, segurou a mo de Layna por algum tempo. 
Quando o homem  excntrico, a mulher tem de ser perspicaz e inteligente, Layna.
- Ah... obrigada.
- Ligarei para voc - avisou Shelby, ao sair.
Antes de qualquer outra coisa, telefonaria para Daniel. Depois de dizer-lhe algumas verdades a respeito da interferncia na vida de D.C., confessaria que aprovara 
completamente a escolha que ele fizera.
Isso colocaria a velha raposa em seu devido lugar. Pelo menos para que Layna e D.C. tivessem tempo suficiente para descobrir que estavam apaixonados um pelo outro.
Clubes apinhados e barulhentos eram muito estimulantes. Por isso D.C. gostava de visitar um ou outro de vez em quando. Gostava de ouvir a msica e de observar a 
movimentao das pessoas.
Acima de tudo, apreciava ver os pensamentos e as emoes se manifestando. Sim, era como se pudesse v-los. Quando fazia esboos em um lugar como Blues Comer, no 
registrava rostos ou corpos, mas emoes.
Layna observou os contornos estranhos e os riscos que D.C. desenhara em uma folha do caderno de esboos. No entendia nada sobre aquele tipo de arte, mas no deixava 
de consider-la fascinante. To fascinante quanto o artista que a pintava.
D.C. se encostara na parede atrs da mesa que eles estavam ocupando. Ele trajava jeans e uma camiseta preta, e havia prendido os cabelos com uma fina tira de couro 
na altura da nuca.
A luz do ambiente era de um intenso tom de azul e as mesas estavam todas cheias. No pequeno palco, um msico com cabelos na altura dos ombros dedilhava as cordas 
de um baixo, enquanto outro, usando culos escuros, tirava um som melodioso de um sax tenor. Um jovem magrrimo os acompanhava ao piano, no fundo do palco.
Sentada em um banquinho, uma negra com voz rouca e sensual cantava uma msica sobre as desventuras e os reencontros dos amantes.
A msica triste despertou um sentimento nostlgico em Layna. Segundo a letra, era to prazeroso sentir o amor que valia a pena passar por qualquer desventura por 
causa dele.
Layna provou o vinho, ou o que o clube considerava como sendo vinho, e olhou de soslaio para D.C. Ele mal falara com ela desde que haviam chegado quele clube noturno.
Deus, o que ela estava fazendo ali? Definitivamente, essa seria a ltima vez, prometeu a si mesma. Nunca se sentira to pouco  vontade em toda sua vida.
Por baixo da mesa, seu p acompanhava o ritmo do baixo, mas seu peito parecia cada vez mais apertado com aquela msica e aquele ambiente.
- Ela  tima, no? - D.C. indagou.
- Sim.
Layna abanou a mo diante do rosto, defendendo-se de uma nuvem de fumaa de cigarro vinda da mesa ao lado.
- Mas por que a msica tem de ser to triste? - perguntou a ele.
- O bines  feito para atingir o fundo de sua alma por meio do corao. Na maioria das vezes funciona.
- Nos deixando deprimidos - completou ela.
D.C. observou seu caderno de esboos aberto sobre a mesa. Ento voltou a olh-la e disse:
- A msica  feita para despertar algum tipo de sensao
no ouvinte.
-  isso que voc est desenhando? Sensaes?
- Sim. Juntamente com a msica.
D.C. a observou com mais ateno, layna havia prendido os cabelos com uma presilha na altura da nuca. O novo penteado a deixara com uma aparncia mais vulnervel.
- E voc? Como est se sentindo agora, Layna?
- Oh, completamente relaxada - ela mentiu. D.C. sorriu.
- Voc nunca fica completamente relaxada. Sabe o que est parecendo?
- No. Mas tenho certeza de que voc vai me dizer.
- Perfeita. Talvez um pouco perfeita demais.
Sem que ela esperasse, ele se inclinou para frente e soltou os cabelos dela.
- Pronto. Agora est mais humana.
Layna o fuzilou com o olhar. Passou a mo pelos cabelos, tentando ajeit-los.
- D-me isso agora mesmo.
- No. Prefiro seus cabelos assim.
Rindo, D.C. levou a mo aos cabelos dela e os desajeitou novamente.
- Nem imagina quanto est sexy, Layna. Principalmente com esse brilho de fria no olhar e os lbios curvados desse jeito charmoso.
- No estou com os lbios curvados - replicou ela, por entre os dentes.
- No  voc quem est olhando para seus lbios nesse momento.
Dizendo isso, ele observou os lbios de Layna por alguns segundos. Ento se inclinou em direo a ela.
- Espere- pediu Layna, levando a mo ao peito dele. Sabia que sua atitude estava sendo tola. Afinal, quantas vezes no se perguntara por que D.C. ainda no a havia 
beijado? E no imaginara como seria quando isso acontecesse? Ainda assim, sentiu-se invadida por uma onda de receio. Talvez no fosse seguro permitir que D.C. eliminasse 
suas defesas.
- J passamos pela fase da espera, Layna.
Levando a mo  nuca dela, D.C. puxou-a para si com delicadeza.
- Sabe que faramos isso mais cedo ou mais tarde. Precisamos
descobrir o que est acontecendo conosco, ou o que no est.
Ele se aproximou o suficiente para mordiscar o lbio inferior de Layna. Em questo de segundos, beijou-a com intensidade. O gosto adocicado dos lbios de Layna, 
acentuado pelo leve sabor de vinho, acendeu uma chama de desejo por seu corpo. Queria mais. Mais...
Layna entreabriu os lbios, deixando que um breve gemido escapasse por entre eles. Aproveitando a chance, D.C. aprofundou o beijo. Quisera fazer aquilo desde a primeira 
vez em que a vira, e estava ansioso para conhecer com mais detalhes os doces recantos da boca de Layna.
Deus, por que no fizera isso antes?, questionou-se em pensamento. Puxando-a mais para si, moldou seu corpo ao dela com sensualidade.
Por um instante, Layna sentiu como se o ar houvesse sumido de seus pulmes. Nunca experimentara sensaes to devastadoras com um simples beijo. Tentar manter suas 
defesas intactas no adiantara nada diante daquele furaco chamado Daniel Campbell MacGregor.
D.C. teve de se esforar para se afastar, quando se lembrou de que os dois estavam em um lugar pblico. Porm, continuou segurando a mo de Layna.
- E agora, Layna? Terminamos isso ou paramos por aqui?
- Eu no sei.
Como ela poderia tomar alguma deciso com a cabea completamente zonza?
- Se pretende deixar a deciso por minha conta... D.C. sorriu com charme, aproximando-se mais uma vez.
- No, no - ela disse rpido, afastando-se dele. - Precisamos analisar a situao com calma.
- No preciso de anlise. Vejo um homem e uma mulher descomprometidos que se sentem atrados um pelo outro.
- No tenho certeza de que se trata disso.
Tomada por uma sbita inquietao Layna pegou a bolsa e saiu apressadamente. Quanto mais longe Ficasse de D.C., melhor.
Enquanto saa do clube noturno pensou na loucura que havia acabado de cometer. Envolver-se com um artista excntrico no era nem de longe o que ela imaginara para 
si. No, no podia se render. Por mais que os braos de D.C. lhe parecessem tentadores.

5
D.C. alcanou Layna na calada. Sem hesitar, segurou-a pelo brao e a fez se virar para ele.
- Qual o problema? Tudo que precisa fazer  dizer: "No
estou interessada em voc, D.C.".
Layna jogou os cabelos para trs, furiosa por estarem desarrumados.
- No estou interessada em voc, D.C.
- Mentirosa.
- Atrevido.
Layna girou sobre os calcanhares e seguiu pela calada. No ficou surpresa quando D.C. comeou a acompanh-la.-Sentiu-se aborrecida, mas no surpresa.
- No fez nenhuma meno de se afastar enquanto eu a estava beijando - falou ele.
Layna respirou fundo, lembrando a si mesma de que os pubs estavam cheios. Nem mesmo D.C. a faria perder a pacincia a ponto de dar um escndalo.
- Para mim, foi apenas uma experincia curiosa - disse a ele, em um tom frio. - Agora minha curiosidade est satisfeita.
- Desculpe-me, mas acho que fui movido pelo mesmo motivo. De qualquer maneira, voc no fez nenhuma meno de se afastar.
- Foi um beijo comum - lembrou Layna.
Tinha de haver sido, pensou consigo, tomada por uma nova onda de receio. No queria estar sentindo aquilo. No podia!
- Um beijo comum  aquele que se d na av no dia de
seu aniversrio - argumentou D.C., ajeitando a bolsa com seu material de desenho.
No conseguia entender por que seguira Layna at ali. Quando uma mulher levantava a mo e fazia sinal para ele manter distncia, ele obedecia ao pedido e ponto final. 
O problema era que continuava sentindo o sabor dos lbios dela nos seus.
- Layna...
Dessa vez ela se afastou quando D.C. tentou toc-la. Quando seguiu em frente, ele se adiantou e segurou-a pelos ombros.
- Espere um pouco, droga! - impacientou-se. Virando-a para si, fitou-a bem nos olhos. Layna estava um pouco plida e havia uma espcie de sombra em seu olhar.
- Est com medo - murmurou. - O beijo deixou-a receosa. D.C. sabia que deveria lamentar aquilo, mas no conseguiu. De fato, teve de se conter para no rir.
- Pensei que fosse preciso algo mais srio para derrot-la. Layna deu um passo atrs. Pela primeira vez na vida, sentiu vontade de nocautear outro ser humano.
- No tenho o mnimo interesse em continuar essa conversa. Agora, se me der licena, preciso ir.
- Podemos terminar a conversa, se quiser. Mas vamos tentar outro mtodo.
Layna notou de imediato qual era a inteno dele.
- D.C, eu no quero...
No conseguiu terminar a frase. Os lbios dele cobriram os seus com voracidade, deixando-a sem flego. Dessa vez no havia nenhum sinal de provocao ou de seduo, 
apenas de possessividade.
Pega de surpresa, Layna no soube ao certo como reagir. Quando deu por si, j estava se rendendo ao calor daqueles lbios exigentes e daquele corpo msculo colado 
ao seu.
Demorou algum tempo para D.C. perceber que havia levantado Layna do cho. Sempre tivera noo de sua fora e o fato de no haver percebido o que fizera o deixou 
apreensivo.
Colocando-a de volta no cho, deu um passo atrs.
- Agora a escolha ser sua - disse e voltou para o clube noturno.
D.C. se censurou durante dias. Por vrias vezes, pensou em procurar Layna para se desculpar, mas sempre acabava desistindo.
Disse a si mesmo que seria melhor ficar longe dela. Deveria deixar a situao como estava, antes que eles acabassem se envolvendo realmente. Afinal, continuava achando 
que seu av tinha razo. Ele e Layna no tinham quase nada em comum.
Todas as vezes em que chegava a essa concluso, sentia-se mais aliviado. Vinha trabalhando intensamente para tentar esquec-la, mas a imagem do rosto de Layna sempre 
dava um jeito de penetrar sorrateiramente em seus pensamentos. De fato, j estava comeando a sentir-se aborrecido com aquela constante intromisso.
Por isso, ficou mais do que satisfeito quando seu pai telefonou para contar que seus avs estavam na cidade para uma rpida visita. Pelo menos o contato com a famlia 
o distrairia um pouco. Nada melhor do que passar algum tempo na companhia de pessoas amadas.
Na verdade, estava at pensando em viajar para a regio norte com seus avs. Seria bom rever Jlia, Cullum e o pequeno Travis, alm de seus primos. Gostava da liberdade 
de, a qualquer momento, poder colocar algumas roupas em uma mala e separar material de trabalho para levar consigo em uma viagem de ltima hora. Era justamente esse 
o lado encantador de seu estilo de vida, concluiu ele, enquanto caminhava a p at a casa dos pais, a dois quarteires de seu apartamento. Um estilo de vida simples, 
bsico, mas completamente seu.
Por isso, a ltima coisa que desejava era uma mulher tomando seus pensamentos por mais tempo do que o necessrio e se intrometendo em sua vida. Mulheres como Layna 
Drake eram sinnimo de complicao. Exigiam muito de um homem, quase sempre querendo que ele se adaptasse ao estilo de vida delas, e no o contrrio.
Havia acabado de atravessar a rua quando avistou uma morena atraente passeando de bicicleta pela calada. Na cestinha prateada localizada na parte da frente da bicicleta, 
um filhote de co labrador latiu alegremente para ele. A morena sorriu com charme e, enquanto seguia em frente, olhou-o por cima do ombro, com um ar convidativo.
Contudo, o mais estranho foi que ele no teve a mnima vontade de ir atrs dela para tentar conhec-la. Morenas com pernas esguias sempre haviam sido o tipo que 
mais o atraa. Ento por que diabo estava cada vez mais fascinado por uma loira com mania de perfeio?
Definitivamente, estava precisando mudar os estmulos em sua vida. Sim, passaria algumas semanas em Boston e em Hyannis Port. Talvez ao brincar com o sobrinho e 
rever os primos, conseguisse deixar de lado aquela obsesso ridcula. Ao passar pelo porto, percorreu a pequena trilha que levava  casa de seus pais. Diversos 
ps de hibiscos de vrias cores margeavam o caminho, criando um agradvel cenrio para quem passasse por ali. Com certeza haviam sido plantados por sua me. Como 
ele, ela adorava cores fortes e vibrantes. Elas atribuam um toque de excentricidade  suntuosa casa do ex-presidente e da ex-primeira-dama.
Sorriu ao ouvir o riso alto do av vindo atravs de uma janela aberta. Entrou na casa sem bater. Um perfume de flores misturado a um agradvel aroma de ch de limo 
chegou-lhe s narinas. Uma nova onda de risos e o som de vozes vindas da sala chamaram sua ateno. Animado pela idia de ver todos reunidos, encaminhou-se para 
l com os lbios curvados em um sorriso.
Porm, qual no foi seu espanto ao se deparar com a ltima pessoa que ele esperaria ver ali. Layna estava sentada ao lado do velho MacGregor, rindo de algo que ele 
acabara de dizer.
- Oh, a est ele!
Daniel levantou-se da poltrona com uma agilidade surpreendente para algum com noventa anos de idade. Os cabelos e a barba brancos contrastavam com os olhos muito 
azuis, que sempre mostravam um brilho de inteligncia. Ao avistar o neto, porm, o brilho que eles mostraram foi de puro divertimento.
Daniel o abraou com carinho, sem deixar de notar, para seu maior prazer, que D.C. ainda no havia parado de olhar para Layna.
- At que enfim voc apareceu para me salvar - disse ao neto. - Essas mulheres esto me obrigando a tomar ch desde que cheguei, sendo que qualquer um pode ver que 
preciso mesmo  de uma boa dose de usque. Seu filho est doido para tomar usque, Shelby, e eu irei acompanh-lo.
- Dois dedos, Shelby - avisou Anna MacGregor, com seu costumeiro tom calmo mas autoritrio. - E nem uma gota a mais - acrescentou, olhando para o marido.
Ento abriu os braos e se aproximou do neto.
- Como est, vov? - perguntou D.C, curvando-se para abra-la.
Como sempre, o abrao de sua av transmitiu-lhe fora e delicadeza ao mesmo tempo, algo que o encantava desde a infncia.
Layna notou a existncia de um profundo amor familiar naquele abrao. Tanto que lhe despertou certa inveja. Nunca vira ningum de sua prpria famlia trocar um abrao 
to carinhoso quanto aquele.
- Parece cansado - observou Anna, segurando o rosto
dele entre as mos.
- Tenho trabalhado muito - explicou, beijando-a no rosto. Fingindo ignorar Layna, olhou para a madrinha, tambm presente. - E muito bom rev-la, madrinha Myra.
Ela sorriu, recebendo o beijo que ele lhe deu no rosto.
- Lembra-se de Layna, no?
- Sim. - D.C. fitou-a diretamente nos olhos. 
- Como vai, Layna?
- Muito bem, obrigada.
Ela manteve as mos unidas sobre o colo, disfarando o tremor que as acometera.
- Sente-se e faa um pouco de companhia para Layna, querido - pediu Myra, ficando de p e fazendo-o ocupar seu lugar ao lado da afilhada. - Preciso conversar com 
Daniel a respeito de... De um investimento - improvisou.
- Sinto muito. - Mantendo a voz em um tom baixo, Layna forou um sorriso. - Eu no sabia que voc tambm estaria aqui. Tia Myra me pediu para traz-la porque queria 
visitar seus avs. Combinamos de ficar para o jantar, mas posso inventar uma desculpa.
- Para qu? Pouco me importa que fiquem para o jantar.
D.C. se encostou no sof, desejando j ter tomado pelo menos um gole de usque antes de sentar-se to prximo de Layna.
A resposta de D.C. deixou-a magoada. Fazia dias que ela no conseguia parar de pensar nele.
- No quero estragar seu encontro com sua famlia - justificou-se. - Da ltima vez em que nos encontramos... no nos entendemos muito bem.
- J esqueci aquilo. - Ele arqueou uma sobrancelha. - Voc no?
- Claro que sim. - Layna levantou o queixo, tentando demonstrar um ar de dignidade. - Apenas pensei que, depois de haver sado daquela maneira, feito uma criana 
irritada, ficaria pouco  vontade na minha companhia.
- Pelo que me lembro, foi voc quem saiu praticamente correndo do clube, feito um coelho assustado - replicou ele, curvando os lbios com ar de desafio. - De qualquer 
maneira, voc no me deixa pouco  vontade, Layna.
- Olhe s para eles, Daniel - disse Myra pelo canto dos lbios, fingindo no estar observando Layna e D.C. a um canto da sala. - Quase  possvel ouvir o ar estalando 
em torno deles.
- No entendo por que esto demorando tanto - reclamou ele. - J deveriam estar se entendendo a essa altura dos acontecimentos. Estou ficando preocupado.
- No h motivo para isso - garantiu Myra. - Os dois tiveram apenas uma pequena discusso. Como eu lhe disse, Layna andou muito amuada nos ltimos dias, provavelmente 
por causa disso. Mas fico contente que tenha vindo ver por si mesmo. Talvez esse reencontro os ajude a se entenderem.
-  o que espero. - Daniel suspirou e tomou um gole de usque. - No se preocupe, Myra. Veremos esses dois casados dentro de poucas semanas. - Tocando seu copo na 
xcara dela, em um brinde, completou: - Tem a minha palavra.
Sendo um homem de palavra, Daniel no perdeu tempo. Comeou a agir em sua campanha para unir D.C. e Layna assim que as mulheres se retiraram para o estdio onde 
Shelby pintava suas delicadas peas de porcelana.
Ao ver D.C. e Alan na sala, aproximou-se e sentou-se ao lado do neto.
- Layna  mesmo encantadora, no? - disse em um tom
casual.
Olhando para os lados, para verificar se Anna no estava mesmo por perto, tirou um charuto do bolso e o acendeu.
- Talvez precisasse engordar um pouco - continuou. - Mulheres mais "cheinhas" tm um aspecto mais saudvel.
- Acho o corpo de Layna perfeito - afirmou D.C. Lanando um olhar de advertncia para o av, falou: - Vov ficar furiosa se o vir com esse charuto.
- Ela no vai me pegar. - Aps dar uma generosa baforada no charuto, Daniel olhou para o filho. - Alan, quero uma verdadeira dose de usque desta vez.
- Desculpe-me, mas no quero arriscar minha cabea, papai.
- Covarde - resmungou Daniel, voltando a se concentrar no charuto. - Myra me disse que Layna anda trabalhando demais ultimamente e que no est tendo vida social.
- Opo dela. - D.C. deu de ombros.
Notando o olhar entristecido do av, suspirou e entregou a ele o restante do usque de seu prprio copo.
- Isso sim  que eu chamo de considerao pelos mais velhos - ironizou Daniel, lanando um olhar de censura para o filho.
Alan apenas riu, acostumado aos comentrios do pai.
- Pelo menos um de ns por aqui no morre de medo da "poderosa Arina MacGregor" - continuou Daniel. - Mas como eu estava dizendo, Myra anda preocupada com a afilhada. 
Depois de dar uma boa olhada nela, acho que a jovem est precisando  encontrar o homem certo. Um banqueiro, creio eu, ou um executivo, seria perfeito para ela.
- O qu?! - D.C. perguntou no mesmo instante. - Um banqueiro? Do que diabos est falando?
- Ora, estou apenas pensando em ajudar Layna a encontrar um pretendente adequado. Para dizer a verdade, conheo um que mora aqui mesmo em Washington. Ele j foi 
promovido a gerente de departamento. Henry  muito competente - afirmou ele, citando o primeiro nome que lhe veio  mente. - Aquele rapaz tem futuro. Acho que vou 
telefonar para ele e...
- Ei, espere um pouco - D.C. o interrompeu. - Est pensando em ligar para um banqueiro idiota chamado Henry e apresent-lo a Layna?
- Ele  um timo rapaz. E vem de uma boa famlia. - Daniel pestanejou, fingindo um ar inocente. - E o mnimo que posso fazer por Myra.
- O mnimo que pode fazer  ficar fora disso. Layna no est interessada em ser apresentada a nenhum banqueiro.
- No? - perguntou Daniel, contendo a vontade de dar um grito de triunfo. - Estou apenas falando em apresentar dois jovens descomprometidos. - Aps dar outra baforada 
no charuto, acrescentou: - Se voc estivesse se preocupando em arranjar algum para si, no teria tempo para ficar criticando o relacionamento dos outros. Por que 
toda essa preocupao com Layna? Ela no tem nada a ver com voc.
- Nada mesmo! - bradou D.C., levantando as mos, exasperado. - Layna no significa absolutamente nada para mim!
- Fico feliz em ouvir isso.
Seu neto j estava mais do que preso na armadilha, pensou Daniel. Ainda assim, decidiu provoc-lo um pouco mais.
- Vocs no tm nada em comum. De fato, no me agradaria nem um pouco v-lo envolvido com Layna. O que voc precisa  de uma garota moderna, que lhe d muitos filhos 
e que no tenha de se preocupar em poupar as unhas irnpecavelmente manicuradas. Layna  elegante demais para voc, rapaz. Acredite no que estou dizendo.
- Acho que sou eu quem deve decidir isso, no, vov? Daniel ficou de p, estreitando o olhar. Teve de usar todo seu autocontrole para no rir alto e beijar o neto 
com orgulho. Em silncio, ficou olhando D.C. ir at a escada e gritar por Layna.
- O que est aprontando desta vez, papai? - perguntou Alan, desconfiado.
- Observe e aprenda, rapaz.
Dizendo isso, permaneceu com o rosto impassvel quando Layna apareceu.
- Por que diabos gritou meu nome? - perguntou ela, fuzilando D.C. com o olhar.
- Venha at aqui.
Ele segurou a mo dela e tentou lev-la para a sada.
- Solte-me!
- Vamos sair daqui - disse D.C.
- No vou sair.
D.C. resolveu o problema de uma maneira que teria feito Daniel aplaudi-lo, se pudesse. Sem que Layna esperasse, ele a tomou nos braos e carregou-a para fora.
- Agora sim, estou vendo um MacGregor em ao. D.C. est... Deus meu, a vem sua me!
Daniel colocou o copo e o charuto nas mos de Alan e se encaminhou para uma porta lateral.
- Diga a ela que fui dar uma volta pelo jardim - disse antes de escapar.
Shelby apareceu primeiro, passando a mo pelos cabelos.
- Por que toda essa gritaria? - perguntou, olhando a sala. - Onde est D.C.? E Layna? - Estreitou o olhar. - Onde est seu pai?
- Bem... - Alan olhou para o charuto e decidiu dar uma baforada tambm. - Tudo que posso dizer ... - Sorriu e soltou a fumaa do charuto quando sua me e Myra entraram 
na sala. - Papai disse a D.C. que Layna no era uma pretendente adequada para ele. D.C. ficou furioso, exatamente como papai esperava. Ento, apelando para uma atitude 
tpica dos MacGregor, tomou Layna nos braos e saiu com ela.
- Ele a levou nos braos? - Myra levou a mo ao peito, com um ar sonhador. - Oh, eu queria tanto ter visto... Eu sabia que bastaria um "empurrozinho"... - Ela se 
interrompeu diante do olhar curioso dos amigos. 
- O que eu quis dizer ... Hum...
- Myra. - Anna suspirou. - No acredito que depois de todos esses anos ainda tenha encorajado Daniel a fazer isso. E quanto a voc... - Olhou para o filho. - A quem 
pensa que est enganando com esse charuto? V agora mesmo atrs de seu pai. - Sentando-se com elegncia, cruzou as mos sobre o colo. - Quero ouvir essa histria 
dos lbios dele.

6

- Voc perdeu o juzo!
O choque impedira Layna de protestar at o momento em que chegaram  calada.
- Ponha-me no cho, por favor.
Manteve um tom de voz calmo, sabendo que alter-lo s iria piorar a situao.
- Ponha-me no cho, D.C. Est me deixando embaraada.
- Estou fazendo isso para seu prprio bem - avisou ele, seguindo em frente sem fazer meno de solt-la. - Se eu no a houvesse tirado de l, voc acabaria casada 
com um banqueiro chamado Henry antes mesmo de se dar conta disso.
Layna franziu o cenho. Nunca tinha ouvido falar de nenhum caso de insanidade mental na famlia MacGregor. Mas, segundo diziam, essas coisas aconteciam de uma hora 
para outra.
- Est bem, chega dessa loucura - disse a ele. Notou que algumas crianas estavam olhando para eles e rindo com a mo na boca. Uma mulher que aguava petnias na 
janela parou para olh-los.
- Estou falando srio, D.C. Ponha-me no cho.
- Voc no vai voltar l. No tem idia do que ele est planejando para voc. Primeiro ser: "Eu gostaria de apresent-la a meu jovem amigo banqueiro, Henry". E 
antes mesmo que voc perceba j estar arrumando o enxoval. O velho MacGregor  impossvel.
- D.C., eu me recuso a ser carregada pela rua feito um pacote.
De fato, era exatamente assim que ela estava se sentindo. Ficou surpresa ao notar que D.C. no estava demonstrando nenhum sinal de cansao mesmo depois de j haverem 
percorrido mais de um quarteiro. Ele tinha braos realmente fortes, teve de admitir, ainda que com certa relutncia.
- Est bem, ponha-me no cho e prometo esquecer que isso aconteceu - tentou mais uma vez. - Esquecerei at que me embaraou na frente de sua famlia e de tia Myra.
- Ele no tem mesmo jeito - continuou D.C, como se ela no houvesse falado. -  ardiloso, manipulador e est de olho em voc, Layna. Precisa tomar cuidado.
A pacincia que Layna vinha tentando demonstrar at ento se extinguiu de repente. Tentando se desvencilhar dele, comeou a agitar as pernas, mas D.C. nem pareceu 
se abalar.
- Do que diabo est falando?
- Ele fez a mesma coisa com minha irm. Agora Jlia est casada e com um filho. E com meus primos tambm. Ele deve estar se considerando alguma espcie de supercasamen-teiro. 
E voc ser a prxima vtima, minha cara.
Layna tentou se soltar novamente, dessa vez agitando os braos e as pernas. Para seu maior desespero, ele nem notou.
- De quem est falando, afinal? Droga, se no me colocar no cho...
- Estou falando de meu av, claro - respondeu ele. - Mas espere para conversarmos l dentro.
- L dentro?! D.C, ponha-me no chol
Mantendo o mesmo ritmo, ele entrou por um porto e seguiu at a entrada de um prdio.
- Eu moro aqui. Parece evidente que voc ainda no percebeu o que ele est tramando. E no a culpo por isso. Meu av  muito bom no que faz. Mas voc vai me agradecer 
quando resolvermos o problema.
- Agradecer? Oh, muitssimo obrigada, Daniel Campbell. Agora posso ir embora?
Ignorando seus protestos, D.C. entrou com ela no elevador, j ocupado. Layna sentiu o rosto esquentar quando um elegante casal de meia-idade os cumprimentou.
- Ol, D.C. - disse o homem. - Como vo as coisas?
- Melhores do que nunca. - Ele sorriu quando o casal deixou o elevador. - E vocs, como esto? - perguntou, enquanto carregava Layna para dentro.
- Oh, timos - respondeu a mulher. - Espero que tenham um bom-dia.
Layna apertou os lbios quando as portas do elevador se fecharam. Pelo visto, a vizinhana j estava acostumada a ver D.C. carregar mulheres para seu apartamento. 
Pensando bem, por que sentir-se embaraada por ser apenas mais uma na lista?
- Est mais do que claro que seu estilo de vida e o meu so completamente incompatveis - ouviu-se dizer em um tom de voz at bem calmo. - Apesar de termos algumas 
ligaes familiares em comum e morarmos na mesma vizinhana, acho que no seria m idia no nos vermos mais pelo resto de nossa vida. 
- Ela respirou fundo, soltando o ar devagar. - Sei que isso j est ficando repetitivo, mas quero que me ponha no cho.
Somente ento D.C. se deu conta de quanto o perfume de Layna o envolvera. Um perfume marcante, com um leve toque floral. Sexy demais para sua paz de esprito.
Ao virar o rosto para olh-la, notou que seus lbios estavam a centmetros dos dela. Seria fcil inclinar a cabea e beij-la mais uma vez...
Layna olhou para os lbios dele em um consentimento silencioso. Tambm estava ansiosa para ser beijada por D.C. Por isso, quando o beijo finalmente aconteceu nenhum 
dos dois ficou surpreso. Deixaram-se levar pela falta que haviam sentido um do outro, desfrutando com prazer cada instante do beijo.
"Senti sua falta", Layna teve a impresso de ouvi-lo murmurar. Teria ele realmente dito aquilo ou apenas pensado?, D.C. se perguntou. Pouco importava a resposta. 
Layna estava em seus braos e, no momento, isso era mais importante do que qualquer outra coisa.
Layna levou a mo  nuca dele acariciando-lhe os cabelos macios. Um breve gemido havia acabado de escapar por entre seus lbios quando o elevador se abriu.
As portas permaneceram abertas durante algum tempo. Ao fazerem meno de se fechar, D.C. encaixou o ombro pela fresta, obrigando-as a se abrirem novamente.
Para sua surpresa, assim que saram do elevador Layna se adiantou e segurou seu rosto entre as mos, mantendo os lbios colados aos seus. A chama do desejo se mostrou 
mais acesa do que nunca e, no ntimo, ambos sabiam que ela clamava para ser saciada.
Ao ouvir D.C. resmungar algo incompreensvel, Layna afastou os lbios dos dele, franzindo o cenho.
- O que foi?
- Estou tentando encontrar a maldita chave.
Se no abrisse aquela porta logo, acabaria fazendo amor com Layna ali mesmo, no corredor.
- O qu? - Ela levou a mo  testa, como que se recuperando da onda de sensualidade que a envolvera. - Espere. Isso ...
- Pronto - D.C. a interrompeu, abrindo a porta em frente ao elevador.
Levando-a para dentro, colou os lbios novamente aos dela e fechou a porta com o p.
- No, espere - pediu Layna.
- Conversaremos depois. - Fitando-a nos olhos, ofegante, acrescentou: - Agora temos de terminar isso.
- No, ns...
Layna no conseguiu terminar a frase. Os lbios de D.C. pareciam ter o poder de faz-la esquecer todos seus receios. Por isso, pela primeira vez na vida, ela se 
deixou levar pelo desejo.
- Sim, conversaremos depois - murmurou, assim que conseguiu recuperar o flego, puxando-o para si logo em seguida.
D.C. finalmente colocou-a no cho. Precisava toc-la, beij-la e ir at o fim. Mantendo-a encostada na porta, comeou a deslizar suas mos de artista por aquele 
corpo mais do que perfeito. Layna era desejvel, sedutora e estava prestes a se tornar sua. Tirando o suter que a envolvia, traou com os lbios o mesmo caminho 
que suas mos haviam percorrido.
Seus lbios deslizaram com urgncia, como se uma parte dele tivesse receio de que Layna fosse desistir ou desaparecer a qualquer instante. Queria t-la por inteiro. 
A suave curva dos ombros, os seios arredondados, a curva sensual dos quadris... A pele macia se aqueceu sob seus lbios, deixando-o ainda mais excitado. Colou os 
quadris aos dela, puxando-a para si com uma urgncia crescente.
Ofegante, Layna apoiou as mos naqueles ombros fortes. Ondas de desejo percorriam seu corpo, indo se alojar na parte mais sensvel de seu ser. Precisava saciar aquele 
calor excitante, quase torturante. E s havia uma maneira de conseguir isso.
- Agora, D.C. Por favor...
As palavras saram na forma de um murmrio sensual, mas foram suficientes para faz-lo entender a mensagem.
Em questo de segundos, estavam sobre o tapete, livrando-se das roupas e de tudo que pudesse impedi-los de se amarem livremente. Completamente.
Quando D.C. deitou sobre Layna, o calor daquele corpo' msculo a envolveu feito uma acolhedora nuvem de sonho. Os olhos muito azuis fitaram-na com um intenso brilho 
de desejo quando ele murmurou:
- Agora.
Ento se uniram por completo. A luz que se insinuava pelas janelas iluminou os corpos nus, umedecidos pelo suor do desejo. Levados pelo ritmo cada vez mais frentico 
da paixo, ambos se entregaram ao apelo sensual de seus corpos, unidos naquela espcie de dana ntima, quase selvagem.
Quando a exploso do pice finalmente os arrebatou, arrastou-os consigo para um mundo fantstico. Um mundo onde no havia lugar para medos, dvidas nem angstias. 
A felicidade estava bem ali, mostrando sua fora e indicando que valeria a pena lutar por ela. O caminho podia at ser difcil e tortuoso, mas o resultado final 
sempre valia a pena. E os verdadeiros amantes sabiam disso melhor do que ningum.
D.C. dormiria por um dia inteiro se tivesse chance. Porm, o pensamento logo desapareceu de sua mente quando ele se virou e viu Layna deitada a seu lado.
Fechando os olhos por um instante, relaxou o corpo, acariciando os cabelos dela preguiosamente. Seus lbios se curvaram em um sorriso. Quem diria que por trs da 
controlada srta. Drake se escondia uma gata selvagem? Estava mais do que satisfeito por haver aberto a porta da gaiola imaginria que a mantivera cativa at ento.
Layna despertou de um sono delicioso, mas manteve os olhos fechados. Ao se lembrar do que havia acontecido, sentiu-se chocada. Como tivera coragem de se entregar 
to livremente a algum que ela mal conhecia? Estava nua, deitada no tapete da sala de D.C. e, at minutos antes, isso lhe parecera completamente normal.
Devia estar mesmo perdendo o juzo. Bastava que ele a tocasse para que todo seu bom senso desaparecesse como que por encanto. Nunca agira assim em toda sua vida. 
Todavia, estava se sentindo incrvel.
"Nada mais do que uma reao fsica", disse a si mesma. Manteve os olhos fechados, lutando para encontrar o bom senso perdido em algum canto de seu ser.
Havia se mantido no celibato por... Bem, por um longo tempo. O suficiente para seu corpo acabar traindo suas convices. Porm, ela era humana, e suscetvel a certas 
necessidades bsicas. Entretanto, chegara o momento de pr um pouco de ordem naquilo tudo.
Abrindo os olhos, aps tomar a deciso, sentou-se.
- Bem... - comeou enquanto estendia o brao para pegar seu suter.
"Deus, onde foi parar meu suti?", perguntou-se, olhando em torno de si. D.C. abriu os olhos e ficou observando-a por algum tempo. Os cabelos longos estavam levemente 
desarrumados e a pele dela nunca estivera to rosada.
- O que est fazendo?
- Vestindo-me - Layna respondeu.
- Por qu?
Para o inferno com o suti, pensou ela. No poderia perder tempo procurando por ele.
- Eu nunca... Isso foi apenas sexo, D.C.
- E o melhor que eu j tive - observou ele.
Layna respirou fundo. Dobrando os joelhos junto ao peito, olhou para ele. Sabia que encontraria aquele sorriso charmoso no rosto dele. Se pelo menos ele no fosse 
to bonito, pensou, admirando aqueles cabelos fartos e os olhos muito azuis.
A idia de am-lo mais uma vez surgiu com a intensidade de um relmpago em sua mente. No, no poderia se deixar levar novamente.
- No costumo agir assim - declarou, vestindo o suter. D.C. arqueou uma sobrancelha e tambm se sentou.
- Nunca?
- Nunca - Layna confirmou. - Isso foi apenas... combusto espontnea, nada mais. Como voc mesmo disse, somos adultos e descomprometidos, portanto, no h nada a 
ser lamentado. - Mas...
Ela se interrompeu ao sentir as mos dele deslizando por baixo de seu suter.
- Preciso ir embora, D.C. - falou, com a voz trmula.
- Est bem.
Ele mordiscou o lbulo da orelha dela, fazendo-a estremecer.
- D.C, voc no est entendendo... Isso foi um erro.
- E voc no gosta de cometer erros, eu sei. Ento vamos tentar de novo para ver se acertamos dessa vez. - Dizendo isso, tirou o suter de Layna e puxou-a para si. 
- Estou mais do que disposto a tentar at acertarmos...
Deus, como ela fora parar na cama de D.C.?, Layna se perguntou muito tempo depois. Se  que um colcho deixado no cho poderia ser considerado uma cama. Bem, pelo 
menos era mais confortvel do que o tapete da sala. Mas no menos perigoso.
Aturdida, olhou para o teto. Acabara se entregando mais uma vez, depois outra. Loucura. Pura loucura. Claro que era responsvel por suas prprias aes e pelo fato 
de haver se deixado seduzir. Sem dvida, participara daqueles ltimos acontecimentos com muito entusiasmo e no poderia culpar ningum a no ser ela mesma.
O que aconteceria dali em diante?, era a pergunta que rondava sua mente. No estava acostumada a agir daquela maneira inconseqente. Afinal, era uma mulher sensvel 
e com um plano de vida bem determinado para si mesma. Envolver-se dessa maneira com D.C. acabaria fazendo-a se desviar de suas metas.
- Preciso ir embora.
Ao lado dela, D.C. gemeu em protesto.
- Layna, desse jeito voc vai me matar.
Nas ltimas horas, todas as vezes que ela dissera que tinha de ir embora ele a fizera mudar de idia amando-a mais uma vez.
- Estou falando srio. - Levou a mo ao peito dele quando D.C. puxou-a para si, deitando-a sobre ele. - Isso tem de terminar.
- Vamos chamar apenas de "intervalo", est bem? - Ele beijou-lhe a ponta do nariz. - Estou faminto. Quer comida chinesa?
- J disse que preciso ir.
- Tudo bem, ento comeremos massa. Precisamos de energia. 
Como era possvel que D.C. a fizesse sentir vontade de puxar os prprios cabelos e de rir ao mesmo tempo?
- Voc no est me ouvindo.
Ele sentou-se, ciente de que fazia muito tempo que no se sentia to contente e relaxado.
- Layna, a essa altura dos acontecimentos, j sabemos que nos damos muito bem na cama, no cho e no chuveiro tambm. Se me deixar agora, dentro de uma hora estaremos 
desejando estar aqui juntos novamente. Ento vamos ficar de uma vez e comer alguma coisa, sim?
Layna segurou o travesseiro junto ao corpo nu.
- Isso no vai acontecer novamente.
- Fettuccine com molho de tomate est bem para voc? Ela suspirou.
- Sim.
- timo.
D.C. pegou o telefone e digitou o nmero do restaurante italiano onde ele costumava fazer pedidos. Aps dizer o que queria, desligou e olhou para Layna.
- O jantar chegar dentro de meia hora - avisou. - Tenho uma garrafa de vinho branco l embaixo.
Ficando de p, vestiu o jeans e saiu. Layna continuou no mesmo lugar por um longo tempo. Com um suspiro, passou a mo pelos cabelos. Tudo bem, agiria do modo mais 
sensato. Jantaria civilizadamente com D.C. enquanto conversariam sobre assuntos triviais.
Depois iria embora e nunca mais voltaria a v-lo.

7

No entendo como consegue viver no meio dessa baguna - disse Layna, sentada  mesa da cozinha, enquanto saboreava o fettuccine e o vinho.
D.C. partiu um po italiano em dois e entregou metade a ela.
- J pensei em contratar uma empregada - explicou - mas no gosto de ter ningum por perto quando estou trabalhando.
- Uma empregada no seria suficiente - salientou Layna. - Voc precisaria de uma equipe inteira para dar conta desta baguna. H quanto tempo est aqui?
- Dois meses.
- E ainda tem coisas guardadas em caixas? - Ela se surpreendeu.
D.C. levantou apenas um ombro.
- Vou arrum-las mais cedo ou mais tarde.
- Como consegue pensar em meio a toda essa baguna? Como se concentra para trabalhar?
Ele sorriu com charme.
- Minha irm diz que  porque fui forado a obedecer muitas ordens durante a infncia. Sempre havia algum querendo "pr ordem" na Casa Branca.
Layna arqueou uma sobrancelha com elegncia.
- No acha que j deveria ter superado esse perodo de
rebeldia?
- No vejo por qu. Voc gosta de ver tudo no seu devido lugar, no gosta?
- Sim - ela admitiu. - Fui criada em um ambiente onde as coisas estavam sempre nos seus devidos lugares. Isso torna a vida mais simples.
- Nem sempre "simples"  sinnimo de "satisfatrio".
- Talvez - disse Layna. - De qualquer maneira, acho que concordamos com o fato de que no temos quase nada em comum. Por isso  que essa... situao  um erro.
- Sermos amantes no  uma situao,  um fato. E s porque voc gosta de tudo "certinho" e eu no, no significa que eu a deseje menos por isso.
Layna respirou fundo.
- No podemos ter um relacionamento, D.C.
- J estamos tendo um, Layna.
- No considero sexo como um relacionamento propriamente dito - declarou ela, espetando outra poro de fettuccine com o garfo.
- Parece-me que estvamos tendo algo bem prximo a um relacionamento antes de fazermos amor - salientou D.C.
- No - Layna refutou, embora, no ntimo, soubesse que ele dissera a verdade. - No quero ter um relacionamento srio. No gosto das conseqncias que eles causam 
nas pessoas.
D.C. franziu o cenho, desconfiado de que havia mais detalhes por trs daquela afirmao.
- Tais como?
- As pessoas se sentem pouco  vontade para dizer a verdade e acabam se enganando entre si ou fingindo ignorar as decepes.
Layna hesitou, mas acabou chegando  concluso de que seria melhor continuar sendo sincera.
- Minha famlia no  muito boa em relacionamentos humanos. Meus pais mantm um casamento conveniente para ambos, mas no quero o mesmo para mim. Os Drake tendem 
a ser... egostas - declarou ela, por falta de um termo melhor. - Ficar com algum a um nvel mais srio requer uma certa dose de compromisso e dedicao.
- Voc teve uma infncia difcil?
- No, no.
Layna suspirou. Era difcil tentar explicar a algum algo que nem ela mesma entendia completamente.
- Minha infncia foi muito boa. Vivi sempre cercada de
conforto e tive acesso a uma tima educao.
D.C. meneou a cabea. Se algum lhe fizesse a mesma pergunta, ele citaria aqueles itens por ltimo. Se  que os citaria. Mesmo tendo sido criado em meio ao complicado 
mundo da poltica, no podia negar que recebera amor, ateno e compreenso de sua famlia.
- Seus pais a amam? - perguntou levado por um impulso.
- Claro que sim.
O fato de se fazer a mesma pergunta desde muito tempo deixou Layna incomodada. Tentando amenizar a sensao, tomou um gole de vinho.
- No somos como a sua famlia - disse a ele. - No temos aquela... sinceridade latente nem aquelas demonstraes de afeto.  uma forma diferente de ser, s isso. 
Muito diferente - acrescentou, voltando a olh-lo. - Lembro-me de ter visto fotos de sua famlia. Voc com sua irm, com seus pais... Sem pre demonstraram carinho 
uns pelos outros. Isso  admirvel, D.C. Infelizmente, no venho de uma famlia assim.
Preferiria pensar depois se fora o vinho que a deixara mais descontrada ou se fora o fato de D.C. ser um bom ouvinte.
- O casamento de meus pais  conveniente para eles. Lideram suas prprias vidas, tanto em conjunto quanto separadamente, e mantm discretos casos extraconjugais. 
Os Drake no provocam nem toleram escndalos. At entendo esse tipo de atitude porque tambm sou do tipo que prefere evitar tumultos.
D.C. se perguntou se Layna tinha noo de que a famlia dela a tornara uma pessoa triste, ou se ela realmente achava que aquela atitude partia dela prpria e era 
inevitvel.
- Voc no evitou esse ltimo em particular - disse a ela.
- Mas  exatamente o que estou tentando fazer!
E no estava tendo l muito xito, admitiu. No estando ali, na cozinha da casa de D.C., e vestida com o robe dele.
-  como as flores - citou ela.
- Que flores?
- As tulipas. Do meu ponto de vista, eu deveria replant-las ordenadamente. E foi isso que fiz. Porque era ordenado, era lgico. J do seu ponto de vista, eu deveria 
espalh-las pelos vasos aleatoriamente, sem seguir nenhuma regra. Talvez esteja certo. As flores ficaram mais bonitas do seu modo. Mas lido melhor com as coisas 
quando tenho um plano mais especfico em mente.
D.C. notou que Layna estava realmente abrindo o corao para ele. No soube por qu, mas sentiu vontade de aninh-la nos braos e consol-la.
- Mas voc tem a liberdade de mudar de planos quando surge uma nova opo.
- Evito mudar de planos quando vejo que a mudana no trar vantagens considerveis. Meu objetivo de vida  me concentrar ao mximo na minha carreira. Gosto de ser 
solteira e no me incomodo com isso.
- Eu tambm - afirmou D.C. - Mas tambm gosto de ficar com voc, e no tenho a mnima idia do motivo. Voc no faz meu tipo.
- Ah, no? - perguntou Layna, fingindo no se importar. - E qual  o seu tipo?
Os lbios de D.C. se curvaram em um sorriso.
- Voc  culta, sofisticada, controlada e tem tendncias a parecer um pouco esnobe. - Continuou sorrindo mesmo quando ela o fuzilou com o olhar. - Pode-se dizer 
que meu tipo  exatamente o contrrio de tudo isso.
- E voc  indelicado, autoritrio, arrogante e tem tendncias a parecer um pouco egosta - replicou ela. - Pode-se dizer que meu tipo  exatamente o contrrio de 
tudo isso.
- Bem, pelo menos essa parte j ficou clara entre ns. - D.C. tomou um gole de vinho, no parecendo nem um pouco ofendido com o que acabara de ouvir. - Ainda assim, 
continuo a desej-la. E sei que tenho de pint-la.
- Se acha que isso me lisonjeia...
- No foi dito para lisonje-la. Eu poderia fazer isso se quisesse, mas voc j deve estar cansada de ouvir elogios de outros homens.  uma mulher bonita e sou lado 
retrado  muito sexy do ponto de vista masculino. E mais excitante, ainda agora que sei o que h por trs dessa atitude. Somos adultos livres com uma forte atrao 
fsica um pelo outro. No  preciso que nosso nvel de relacionamento se estenda, alm disso, a menos que queiramos.
Layna se manteve em silncio por um momento. O que D.C. havia descrito parecia perfeitamente sensato. Por isso no soube dizer por que sentiu receio e tristeza ao 
mesmo tempo.
- Se continuarmos com isso, teremos de seguir certas limitaes - disse a ele.
- No gosto da palavra "limitaes".
D.C. sentiu-se aborrecido ao ver Layna usar justamente aquela palavra enquanto estava sentada  mesa, em sua cozinha, usando o robe que sua me lhe dera como presente 
de Natal, anos antes. Ainda mais com o perfume do banho que haviam compartilhado, depois de fazerem amor, ainda recendendo por seu corpo.
- J sei - afirmou ele. - Enquanto estivermos juntos, no dormiremos com mais ningum.
Layna arqueou as sobrancelhas, surpresa com a maneira quase rude como ele dissera aquilo.
- Eu no chamaria isso de limitao, mas de senso de respeito mtuo- salientou.
- Chame como quiser, mas ningum vai pr as mos em voc alm de mim.
- Ei, espere um pouco...
- E se meu av insistir em apresent-la a Henry, o tal banqueiro idiota, quero que descarte a idia no mesmo instante.
- No conheo nenhum Henry. - Layna comeou a sentir-se frustrada novamente. - E no fao idia do motivo que o levou a pensar que seu av iria querer me apresentar 
a um banqueiro. No estou com problemas na minha conta bancria.
D.C. respirou fundo, balanando a cabea.
- Meu av est pouco ligando para sua conta bancria, Layna. Ele quer lhe arranjar um marido.
Ela arregalou os olhos e tomou um gole de vinho para umedecer a garganta que havia secado repentinamente.
- O que disse?
D.C. sentiu uma certa onda de triunfo ao ver o choque estampado no rosto de Layna.
- Eu ia lhe explicar tudo, antes que acabasse caindo na armadilha. Ele est de olho em voc.
- Henry?
- No! Voc nem conheceu esse idiota ainda. Estou falando sobre meu av.
Layna colocou o copo de vinho sobre a mesa.
- Estou me sentindo confusa. At onde sei, seu av  um
homem na casa dos noventa anos, muito bem casado e feliz.
D.C. estreitou o olhar.
- No, no est sendo ingnua deliberadamente. Vamos tentar de novo. Meu av gosta de voc. Ele a considera uma jovem admirvel e somente isso j seria suficiente 
para ele decidir que voc precisa de um homem admirvel a seu lado. Voc precisa se casar e ter filhos. E s nisso que ele pensa, posso garantir. O velho MacGregor 
fica sempre obcecado quando o assunto  casamento.
- Bem, ele nunca falou sobre isso comigo. Mencionou apenas algo sobre voc estar fazendo sua av sofrer por ainda no haver se casado e formado uma famlia.
- Ah! Est vendo?
Layna se sobressaitou quando ele colocou o copo com fora sobre a mesa.
- Ento j testemunhou o que estou dizendo - continuou ele. - Minha av no tem nada a ver com isso. Meu av  quem tem mania de casamenteiro. Ele usa essa desculpa 
para conseguir que faamos sempre o que ele quer. Se no tomar cuidado, estar trocando fraldas antes que se d conta. J vi isso acontecer antes. Ele se concentra 
em cada um da famlia de uma determinada vez, como um projeto. Ento coloca o parceiro perfeito em nosso caminho, fingindo que no teve nada a ver com a histria. 
Meu primos caram direitinho na armadilha, mas no  suficiente para ele. Enquanto ainda restar algum de ns solteiro, ele estar agindo. O homem  impossvel.
- Tudo bem, no vou discutir com voc. Com certeza, conhece seu av melhor do que eu. Ainda assim, no consigo entender por que ele manipularia adultos inteligentes, 
fazendo-os optar por algo to srio quanto o casamento. Mas que seja assim - completou ela, quando D.C. fez meno de protestar. - No tenho a inteno de me casar 
com ningum. Portanto, essa histria no tem nada a ver comigo.
- E exatamente a que voc se engana, e  onde ele vai peg-la. - D.C. pegou o garfo e o apontou para ela, antes de voltar a enfi-lo na massa. - Ele voltou a sndrome 
de casamenteiro para voc, Layna. Confesso que  um alvio para mim. Pelo menos assim ele me esquece um pouco. Mas acho justo avis-la. Ele agir com sutileza, dizendo 
que conheceu o sujeito por acaso. Depois dar um jeito de apresentar vocs dois.
- Est falando de Henry?
- Sim. Ento ter de dizer a ele que no est interessada em ningum.
Layna no resistiu e sorriu para ele.
- Um banqueiro, voc disse? Ser que ele  bonito? Seu av o descreveu?
- Isso, brinque mesmo. Quero ver se continuar rindo quando estiver fazendo os preparativos para o casamento.
- D.C, acho que sou madura o suficiente para lidar com uma situao desse tipo. De qualquer maneira, estou lisonjeada que seu av esteja preocupado com meu futuro.
- Esse no passa de outro detalhe para faz-la cair na armadilha - resmungou ele.
Layna ficou pensativa por um instante. Ento empurrou o prato para o lado e se inclinou para a frente.
- Quer dizer que foi esse o motivo que o levou a me tirar daquele jeito da casa de seus pais e me carregar pela rua? S porque seu av disse que iria me apresentar 
a um banqueiro? Isso est me parecendo uma crise de cime.
- Cime?! - D.C. se indignou. -  esse o agradecimento que recebo por tentar proteg-la?
Com calma, Layna ficou de p e levou o prato para a pia j cheia.
- Foi apenas uma observao.
- Ento est precisando rever seus conceitos.
- Se  o que diz... - Ela levantou uma mo evasivamente. - Apenas me responda uma pergunta: alguma vez voc j ligou essa lava-loua?
- No fiquei com cime. Apenas... Preocupado.
- Hum-hum.
Layna colocou o prato em um dos vos da lava-loua vazia.
- Se eu houvesse ficado com cime, teria ameaado acertar algumas contas com o tal Henry.
- Sim, claro.
Devagar, ela comeou a pr as outras peas na lava-loua.
- Depois teria ido atrs dele e perseguido o sujeito at o fim do mundo se fosse preciso.
- Ora, que emocionante. J terminou seu jantar? Layna sabia que era ridculo, mas gostou de sentir um arrepio pelo corpo quando D.C. se aproximou de repente e virou-a 
de frente para ele.
- No sou ciumento, apenas... territorialista.
- timo. Ento use seu termo que eu continuarei usando o meu.
Com um resmungo impaciente, ele enlaou os braos em torno dela e praticamente a levantou do cho. Um brilho de divertimento e de desafio surgiu ao mesmo tempo nos 
olhos de Layna.
D.C. curvou os lbios e acabou sorrindo.
- O termo certo  o que menos importa no momento - disse, antes de beij-la.
No, ele no estava com cime, D.C. disse a si mesmo algum tempo depois. Estava deitado na penumbra, com Layna dormindo a seu lado. Na verdade, estava apenas... 
protegendo o que era seu. Temporariamente seu.
Gostava de ter Layna por perto, ainda que ela o houvesse obrigado a arrumar a cozinha antes de deixar que ele a levasse novamente para o quarto.
Apreciava o modo como ela o olhava enquanto conversavam e ainda mais os olhares sensuais que ela lhe lanava quando estavam fazendo amor. Gostava de ouvir aquela 
voz levemente rouca quando discutiam sobre msica ou sobre arte. E tambm quando ela dizia seu nome enquanto faziam amor. Lamentava por ela haver tido to pouco 
afeto durante a infncia. Esse tipo de coisa deixava marcas profundas nas pessoas. Segundo ela, tratava-se de uma vantagem, mas no era assim que ele via essa condio.
Aquela falta de estabilidade e de amor a fizera descartar a possibilidade de algum dia ter sua prpria famlia. Para ele, essa era uma perspectiva lamentvel.
No que estivesse com pressa de formar uma famlia, apressou-se em dizer a si mesmo. Mas algum dia certamente faria isso. Quando chegasse o momento e ele encontrasse 
a mulher certa. Queria filhos e uma casa cheia de barulho e de cores. No conseguia se imaginar sem ter tudo aquilo.
Por isso, acreditava que em algum canto escondido do corao de Layna tambm existisse o mesmo sonho. O sonho de ter algum com quem compartilhar sua vida, seus 
anseios, seu amor.
A imagem daquele lindo corpo coberto por seu roupo lhe voltou  mente. Os ps descalos, o rosto sem maquilagem e, ainda assim, incrivelmente belo, o brilho inteligente 
dos olhos verdes, o convidativo tom rosado dos lbios cheios...
Sentira-se tocado pelo modo sincero como ela declarara que no poderia haver nada mais srio entre eles.
Como que contestando aquilo, ali estava ela, aninhada a seu lado e usando uma de suas camisetas para se proteger do ar mais frio daquela noite de primavera. Haviam 
descoberto pelo menos um ponto em comum: ambos preferiam dormir com a janela aberta.
No, ele no sentira cime, afirmou a si mesmo mais uma vez, passando um brao possessivo sobre Layna e puxando-a mais para perto. Gostava da companhia dela, s 
isso. E iria mant-la por perto enquanto fosse possvel. Nada mais.

8

D.C . se afastou do retrato e observou-o com ateno, perplexo com o que conseguira colocar na tela. Nunca tivera falsa modstia a respeito de seu trabalho. De fato, 
j lhe haviam dito por mais de uma vez que sua autoconfiana chegava a ser irritante.
O problema era que ele pintava o que sentia, via e sabia, ou o que gostaria de saber. Por isso, era muito raro ficar desapontado com alguma de suas pinturas. E mais 
raro ainda desprezar algo que o envolvera completamente e que ele fizera com o corao e com as prprias mos.
Entretanto, Layna o surpreendera. Depois que comeara a pintar, resolvera deixar os esboos de lado e trabalhar apenas com o que tinha na memria. Revivera momentos 
que passara ao lado dela e lembrara-se das expresses, dos gestos e de tudo que pudesse ajud-lo a realizar a pintura.
Pretendia pintar outra aquarela depois daquela. No segundo trabalho, manteria cores mais frias e discretas, combinando mais com a personalidade de Layna.
Esse primeiro trabalho demonstrava sua viso dela. Por isso, usara tinta a leo, com tons ricos, e um traado moderno, com pinceladas mais soltas.
O retrato mostrava Layna na cama dela. A essa altura, j haviam dormido juntos muitas noites, compartilhando a cama dela e a sua em trridas noites de amor.
O rosto que ele retratara tinha um olhar marcante e os lbios delicados curvados em um sorriso sedutoramente feminino. Os cabelos soltos espalhavam-se sobre os ombros 
e em torno do rosto. Enquanto os pintava, lembrara-se de que Layna tinha o hbito de desembara-los com os dedos, quando se sentava na cama e mantinha o corpo coberto 
pelo lenol, depois de fazerem amor. Em uma dessas vezes, ela olhara para trs e sorrira para ele, ainda deitado.
No sabia o motivo, mas aquele momento continuava muito vivido em sua memria. O sorriso de Layna sugerira intimidade e a luz incidindo indiretamente sobre o ombro 
dela a tornara ainda mais linda. Ento, antes de se inclinar para beij-lo, Layna cobrira os seios com o brao. No por embarao, j que ele conhecia cada centmetro 
do corpo dela, mas por puro hbito. Um gesto muito natural, segundo ele notou. E, por isso mesmo, mais do que sensual.
Aquele momento de intimidade compartilhado de um modo especial recusava-se a sair de sua lembrana. E fora nele que ele se inspirara para fazer aquele retrato. A 
pintura parecia ter vida, olhando-o como se, a qualquer momento, fosse se inclinar para frente e beij-lo.
- Quem  voc? - murmurou ele, chocado pela impresso de que no a conhecia to bem quanto imaginara.
Tomado por algo semelhante a uma onda de fria, jogou o pincel sobre a mesa e foi at a janela. Quando Layna comeara a invadir sua vida dessa maneira? E como ele 
deixara isso acontecer?
O que diabos faria com o fato de estar se apaixonando por uma mulher que ele nem tinha certeza se existia? Quanto daquele retrato era realmente Layna e quanto era 
aquilo que ele desejava que ela fosse?
No tinha muita certeza do que queria dela, mas sabia que no era apenas sexo. Nunca havia sido, por mais que a desejasse.
Layna j fazia parte de sua vida, assim como ele da vida dela, embora nenhum deles parecesse disposto a querer admitir. A prova disso fora que ela o fizera arrumar 
a bagagem deixada nas caixas por tanto tempo. Ele, por sua vez, comprara vrios vasos com bocas-de-leo de fortes tons variados e a fizera espalh-las aleatoriamente 
pelo ptio. Depois, haviam se sentado sob a luz indireta do sol para admirar o resultado. Ele tambm havia comprado uma cama. At deixara Layna convenc-lo a escolher 
um modelo com cabeceira de ferro dourado e trabalhado, feminino demais para seu gosto. Mas acabou tendo de admitir que ela estava certa porque a cama ficou simplesmente 
perfeita em seu quarto. E o modo como resolvera agradecer-lhe pela escolha tambm fora mais do que satisfatrio... Naqueles ltimos dias, haviam ido a uma pera, 
uma partida de futebol, uma exposio de Rembrandt e at mesmo ao zoolgico. Por algum motivo, aquela mistura de preferncias e de estilos parecia harmoniz-los 
em uma perfeita unio. Impossvel, lembrou a si mesmo. Aquele no era o momento certo e Layna no se parecia com a mulher que ele sempre planejara ter em sua vida.
Foi ento que a avistou atravessando a rua e andando pela calada, vindo em direo ao prdio. Notou que ela havia trocado de roupa depois do trabalho, pois sabia 
que ela usava roupas formais enquanto trabalhava. Estava vestida com uma cala folgada de linho creme e com um confortvel bluso cor de uva. Carregava uma enorme 
bolsa de compras com o logotipo da Drake's.
Um sorriso se insinuou nos lbios dele, mesmo enquanto tentava se convencer de que preferiria ficar sozinho. Quando deu por si, j havia aberto a janela e se inclinado 
para frente. O rudo fez Layna parar e olhar para cima. Colocou a mo por cima dos olhos, protegendo-os do sol. Mesmo sabendo tratar-se de uma reao ridcula, no 
pde deixar de sentir uma onda de expectativa ao ver D.C. na janela do segundo andar.
- Oi - cumprimentou-o com um sorriso, tentando demonstrar um ar casual diante daquele olhar intenso. - Ainda est trabalhando?
D.C. hesitou. Se respondesse que sim, Layna se desculparia com polidez, dizendo que voltaria depois. Haviam combinado que no interromperiam o horrio de trabalho 
um do outro.
- No - respondeu, por fim. - Pode subir.
Layna tinha uma cpia da chave; Enquanto a esperava, D.C. pensou em como aquilo tambm acontecera sem que nenhum dos dois houvesse planejado. Como algum que acabara 
de acordar de um cochilo, ele passou as mos pelos cabelos e pelo rosto. Aquela situao parecia estar mesmo saindo de seu controle.
Estava comeando a descer a escada quando Layna abriu a porta. Ele parou onde estava e os dois se entreolharam por algum tempo, em silncio.
"Puxa, como eu te quero", foi tudo que ele conseguiu pensar. "Quando isso vai terminar?"
- Pensei que a essa hora voc estaria em casa - disse
Layna, quebrando o silncio. Suas mos haviam ficado midas, fazendo-a desejar pr logo a sacola em algum lugar. - Vim apenas trazer isso para voc.
"Oh, Deus. O que estou fazendo aqui?", perguntou-se.
- O que trouxe a?
- Um novo jogo de lenis de cama. - Layna sorriu. - Bem simples e com uma estampa masculina o bastante para no desarmonizar o ambiente catico de seu quarto - 
brincou.
D.C. arqueou as sobrancelhas. Pelo visto, Layna j havia decidido pr ordem no lugar. No entanto, aquilo no o aborreceu. No se importava em conviver com organizao, 
desde que no tivesse de realiz-la pessoalmente.
- Obrigado - agradeceu a ela. - Traga aqui para cima.
- Estava em oferta - explicou ela, pensando se deveria mesmo subir. - Pode usar o lenol como colcha, se quiser. De qualquer maneira, ser melhor do que aquele que 
vem usando, ainda que nunca se importe em forrar a cama.
Aps um momento de hesitao, comeou a subir os degraus. Quando chegou ao topo da escada, entregou a sacola a ele.
- Sirva-se - gracejou.
- Ainda no lhe agradeci devidamente. Teria feito isso, se voc no estivesse to ocupada em me criticar.
- No foi uma crtica. Apenas um comentrio. Deixando a sacola no cho, D.C. segurou o brao dela, quando Layna fez meno de se virar.
- Aonde vai?
- Para casa. Da prxima vez em que sentir o impulso de lhe fazer um favor, prometo que vou me controlar.
- Ningum lhe pediu para comprar lenis de cama para mim, nem para lavar meus pratos ou comprar frutas frescas no mercado.
Layna cravou as unhas na palma das mos, sentindo-se furiosa e embaraada ao mesmo tempo.
- Ok, um a zero para voc - disse com perigosa calma.
- Tomarei o cuidado de no fazer mais nada disso. E tambm no vou aparecer sem telefonar. J notei que no sou bem-vinda, exceto quando voc est disposto a ir 
para a cama.
Os olhos de D.C. faiscaram. Sentiu uma onda de fria to intensa que teve de dar um passo atrs, na tentativa de se controlar.
- Isso no tem nada a ver com sexo - disse apenas. Sem confiar em suas prprias reaes, girou sobre os calcanhares e voltou para o ateli.
- No mesmo?
A indignao levou Layna a segui-lo e a entrar na nica rea da casa para a qual ela ainda no havia sido convidada.
D.C. se virou, pronto para discutir, mas flagrou-se olhando para Layna da mesma maneira como estivera olhando o retrato dela, pouco tempo antes.
- No sei - confessou, indo at a janela. - Veio em um de meus momentos de mau humor, Layna. - Tentando se acalmar, apoiou as mos no peitoril e inclinou-se para 
a frente.
- Costumo ter muitos deles.
Ela observou que o mau humor dele se transformara em uma sbita tristeza. Lamentou isso e tambm sua vontade de se aproximar e de acariciar os cabelos dele. No 
tinha obrigao de consol-lo, nem tampouco de agentar suas crises de mau humor.
Disse a si mesma que seria melhor ir embora e esquecer a experincia das ltimas semanas, considerando-a apenas como mais uma em sua lista de aprendizado de vida. 
Em vez disso, porm, virou-se devagar e observou a parte do quarto de D.C. que ainda era desconhecida para ela.
A energia dele parecia estar impregnada em cada canto. Desde as telas encostadas nas paredes at a absurda desordem das tintas e dos pincis. O cheiro da tinta misturada 
ao perfume dele recendia pelo ambiente, criando uma atmosfera que era o prprio retrato imaginrio do artista Daniel Campbell.
Aquela parte do quarto era bem ampla e iluminada. Devagar, Layna foi andando e observando as telas expostas. Cores fortes, contrastes marcantes e traados irregulares. 
A personalidade de D.C. estava exposta ali, em seus trabalhos.
No conseguia entender aquele tipo de arte. De fato, nunca conseguira. Porm, era como se cada um daqueles quadros lhe transmitisse uma mensagem especfica. Eles 
eram capazes de lhe despertar emoes, tanto quanto o prprio artista.
- Estou vendo que voc realmente tem muitas mudanas de humor - declarou. - Bem, mas isso  o que o faz ser quem voc .
D.C. ficou observando ela andar pelo ateli.
- E voc  estvel, equilibrada. Isso  o que a faz ser quem voc . O que diabos estamos fazendo juntos, Layna?
Mais cedo ou mais tarde, aquela pergunta viria  tona, pensou ela, ainda examinando as telas. E justamente quando ela havia se convencido de que aquilo no era importante.
- Costumo me fazer a mesma pergunta todas as vezes em que nos despedimos - disse a ele. - Deu de ombros, determinada a ser prtica. -  aquilo que dissemos no incio: 
apenas atrao fsica.
- Tem certeza?
- Sim - Layna confirmou. Apontou para o quadro que ele havia terminado pouco antes de ela aparecer em sua vida.
- Aquele ali  pura emoo. Paixo talvez. As cores parecem querer saltar da tela.
- Eu o batizei de Desejo - afirmou D.C.
- Sim. Por vezes, os desejos se encontram, ento se separam subitamente.
- Mesmo quando o contrrio  mais prefervel. Venha at aqui. - Ele estendeu a mo para ela. - Diga-me o que acha disto.
Layna atravessou o aposento, mas no segurou a mo que ele ofereceu. Sabia que toc-lo seria um erro, ainda mais quando estavam prestes a terminar tudo. Deus, o 
aperto em seu peito estava se tornando mais intenso.
- Diga-me o que acha disto - repetiu D.C, pousando as mos sobre os ombros dela e virando-a para a tela que ele havia acabado antes de ela chegar.
O choque de se ver diante de uma imagem to extica dela mesma a fez levar a mo ao peito, em um gesto quase defensivo. Seu corao acelerou e sua boca secou de 
repente.
- No era o que eu esperava pintar - D.C. se apressou em explicar. - Ou ver e sentir. Havia acabado de pint-lo quando fui at a janela e a vi atravessando a rua.
- Voc me fez bonita demais.
- Mas voc  bonita.
Layna no disse nada. Aquilo parecia ntimo demais, pensou, sentindo uma onda de apreenso. A mulher daquele retrato no tinha mscara nem autodefesas. Alm disso, 
a mulher que D.C. pintara conhecia coisas que ela prpria no conhecia.
- No sou assim.
- Foi assim que eu a vi em um dos momentos guardados na minha mente. Cheia de satisfao e sonhos a realizar. No era  que eu pretendia pintar - ele repetiu - , 
mas essa imagem saiu de dentro de mim. - Tocou o rosto dela e deslizou os dedos at a curva delicada de seu queixo. Ento fez com que ela levantasse a cabea devagar. 
- Tambm me sinto intrigado. Por que no consigo deixar de desej-la para terminarmos com isso de uma vez?
- Era essa sua inteno?
- Droga. Sim - confessou ele. - Mas no est funcionando e estou comeando a ficar preocupado com voc.
Dizendo isso, inclinou a cabea at roar os lbios nos dela. O beijo foi rpido e quase casto, mas suficiente para acender a chama do desejo no corpo de Layna.
- Acho melhor passarmos algum tempo separados - sugeriu ela.
- Tem razo. - D.C. segurou o rosto dela entre as mos.
- Estamos nos vendo constantemente h semanas. - Layna enlaou os braos em torno do pescoo dele. - Talvez seja melhor darmos algum tempo um ao outro.
- Sim - D.C. concordou.
Ela suspirou, encostando a cabea no ombro dele.
- No  isso o que eu quero - disse a ele.
- Nem eu.
- No quero me apaixonar por voc, D.C. No estou preparada para isso, nem para voc. Seria um desastre.
- Sei disso. - Com os olhos fechados, ele encostou o queixo no alto da cabea dela. - Est muito perto de se apaixonar?
- Perto demais.
- Oh, Deus. No podemos deixar isso acontecer. Arruinaria tudo justamente quando...
D.C. colou os lbios aos dela, sem terminar a frase. Layna no conseguiu mais raciocinar direito. Sentira falta dos beijos e das carcias de D.C. Mais do que imaginara.
- Fique comigo, Layna.
Dessa vez, no havia urgncia no pedido, apenas o desejo de compartilhar. E Layna foi sensvel o bastante para perceber isso e deixar que D.C. a carregasse at a 
cama. A mesma que haviam compartilhado tantas vezes e que seria testemunha daquela paixo mais uma vez.
Com sedutora pacincia e com a luz do sol da tarde se insinuando atravs da janela, D.C. comeou a acarici-la, liquidando qualquer esperana de defesa por parte 
de Layna.
O prazer surgiu como algo inteiramente compartilhado, to natural quanto o ritmo acelerado de suas respiraes e a leve brisa que soprou as cortinas entreabertas 
at alcanar seus corpos suados.
Layna estendeu os braos para ele. Queria mais do que aquelas carcias afetuosas e sensuais. Em um convite silencioso, abriu mais os lbios para receber o beijo 
clido que ele lhe ofereceu.
Os contornos msculos do corpo de D.C. j lhe eram completamente familiares. Os msculos rijos, as mos firmes e carinhosas, os ombros largos... Porm, a certa altura 
ela notou uma mudana na maneira como ele se aproximou. Pelo visto, D.C. tambm queria mais do que aquelas carcias insinuantes. E estava demonstrando isso com o 
prprio corpo.
Quando finalmente a possuiu por completo, ficou observando o efeito do desejo cada vez mais intenso no semblante de Layna. Queria oferecer a ela o mximo de prazer, 
para ver aquele brilho enevoado surgir nos olhos verdes no momento do xtase e se desvanecer em seguida, cedendo lugar a um doce sorriso de satisfao.
E foi isso o que aconteceu. Layna se rendeu at o ltimo instante, deixando o nome dele escapar com um gemido quando o pice do prazer fez todo seu corpo estremecer. 
D.C. seguiu-a pela trilha do xtase, cobrindo os lbios dela em um beijo esmagador no momento em que um grito de prazer ameaou escapar de sua garganta.
Deus, como conseguiria viver sem Layna?, foi o ltimo pensamento que passou por sua mente, antes de deixar que seu corpo casse sobre o dela, exausto. Exausto e 
satisfeito.
Aquilo no servira como resposta, pensou Layna, contendo a vontade de seguir seu instinto e se aninhar junto dele. Se continuasse se deixando levar pelas sensaes, 
estaria perdida.
Precisava de espao para pensar; planejar e principalmente se lembrar do que queria. Do contrrio, acabaria cometendo um erro para o qual no haveria conserto. Decidida, 
levantou-se e comeou a se vestir.
Ainda com o olhar enevoado pela paixo que haviam acabado de compartilhar, D.C. a observou em silncio por um instante.
- Por que est fazendo isso? - perguntou, por fim. Layna manteve o olhar baixo, concentrada em fechar os botes da blusa.
- Precisamos pensar melhor sobre isso. Vou para casa.
- Layna. Fique.
- No. Estamos confundindo as coisas e est tudo acontecendo rpido demais.
D.C. tambm se levantou e vestiu o jeans.
- Voc  importante para mim.
Layna o fitou no mesmo instante, com um brilho de emoo no olhar.
- Eu... preciso de um tempo - declarou, com um pnico crescente. - No consigo pensar direito quando estou perto de voc. Vou ficar longe por alguns dias. Tudo isso 
pode no passar de uma mistura de emoes e no quero correr riscos desnecessrios.
- Como quiser.
D.C. enfiou as mos nos bolsos. Se no o fizesse, seria bem capaz de tom-la novamente nos braos. Contudo, isso no resolveria o problema. De fato, serviria apenas 
para deix-lo mais desesperado.
- No acha que  justamente esse o problema? - perguntou a ela. - O medo de correr riscos?
- No sei qual  o problema.
E isso era o que mais a assustava, pensou Layna. Bastava olhar para D.C. para se esquecer de tudo. Passara a vida inteira planejando ter uma vida tranqila e ordenada 
e no pretendia jogar tudo aquilo para o alto. No sem um bom motivo.
- Precisamos de algum tempo para pensar, antes que essa... situao se torne ainda mais complicada - explicou a ele. - Vamos ficar longe um do outro por alguns dias, 
at que nossas emoes se acalmem um pouco.
D.C. encostou o ombro na parede, arqueando uma sobrancelha.
- E se elas no se acalmarem?
- Lidaremos com isso quando... Quando for preciso.
- Eu te quero, Layna.
- Eu sei. - Ela sentiu o corao acelerar, em uma resposta mais do que evidente. - Se fosse somente isso, no teramos nenhum problema.
- Mas isso no tem de ser um problema - argumentou D.C. - Desejar algum no  exatamente um problema, do meu ponto de vista.
- Mas  para mim. Tenho de ir, D.C. Preciso pensar.
Layna j estava quase chegando  porta quando ele a chamou, fazendo-a hesitar. Todavia, ela no ousou se virar para olh-lo. Com um breve aceno, correu escada abaixo 
e partiu.
D.C. pensou em segui-la. Conseguiria alcan-la antes que ela chegasse ao porto. Ento a traria de volta nem que tivesse de carreg-la nos braos, como no dia em 
que haviam sado da casa de seus pais. Depois a levaria para a cama mais uma vez. No tinham nenhum problema quando estavam na cama. E depois, o que aconteceria?
Com um resmungo, afastou-se da parede e voltou para o ateli. Dessa vez, evitou se aproximar da janela. No queria ver Layna indo embora.
Ao se virar, deparou com suas duas telas. Layna e Desejo. Em que altura dos acontecimentos teriam elas se tornado a mesma coisa para ele?

9

Layna no foi para casa. Parecia estranho no haver sentido vontade de ir para o nico lugar onde se sentia resguardada e protegida.
Droga. At D.C. aparecer em sua vida, ela havia sido uma pessoa satisfeita com sua vida e com seu trabalho. Suas ambies eram simples e diretas. Faria da Drake's 
de Washington um exemplo de sucesso, tornando-a a loja de departamentos mais refinada e glamourosa da Costa Leste. Se conseguisse realizar isso, solidificaria sua 
prpria reputao e no seria mais considerada apenas mais uma Drake na famlia. Seria Layna Drake, a bem-sucedida empresria com um olhar preciso para o ramo da 
moda.
Adorava viajar para Milo, Paris e Londres, para compa-' recer a desfiles de moda e descobrir novos estilistas. E era boa no que fazia. Naqueles ltimos anos, tivera 
chance de mostrar alguns de seus talentos, desenvolver seu prprio estilo e aprender muito sobre o mundo dos negcios. De fato, tinha mais facilidade para entender 
os negcios do que as pessoas.
Com um suspiro, diminuiu o ritmo dos passos. Como iria saber se estava apaixonada? Nunca tivera de enfrentar aquele tipo de sentimento antes. Os homens que haviam 
entrado em sua vida eram amveis, fceis de lidar e... comuns, ela admitiu. Nenhum deles a levara a sentir-se tentada a mudar o rumo de sua vida, a assumir um compromisso 
e a alterar seus planos. Alm disso, nenhum deles afetara seu corao.
Haviam sido relacionamentos bem mais seguros, concluiu. E por que no os mantivera? No funcionara com seus pais? Deus, nem pensar. No queria ter aquele mesmo tipo 
de vida vazia. Na verdade, no queria nem mesmo se casar. No fora isso que decidira desde muito tempo?
Claro que sim, respondeu a si mesma, respirando fundo. Aquele era exatamente o ponto principal da questo. Tudo que precisaria fazer seria afastar-se de D.C., acalmar 
suas emoes e voltar  vida normal.
Tiraria alguns dias de folga e viajaria para um lugar tranqilo. Qualquer lugar, decidiu, finalmente voltando para casa. Pegou um caminho alternativo, para no correr 
o risco de ter de passar diante do prdio onde D.C. morava. Por que o destino fora coloc-la apenas a alguns quarteires dele?
- Oh, a est voc!
Layna levantou a vista e forou um sorriso ao ver Myra vindo em sua direo. Adiantando-se um pouco, beijou o rosto da madrinha.
- Sa para fazer minha caminhada de fim de tarde - explicou Myra. - Estava mesmo pensando em aproveitar para vir visit-la.
Inclinando a cabea, observou o rosto da afilhada com mais ateno. Layna estava um pouco plida e com o olhar triste.
- Oh, querida, est com algum problema?
- No. Na verdade, no sei ao certo... No, no estou - disse com mais firmeza. - Venha, tia Myra. Vamos tomar um ch.
- Oh, com prazer.
Myra passou o brao pelo de Layna, enquanto atravessavam a trilha cercada de arbustos, em direo  entrada da casa.
- Agora pode ir me contando o que a deixou triste. Ou seria quem?
- No estou triste, tia. Apenas com muitos problemas para resolver. - Layna destrancou a porta. - Fique  vontade na sala, enquanto vou preparar o ch.
- Oh, prefiro ficar na cozinha e lhe fazer companhia. Adoro sentir o aroma do ch sendo preparado.
Isso evitaria que sua afilhada tivesse tempo de fortificar as prprias defesas, pensou ela.
- Tambm saiu para uma caminhada? - perguntou.
- No. Sim. Na verdade, aconteceu por acaso.
Quando chegaram  cozinha, ela colocou a gua para ferver e pegou um elegante pote de ch. Como aprendera desde a infncia, primeiro aqueceu um pouco o pote, antes 
de medir as pequenas pores do forte ch Earl Grey.
- Pelo visto, a noite ser linda - afirmou, por falta de algo melhor para dizer.
- Sim, com certeza - Myra anuiu. - No vai demorar muito para comearmos a "derreter" sob o calor intenso do vero de Washington. De qualquer maneira, maio  um 
ms de temperatura amena. E  tambm um ms de romance. Est tendo um romance, Layna?
- No sei o que estou tendo.
Ela se manteve ocupada, pegando as xcaras e colocando um pouco de creme em um potinho.
- Eu no queria um romance. Alis, eu no quero - acrescentou.
- Por qu?
- No estou preparada para isso. Os Drake nunca souberam lidar com romances, apenas com negcios.
- Que coisa mais ridcula para dizer.
- Por qu? - Layna virou-se, demonstrando haver ficado aborrecida de repente. - Conhece meus pais e meus avs. No venha me dizer que tiveram casamentos romnticos 
e felizes.
- No, no posso dizer isso.
Myra suspirou, encostando-se na cadeira onde havia acabado de se sentar.
- Sua me foi um desapontamento para mim nesse aspecto. Casou-se com seu pai porque achava seus estilos de vida compatveis e porque achou que seria "divertido" 
ser a sra. Drake. No vou critic-la. Ela fez o que desejava e leva uma vida que, aparentemente, a satisfaz at hoje. Alm disso, ela teve voc - acrescentou com 
um sorriso.
- Tambm no estou criticando minha me - disse Layna. - S no quero o mesmo que ela quis para si. Gosto de ser solteira e de ter o controle da minha prpria vida. 
- Virou-se para continuar preparando o ch. - Casamento e filhos no fazem parte dos meus planos. Gosto das coisas como esto.
- Ento por que est triste?
- Estou apenas confusa. Mas j estou resolvendo o problema.
- Est apaixonada?
- No entendo o amor, tia Myra.
- Ele no existe exatamente para ser entendido, querida. Mas para ser sentido e celebrado.
- No quero senti-lo! - Layna alterou o tom de voz. Porm, suas mos j no estavam trmulas quando ela carregou a bandeja para a mesa.
- Ele a assusta?
- Por que no assustaria? No acha que minha me sentiu algo parecido com amor quando teve um caso com o professor de tnis? E que meu pai tambm no sentiu algo 
do gnero quando inventou aquelas viagens de negcios com sua assistente administrativa?
Myra estufou as bochechas, antes de soltar o ar devagar.
- Ento voc soube.
- Claro que sim. Sobre esses e sobre os outros casos que eles tiveram. As crianas no so to ingnuas quanto os adultos querem que elas sejam. Eu me recuso a ter 
um casamento desse tipo.
- Nem todos os casamentos so assim, querida. Herbert e eu compartilhamos mais de cinqenta anos de felicidade, amor e fidelidade. Ainda penso nele todos os dias 
e sinto sua falta.
- Eu sei. - Emocionada, Layna tocou a mo dela sobre a mesa. - Mas vocs foram uma exceo, tia Myra. Vejo isso acontecendo todo o tempo quando viajo a negcios. 
Vejo casais alimentando mgoas por causa de pequenas decepes. Ou ento me deparo com mulheres inteligentes simplesmente perdidas, depois de haverem se apaixonado. 
E muito raro um relacionamento dar certo hoje em dia.
- O medo de falhar bloqueia qualquer esperana de sucesso.
- A cautela e o pragmatismo asseguram o sucesso.
- Oh... - Myra agitou uma mo, impaciente. - Voc  jovem demais para se fechar dessa maneira.
- Mas madura o bastante para reconhecer minhas limitaes. - Layna riu, divertindo-se com a careta de impacincia da madrinha. - Sou uma pessoa prtica, tia Myra. 
Vou tirar alguns dias de folga em um lugar tranqilo. Quando voltar, tenho certeza de que eu e a pessoa em questo teremos superado essa situao. Essa histria 
far parte do passado.
" o que veremos, querida", pensou Myra, disfarando o sorriso com um gole de ch.
- Ora, mas isso veio em boa hora - disse a Layna, colocando a xcara no pires. - O motivo de minha visita era justamente perguntar se voc tinha algum tempo livre. 
Estou querendo fazer uma breve viagem para o norte, mas no estou mais em condies de ir sozinha.
O que no passava de uma mentira, j que ela estava se sentindo mais em forma do que nunca.
- Na verdade, tia Myra, eu estava pensando...
- Voc sabe que eu detesto dar trabalho, mas j que estava planejando viajar de qualquer maneira... - Myra sorriu, esforando-se para demonstrar sua expresso mais 
frgil. - Fico to cansada e confusa nesses aeroportos hoje em dia. Depois tenho de alugar um carro e contratar um motorista. As coisas so muito mais fceis quando 
se  jovem, minha querida. - Suspirou, com um ar vulnervel.
- Est bem, irei com voc. Amanh vou fazer os preparativos e poderemos partir depois de amanh, se quiser.
- Oh, Layna, voc  to boa para mim... No sei o que faria sem voc. Oh, aposto que vai gostar de passar alguns dias em Hyannis Port. Daniel e Anna vo adorar rev-la.
- Os MacGregor? - Layna teve de usar todo seu autocontrole para no derramar o ch. - Oh, tia Myra, no quero incomod-los.
- Tolice! Eles vo adorar nos hospedar por alguns dias. Pode deixar que eu cuidarei das passagens. - Myra se levantou no mesmo instante, mas levou a mo s costas, 
ao se lembrar de que tinha de demonstrar cansao. - Afinal, ainda estou em condies pelo menos de usar o telefone - emendou. - Fico to feliz que tenha aceitado, 
querida. Na minha idade, nunca se sabe at quando ser possvel rever os amigos e as pessoas queridas. - Acariciou a mo de Layna. - Acho que est na hora de eu 
ir andando.
Myra continuou se movendo devagar at sair da casa. Ento, quando se encontrava a uma distncia segura, apressou os passos. Em seus lbios, danava um sorriso de 
determinao e, em seus olhos, surgira um brilho de desafio.
Teriam vinte e quatro horas para resolver a situao, pensou. Tempo mais do que suficiente, se Daniel tambm fizesse a parte dele, claro.
Daniel olhou a paisagem atravs da janela de seu escritrio e franziu o cenho. Por que diabos aqueles dois estavam demorando tanto? Queria resolver aquele impasse 
de uma vez por todas, mas no poderia entrar em ao antes que o primeiro jogador desse a cartada inicial.
No tinha dvida de que tudo daria certo. Mais ainda depois que ficara sabendo que seu neto Duncan resolvera visit-lo por alguns dias. Ele era justamente a pessoa 
que faltava para pr um pouco de juzo na cabea de D.C.
Pelo visto, o destino estava sorrindo para seus planos. E por que no deveria? Afinal, eram planos para unir pessoas que se amavam. No diziam que o amor era o sentimento 
mais importante do mundo? Pois ele o estava apenas louvando, nada mais. No que esperasse receber algum crdito por isso.
Se tudo desse certo, continuaria no seu canto, assistindo tudo "dos bastidores". De fato, essa era a parte mais divertida do jogo. Alm do mais, se os MacGregor 
soubessem a verdade, seriam bem capazes de censur-lo. Sua famlia costumava se aborrecer com coisas to curiosas...
- Vov? Voc est a?
Daniel esfregou as mos com animao e virou-se para saudar o segundo filho de sua filha. Um belo rapaz, pensou Daniel. Alto, com a pele bronzeada como o pai e os 
mesmos penetrantes olhos castanhos da av. Da me, ele herdara a espirituosidade e do av, concluiu Daniel, com orgulho, o fraco por apostas.
Tambm tinha planos para Duncan, claro que tinha. Mas uma coisa de cada vez.
Duncan inclinou a cabea, mostrando seu sorriso fcil enquanto cheirava o ar.
- O qu? Nenhum charuto por perto? Daniel ficou srio no mesmo instante.
- No sei do que est falando.
- No mesmo?
Duncan sentou-se na cadeira em frente  mesa do av e esticou as pernas, tirando um charuto do bolso. Olhando de soslaio para o velho Daniel, passou-o sob o nariz, 
apreciando-lhe o aroma.
- Puxa, esse sim  o meu neto preferido. Daniel se adiantou, com um sorriso satisfeito.
- Ei, esse  meu.
Duncan colocou o charuto na boca, prendendo-o entre os dentes.
- Mas poderei dividi-lo com voc, se me contar o que est tramando desta vez.
- No estou tramando nada. Estou apenas esperando para cumprimentar minha velha amiga e a afilhada dela.
- Uma afilhada... - Duncan tirou o charuto da boca e apontou-o para Daniel. - Tenho certeza de que se trata de uma linda jovem solteira e em idade para se casar. 
Ela  rica, vov? Tem boa formao?
- E se tiver?
- No estou interessado.
"Melhor assim", concluiu Daniel, sorrindo para o neto.
- Ela  uma tima pessoa, Duncan. Linda feito uma pintura clssica. Vocs teriam lindos filhos. Alis, voc j deveria estar pensando a esse respeito. Um rapaz com 
a sua idade...
- Pode ir tirando isso dessa sua cabea casamenteira, vov.
Duncan colocou o charuto novamente na boca, satisfeito ao ver o ar quase lamentador do velho MacGregor.
- Estou feliz assim. E no me faltam companhias femininas, se quer saber. De qualquer maneira, eu mesmo quero encontrar uma esposa quando chegar o momento certo. 
E este ainda est muito longe.
- Acabar se esquecendo de encontrar uma esposa se continuar navegando dia e noite naquele seu barco-cassino.
- Ah, ento j soube da notcia? A Princesa Comanche  uma dama muito rendosa. Na verdade, ela  a nica dona do meu corao.
- Sim, eu j soube. Voc sabe muito bem qual  sua vocao, Duncan Blade, mas precisa de uma esposa e de filhos. Essa jovem que est vindo nos visitar tem um timo 
tino para negcios. Espero v-lo...
Daniel se interrompeu quando o rudo de uma movimentao vinda do lado de fora lhe chamou a ateno. Aproximou-se da janela no mesmo instante.
- Oh, a esto elas. Agora desa e se apresente. - Ele sorriu. - Quero que veja se no fiz uma tima escolha para voc.
- Vou descer. - Duncan ficou de p lentamente. - Mas no v fazendo planos.
Estendeu o charuto na direo do av, mas riu e guardou-o de volta no bolso quando Daniel fez meno de peg-lo.
- Muito engraado - ralhou ele, com ar bravio. Porm, sorriu quando o neto deixou o escritrio.
- Voc  justamente quem precisamos para colocar seu primo na linha - disse para si mesmo.
Cantarolando a marcha nupcial, desceu para receber suas hspedes.
No poderia haver sido mais perfeito, pensou Daniel, algumas horas depois. Duncan sentira-se muito  vontade na presena de Layna e chegara a flertar um pouco, fazendo-a 
rir.
Era bom que se dessem bem, afinal, logo se tornariam primos. Queria que sua famlia continuasse sendo feliz e unida.
- Duncan, leve Layna para passear no jardim - sugeriu ao neto. - Gosta de flores, no gosta, Layna? Temos lindas espcies em nosso jardim. - Com uma piscadela, acrescentou: 
- Elas ficam ainda mais bonitas ao pr-do-sol.
- Ele tem razo.
Duncan ficou de p, lanando um olhar fuzilante para o av, antes de se virar e sorrir para Layna.
- Quer caminhar um pouco? - perguntou em um tom gentil.
- Sim, claro. Obrigada.
Anna esperou at que os dois houvessem sado e inclinou-se para a frente na cadeira.
- Pode tirar esse brilho de expectativa do olhar, Daniel MacGregor. Aqueles dois no esto nem um pouco interessados um no outro da maneira como voc gostaria. Alm 
disso, eles no combinam.
Daniel mal resistiu ao impulso de dar uma piscadela para Myra, quando ela levou a mo aos lbios para disfarar um sorriso.
- Acho que os dois formam um bonito casal - disse com calma, conseguindo se manter srio.
- Claro que formam! - Exasperada, Anna levantou as mos em um gesto impaciente. - Ambos so jovens e bonitos, mas seu faro casamenteiro falhou desta vez. Se tentar 
unir esses dois, juro que vou impedi-lo, Daniel. - Levantou o dedo em riste, quando ele fez meno de protestar. - Eles no foram feitos um para o outro. Qualquer 
idiota pode ver que Layna no est feliz.
- Bem, ela poderia estar muito feliz se no fosse to teimosa - replicou ele, dando de ombros. - O que ela precisa  aprender a pensar com o corao, como algum 
que conheci h mais de sessenta anos. Veremos se ela no sair sorrindo daqui quando tiver de partir, dentro de alguns dias.
Depois daquele comentrio mais pessoal, Anna percebeu que no adiantaria lutar contra a determinao de Daniel. Por isso, dirigiu-se  amiga.
- Myra, espero que pelo menos voc seja capaz de ver que isso no passa de loucura. Layna no merece esse destino.
- Quero apenas que ela seja feliz, Anna - respondeu Myra. - Sei que Layna est esperando o momento certo para abrir o corao.
- No para Duncan, tenho certeza - insistiu Anna. - Voc mesma viu a maneira como ela e D.C. olhavam um para outro no dia em que nos encontramos. Se Layna j no 
estiver apaixonada por ele, est prestes a ficar. E vocs dois os colocaram juntos h menos de um ms. Fazer Duncan se intrometer entre eles agora ser um erro, 
seno um desastre.
Quando Myra no conseguiu mais conter o riso, Anna estreitou o olhar. Respirando fundo, olhou da amiga para o marido.
- O que vocs dois andaram aprontando? - perguntou, desconfiada.
- Digamos apenas que o primeiro ato est quase concludo - brincou Daniel. - D.C. vai tratar de termin-lo amanh.
- D.C. est vindo para c? - Anna se encostou na cadeira, pensativa. Ento assentiu. - timo.
- timo? - Daniel arregalou os olhos, pois esperava receber um sermo. - Voc disse "timo"?
- Isso mesmo. Ao menos uma vez concordo com voc, embora no aprove suas tticas. Mas discutiremos sobre elas depois. - Os lbios de Anna se curvaram em um sorriso. 
- Teremos dias interessantes pela frente.

10

A ltima coisa que D.C. esperava ver quando saiu do carro, diante da manso dos MacGregor, localizada no alto de uma colina com vista para o mar, era seu primo andando 
ao lado de Layna e com o brao em torno dos ombros dela.
De sbito, a angstia que o acompanhara durante toda a viagem se transformou em uma intensa fria.
Os cabelos de Layna estavam esvoaando ao vento e suas faces mostravam um tom rosado. D.C. deduziu que os dois haviam acabado de voltar de um passeio pelas colinas, 
e isso o deixou ainda mais furioso.
Ainda estava observando-os quando Layna o avistou de repente e parou. No mesmo instante, o saudvel tom rosado sumiu de suas faces.
- Ei, D.C!
Animado, Duncan se aproximou e deu um grande abrao no primo.
- Eu no sabia que voc estava vindo para c.
- Sim, eu notei. - D.C. se manteve srio. - O que diabos est contecendo aqui? - Ele lanou um olhar fuzilante para Layna, que continuava no mesmo lugar.
- Eu... Eu trouxe tia Myra para passar alguns dias aqui - ela explicou.
- Voc saiu da cidade sem dizer nada.
- Eu avisei que iria ficar fora durante alguns dias - lembrou Layna.
- Mas eu no sabia onde voc estava.
- Foi uma deciso repentina. - Ela endireitou os ombros. - Minha deciso.
- Pelo visto, vocs j se conhecem - Duncan interveio.
- No se meta, Duncan - retrucou D.C. - Isso  entre mim e Layna.
- No h nada entre ns! - bradou ela. - Com licena, Duncan.
Dizendo isso, virou-se e seguiu em direo a casa.
- Podemos conversar um pouco? - perguntou Duncan, posicionando-se diante de D.C, quando ele fez meno de seguir Layna.
A essa altura, j havia deduzido o que estava acontecendo.. Seu av, "a velha raposa MacGregor", havia aprontado outra de suas armaes. Mas j que entrara no jogo, 
pelo menos faria sua parte.
- Saia da minha frente. - D.C. cerrou os punhos, contendo a prpria fria. - Fique longe dela, seno ter de acertar contas comigo!
Duncan arqueou uma sobrancelha, sem conseguir conter o riso.
- Oh, pare com essa tolice, D.C. J passamos por esse tipo de situao antes. Por que no nos certificamos primeiro do motivo de nosso... desentendimento?
- Ela  minha! - D.C. fitou o primo bem nos olhos. - E isso  tudo que voc precisa saber.
E isso era tudo que ele prprio precisava saber, pensou consigo. Layna era sua, e no seria de mais ningum.
- E mesmo? - Duncan riu, mesmo sabendo que corria o risco de levar um soco no queixo. - No me olhe como se Layna soubesse disso. Alis, acho que vov tambm no 
est sabendo, porque ficou insistindo para que eu ficasse fazendo companhia a ela.
Talvez acabasse mesmo levando aquele soco no queixo, concluiu Duncan, ao ver D.C. enrijecer o maxilar e estreitar o olhar.
- No acredito - disse ele, por entre os dentes.
- Vov acha que eu e Layna formamos um belo casal - falou Duncan, mantendo o ar bem-humorado. - Ele pode at estar certo, quem sabe? Layna  linda, inteligente, 
fcil para se conversar... Oh, e aquele sorriso sexy  de fazer qualquer homem se ajoelhar aos ps dela.
De fato, Duncan quase desistiu da encenao quando D.C. o agarrou pelo colarinho e praticamente o levantou do cho. Talvez fosse melhor lembr-lo de que D.C. era 
mais velho e que pesava bem mais do que ele.
- Voc a tocou?
- No costumo ter intimidades com mulheres que conheo a menos de um dia. Mas se quiser consertar o estrago, primo,  melhor se apressar. Se quer mesmo ter um caso 
com Layna, trate de...
Duncan teve de engolir o restante das palavras, quando D.C. comeou a enforc-lo com o colarinho. Chegou a pensar se participar dos planos de seu av no acabaria 
levando-o para o hospital.
- No quero ter um caso com ela, seu idiota. Estou apaixonado por Layna!
- E por que diabos no disse isso antes? - Duncan tambm gritou, notando que o semblante do primo parecia o de algum que acabara de acertar um soco em si mesmo.
Pelo visto, D.C. havia acabado de descobrir que estava apaixonado.
- Eu no tinha certeza - ele se justificou, em um tom de voz mais ameno.
- Ento  melhor ir logo dizer isso a ela, em vez de ficar aqui discutindo comigo, que no tenho nada a ver com essa histria. - Duncan ajeitou o colarinho quando 
D.C. o soltou.
- Lutar com voc seria mais fcil - confessou D.C, enfiando as mos nos bolsos e caminhando em direo a casa.
D.C. encontrou a famlia reunida no local que eles chamavam de "Sala do Trono", em homenagem  suntuosa cadeira que Daniel ocupava para presidir os encontros familiares. 
Segundo D.C. notou, dessa vez pareciam estar tendo uma pequena reunio para o ch da tarde. E Layna havia se juntado a eles.
Quando ele entrou no aposento, ainda com um ar de fria estampado no rosto, a av se levantou e adiantou-se para abra-lo.
- D.C.! Mas que boa surpresa!
- Eu avisei vov de que viria ficar aqui durante alguns dias.
- Sim,  mesmo - confirmou Daniel, levantando-se da cadeira com dificuldade. - Com toda essa agitao, acabei esquecendo de lhe dizer, Anna. Mas venha se juntar 
a ns, rapaz. Talvez agora que est aqui essas mulheres me deixem tomar um pouco de usque misturado no ch. Onde est seu primo?
- L fora. Layna, preciso falar com voc.
Ela j havia recobrado o ar frio e controlado de sempre.
- Sim, claro - respondeu, e continuou a tomar o ch.
- Em particular - salientou D.C., por entre os dentes.
- No  conveniente agora. Sra. MacGregor, esses bolinhos esto maravilhosos.
- Obrigada.  uma de nossas receitas de famlia. - Anna lanou um olhar significativo para Daniel, antes de voltar a se sentar. - D.C., esses so seus preferidos. 
Quer que eu coloque alguns em um pratinho para voc?
- No, no quero nada, vov. Ou melhor, quero sim. E com muita intensidade. Layna, voc vai me acompanhar at l fora ou terei de carreg-la?
Ela o fitou por cima da borda da xcara. A chama desafiadora que encantara D.C. desde o incio voltara a brilhar nos olhos verdes.
- Acho melhor se sentar e tomar um pouco de ch - sugeriu ela. - Quando terminarmos poderei ouvi-lo, se ainda tiver algo para me dizer.
- Pelo amor de Deus! - Ele se impacientou. - Voc quer que eu me sente e tome ch? Depois de haver acabado de flagr-la flertando com meu primo?
Layna colocou a xcara no pires com um gesto firme.
- Eu no estava flertando com ele!
- Sou forado a concordar - interveio Duncan, entrando no aposento com seu ar bem-humorado. - Mas eu tinha esperanas. Bolinhos?
Com um sorriso, ele se aproximou da mesa e comeou a se servir do ch.
- Eu lhe disse para ficar fora disso, Duncan Ou quer que eu acerte seu queixo com o soco que deixei de dar l fora?
Layna se sobressaltou, chocada. Apressou-se em ficar de p, enquanto Anna se servia calmamente de mais um pouco de ch.
- Como ousa fazer um escndalo, ameaar Duncan e me embaraar na frente de sua famlia? - ralhou Layna, indignada.
- Isso mesmo, no deixe que ele faa o que bem entender! - vibrou Daniel, acertando o punho cerrado no brao da cadeira.
- Eu no teria feito nada disso se voc houvesse aceitado ir at l fora para conversar comigo quando eu pedi - replicou D.C. - Alis, foi sua teimosia que nos fez 
terminar nesta situao.
- Chega de provocaes. - Layna deu um passo  frente, com um brilho de fria no olhar. - Eu no teria vindo para c se soubesse que voc estava vindo. E j que 
esta  a casa de sua famlia, ento eu irei embora.
- No ir a lugar algum at resolvermos esta questo.
- Ora, pelo menos nisso ns concordamos - declarou Layna. - Com licena - disse aos outros, antes de passar por ele, com passos firmes.
D.C. segurou-a pelo brao, para conduzi-la at o lado de fora.
- Tire as mos de mim - ordenou ela, falando por entre os dentes. - Posso muito bem ir at l fora sozinha. - Desvencilhando-se do contato, abriu a porta. - Pensei 
que voc j houvesse me humilhado o suficiente para algum suportar, mas vejo que me enganei. Desta vez, voc passou do limite.
Enquanto falava, Layna continuou andando em direo ao jardim. No interior da casa, quatro cabeas se enfileiraram diante da janela.
- Voc foi humilhada? Voc? Como acha que me senti quando cheguei para visitar meus avs e a encontrei abraada a meu primo?
Layna parou e virou-se para ele.
- Em primeiro lugar, eu no estava abraada a ele. Estava apenas voltando de uma caminhada com algum muito gentil e simptico. De qualquer maneira, no  da sua 
conta o que eu fao e nem com quem eu ando.
- Pense bem, Layna - disse ele, com perigosa calma.
- J pensei, afinal, foi isso que vim fazer aqui, no foi? Cheguei  concluso de que temos de terminar o que quer que tenha havido entre ns.
- Nem pensar!
Sem que Layna esperasse, D.C. levou a mo  sua nuca e puxou-a para si, tentando eliminar toda aquela frustrao com um beijo ardente.
- No devamos estar espiando-os desse jeito - protestou Anna, posicionando-se melhor diante da janela.
- Oh, mas veja s aqueles dois, Anna - argumentou Daniel, passando o brao pelos ombros dela. - Nasceram um para o outro.
- D.C. est perdido - lamentou Duncan, balanando a cabea. - Desta vez, acho que Cupido o acertou em cheio.
- Sua vez ainda vai chegar, meu rapaz - garantiu Daniel.
- No se eu puder evitar.
Confiante em suas habilidades evasivas, Duncan mordeu outro bolinho e continuou assistindo ao drama do primo.
Aos poucos, o beijo foi se tornando mais carinhoso, levando Layna a se render mais uma vez ao calor dos lbios de D.C.
- No - disse, segurando o rosto dele entre as mos. - No faa isso. No  essa a resposta.
-  a resposta do meu corao, Layna. - D.C. encostou o rosto ao dela. - No v que se tornou dona do meu corao?
Layna se afastou um pouco e fitou-o nos olhos. Sentiu o corao acelerar ao notar que D.C. estava sendo sincero em cada palavra.
- No posso fazer isso. No vou saber como lidar com a situao. Isso muda tudo, entende? Deixe-me ir, D.C.
- Pensei que pudesse deix-la ir. Na verdade, era o que gostaria de fazer, mas simplesmente no posso.
Layna continuou ouvindo, com o vento agitando-lhe os cabelos e tornando-a ainda mais linda.
- Acha que era a nica que tinha planos definidos para a prpria vida? Eu no queria isso. Mas agora no consigo pensar em continuar vivendo sem voc.
- No vai dar certo, D.C. Talvez tenha dado enquanto existia apenas atrao fsica e tudo era mais simples.
- No h nada de simples na maneira como eu a desejo, Layna. E se realmente no sente nada, por que est chorando? - Com a mo forte, mas carinhosa, enxugou uma 
lgrima que comeara a rolar pelo rosto dela. - Sei que seu corao tambm est vulnervel com tudo isso, e no quero mago-la.
- No pode garantir que isso no vai acontecer - declarou ela. - Talvez acredite que no vai me magoar por causa de sua origem, de sua criao. Sua famlia  maravilhosa, 
mas a minha  vazia. No quero acabar como meus pais.
- Mas voc  muito diferente deles!
- Sim, mas...
- Layna, nem mesmo ns somos os mesmos, desde que nos conhecemos. Tudo muda, todos mudam. No pode se impedir de ser feliz, prendendo-se  idia de que sua vida 
ser como a de seus pais. Voc  outra pessoa, com outras idias.
Ela cruzou os braos, contendo as lgrimas.
- Sim.
- J comeamos a construir algo juntos. Nossas vidas se uniram de alguma maneira, em algum ponto. No notamos de imediato porque tudo aconteceu muito naturalmente. 
Agora,  fato mais natural na minha vida  que eu te amo. - D.Q segurou o rosto dela entre as mos, com carinho. - Olhe para mim e saber que no estou mentindo.
- Sim, eu sei - respondeu Layna, em uni murmrio. - Eu tambm te amo, D.C. Mas e se no der certo? E se eu no conseguir fazer com que d certo?
- E se voc for embora agora e nunca tentarmos? - ele respondeu com outra pergunta.
- Eu voltaria para a vida que havia escolhido para mim.
- Ela respirou fundo, deixando o ar escapar devagar. - Mas seria completamente infeliz - concluiu. - No quero fugir de voc, nem de ns.
Os lbios de D.C. se curvaram em um sorriso.
- Ento fique comigo. - Segurou as mos dela entre as dele, diante do peito. - Nem sempre aceitaremos seguir pela mesma direo, mas conseguiremos percorrer uma 
trilha satisfatria para ambos. Tenho certeza disso.
Layna olhou para as mos dele. To diferentes e to complementares, pensou. As suas pequenas, delicadas, as dele, fortes, acolhedoras. Pareciam perfeitas juntas.
- Nunca amei ningum antes - confessou, voltando a fit-lo nos olhos. - No queria admitir o sentimento porque estava com medo de enfrentar a mudana que isso causaria 
na minha vida. - Segurou as mos dele com mais firmeza.
- Mas agora quero ir at o fim, D.C. A seu lado.
Ele levou as mos dela aos lbios.
- Case-se comigo, Layna. Vamos unir nossas vidas. Ela sorriu.
- Acho que j comeamos. S levei algum tempo para me dar conta de que era exatamente isso que eu queria para mim.
- Isso  um "sim"?
Layna assentiu, rindo alto quando D.C. a abraou e levantou-a do cho, rodopiando de pura felicidade.
- Ser bem-feito para o velho MacGregor ver que no pode manipular todos os netos com seus planos casamenteiros
- falou ele. - Sabia que ele disse que no combinvamos?
Layna arqueou uma sobrancelha.
-  mesmo?
- Sim. Aposto que ele ter uma grande surpresa quando souber da novidade - acrescentou, antes de beij-la mais uma vez.
Dentro da casa, Daniel sorriu, enxugando uma discreta lgrima.

Do Dirio
de
Daniel Duncan MacGregor

Os anos vm e passam com mais rapidez depois que um homem atinge uma certa idade. A primavera cede lugar ao vero to repentinamente que voc mal v as flores desabrocharem 
antes que comecem a desvanecer. De fato, sem o amor de uma famlia, acho que seria terrvel suportar a passagem do tempo.
Sou um homem que no conhece a solido e, cada dia de minha vida, agradeo ao universo por isso. Agradeo pela mulher que tem compartilhado todos esses anos comigo, 
pelos filhos que criamos e pelos netos que esses filhos queridos nos deram. Mais do que nunca, estou convencido de que, quando um homem recebe tantas ddivas, torna-se 
responsvel por cada uma delas.
Ainda ontem, vi meu neto se casar com uma linda jovem na mesma igreja onde o pai dele, meu filho mais velho, casou-se h vrios anos. As estaes do ano se passam, 
e com elas as geraes de uma famlia. Sei exatamente como meu filho se sentiu ao ver meu neto dando aquele importante passo na vida. O orgulho, o inevitvel sentimento 
de perda, as esperanas para o futuro...
Bem, eu poderia ter dito a Alan para no se preocupar com o futuro de D.C. e Layna. Afinal, fui eu quem decidiu uni-los desde o incio. E a escolha no poderia ter 
sido mais acertada. Aqueles dois nasceram um para o outro!
Mas no posso sair por a falando para os outros a respeito de meus planos. Prefiro que meu neto continue pensando que fez tudo por si s. Imagino que isso o torne 
uma pessoa mais feliz.
Formam um belo casal, aqueles dois. Na verdade, um dos mais bonitos que j vi na famlia. Quando trocaram as alianas, D.C. pareceu muito emocionado. Sim, tanto 
quanto o prprio av h sessenta anos... Layna ficou uma verdadeira princesa, com o tartan dos MacGregor por cima do vestido de noiva e o vu usado pelas noivas 
da famlia sobre aqueles cabelos dourados.
Ah, os lindos bisnetos que eles me daro... Bem, daro  av deles, claro. Anna j est at falando a respeito. A mulher no tem mesmo pacincia! Eu disse a ela 
que, agora que os vimos partir em lua-de-mel, precisamos deixar que comecem a nova vida com calma, sem atropelamentos.
Alis, hoje fui caminhar um pouco pelas colinas com minha Anna. Abaixo de ns, o mar continuava agitado, como sempre. Acima, o cu me pareceu mais azul do que nunca. 
Estranho, mas nunca foi to bom sentir o vento batendo em meu rosto e a mo de Anna junto  minha. Fizemos a mesma caminhada muitas vezes ao longo de nossa vida, 
mas essa pareceu especial.
Do alto da colina, avistei a casa que construmos juntos. Alguns a chamam de forte, outros de castelo. De certa forma, ela  um pouco das duas coisas. Uma construo 
slida, feita da melhor pedra nativa, com altas torres e a insgnia do meu cl esculpida na porta da frente. Um homem no esquece suas razes.
Mais do que uma casa, esse  o meu lar. O lugar onde Anna e eu tivemos nossas desavenas, fizemos amor e tivemos nossos filhos. O lar onde os criamos e os vimos 
crescer. Continua sendo o lugar que compartilhamos, embora nossos filhos j tenham tido filhos, e alguns destes j nos tenham dado bisnetos. Graas a mim, claro.
Fico feliz ao ver todos caminhando rumo  felicidade. O lar e a famlia so pontos importantes na vida de uma pessoa. Qualquer que seja a ocupao de um homem ou 
de uma mulher nessa vida, acho que essa  a base para todo o resto. Mas, se  assim, onde esto os bisnetos que ainda quero ter?, pergunto eu.
No que no tenhamos feito certo progresso nesse sentido, mas nenhum homem  imortal. Nem mesmo um MacGregor. A essa altura, j vi cinco de meus netos se casarem. 
E alguns dos bisnetos que eu... ou melhor, que Anna tanto quer ter, j esto a caminho. De fato, j temos quatro para nos tirar o juzo e mais dois a caminho. Mas, 
para dizer a verdade, essa crianada s nos traz felicidade. Se pelo menos nos visitassem com mais freqncia...
Bem, mas sei que os membros da famlia precisam levar sua prpria vida. E  justamente disso que estou cuidando. Do meu prprio jeito, claro.
Agora estou de olho no destino de Duncan, o segundo filho de minha querida Serena e de  Justin, meu estimado genro. Duncan precisa tomar um rumo na vida. O rapaz 
acha que j tomou um, mas no  bem assim. Ele pensa que navegar de um lado para outro do Mississippi, livre feito um pssaro, em um barco-cassino,  ter um rumo 
na vida. Imagine!
Porm, tenho de admitir que Duncan  muito inteligente, e cativante tambm. Comanda o Princesa Comanche com mo firme, deixando a intuio para os bons negcios 
bem escondida por trs daquele sorriso fcil.
O outro problema de Duncan  que ele sempre se rende a um rosto bonito, qualquer que seja sua origem. E, por Deus, isso pode se transformar na runa de um homem. 
Mas o que o rapaz pode fazer se tem o sangue dos Mac Gregor correndo nas veias?
Para ele, no servir uma jovem tmida e formal. Duncan precisa de uma mulher decidida, algum com sangue quente nas veias. E eu conheo a candidata perfeita para 
conquistar aquele corao aventureiro.
Tudo que fiz, em resposta queles que me chamam de manipulador, foi colocar os dois juntos por algum tempo. O mesmo que fiz com a me de Duncan e o pai dele, h 
vrios anos. Pensar sobre aquilo me deixa at meio sentimental. Ver a histria se repetir  como ver um ciclo se fechar, dando ao filho de minha Serena a mesma chance 
que dei a ela. A chance de conhecer o amor.
Vejamos como o rapaz lida com a situao. Mas, se ele no se decidir logo, levarei Anna para passar alguns dias navegando pelo rio Mississippi, em um barco-cassino. 
Afinal, tambm sou um homem que gosta de apostar.

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PARTE II

DUNCAN

11
Duncan Blade pensou nas apostas que teria nos dias seguintes. No importava que os resultados viessem a longo ou a curto prazo, desde que deixassem seu cofre suficientemente 
recheado.
Gostava de vencer e apostar era algo que estava no seu sangue. Herana do lado escocs dos MacGregor e de seus ancestrais da tribo comanche, claro. Porm, nada lhe 
parecia mais natural do que navegar com seu Princesa Comanche, tambm resultado de uma aposta que ele fizera.
Seus pais haviam freqentado mais hotis do que qualquer outra coisa ao longo do casamento, e a sensao de liberdade como que passara a fazer parte de seu cotidiano. 
Conhecia' Atlantic City, Las Vegas e Nova York, entre outras cidades.
Ter um barco sempre havia sido seu maior sonho. Um sonho que ele concebera, planejara e finalmente realizara. Sabia que contava com a confiana da famlia no que 
dizia respeito a obter lucro com seu negcio. E no tinha inteno de desapont-los.
De p, nas docas de Saint Louis, continuou com as mos nos bolsos traseiros do jeans, enquanto admirava seu grande amor. O Princesa era mesmo uma beleza, pensou, 
com um suspiro.
A instrumentao do barco era moderna, mas o design conservava detalhes antigos que ele considerava essenciais para o charme de uma embarcao. Havia sido construdo 
como uma rplica dos barcos que costumavam navegar pelo rio no passado, transportando passageiros, mercadorias e, principalmente, apostadores.
A pintura ainda estava fresca, fazendo o branco intenso do casco contrastar com as bordas pintadas de vermelho. Alm de beleza, havia tambm um aspecto de poder 
na embarcao. E juntamente com ele uma espcie de aura de luxria.
Duncan queria ver seus passageiros relaxados e satisfeitos durante os dias seguintes. A comida seria de primeira e o entretenimento de muito bom gosto. As cabinas 
estavam prontas para receb-los, com sua decorao suntuosa, mas aconchegante. Alm disso, cada um dos trs deques ofereceria uma belssima vista do rio.
E o cassino... Bem, o cassino era o corao do barco. Os passageiros pagariam pela viagem e tambm pela chance de apostar.
O Princesa Comanche navegaria de Saint Louis a Nova Or-leans, com paradas ao longo de Memphis e de Natchez. Aqueles que preferissem permanecer a bordo durante as 
duas semanas de viagem de norte a sul, e depois novamente para o norte, no teriam chance de se sentirem entediados. Quer desembarcassem como vencedores ou no, 
Duncan sabia que teria de cuidar para que eles no se arrependessem pelo dinheiro gasto na viagem. Afinal, essa era a chave do negcio. Por enquanto, porm, restava-lhe 
apenas a expectativa de outra jornada. A sua volta, a tripulao carregava carga e suprimentos sob o sol intenso do ms de julho. Ainda tinha alguns papis para 
assinar no escritrio e detalhes para verificar, mas queria ficar ali por mais algum tempo observando toda aquela movimentao. A bordo do barco, outros membros 
da tripulao estavam lavando os deques, retocando a pintura de alguns lugares, polindo corrimos e limpando vidros.
 tarde, quando os passageiros comeassem a chegar, o Princesa estaria brilhando. Com certeza, todos ficariam encantados com a viso do barco, e ele, mais do que 
satisfeito. At o momento, tudo estava indo muito bem. Ou quase.
Por trs das lentes marrons de seus culos escuros, seus penetrantes olhos castanho-claros se estreitaram. A pessoa que ele contratara para entreter os passageiros 
ainda no havia aparecido. Na verdade, ela j estava atrasada havia mais de vinte e quatro horas. Se no aparecesse dentro das quatro horas seguintes, teriam de 
partir sem ela.
Aborrecido diante de tal perspectiva, tirou o telefone celular do bolso e ligou mais uma vez para o empresrio de Cat Farrell.
Enquanto esperava que a chamada se completasse, andava de um lado para outro, com passos incertos. Sua aparncia denotava sua herana: alto, pele bronzeada, olhos 
de um intenso tom de mbar e cabelos lisos, to negros quanto os de seus ancestrais comanches. No rosto marcante se destacavam as sobrancelhas espessas, bem delineadas, 
e o nariz reto, logo acima dos lbios cheios que se curvavam para sorrir com muita facilidade.
Porm, a ltima coisa que Duncan faria naquele momento seria sorrir.
- Ccero? Aqui  Duncan Blade. Onde diabos est minha contratada?
Seguiu-se um barulho estranho do outro lado da linha. Pelo visto, o empresrio ficara surpreso com a notcia.
- Ela no chegou ainda? No se preocupe, porque sei que ela  muito responsvel. Algo deve t-la feito se atrasar pelo caminho, s isso. Ela chegar a tempo e vai 
surpreend-lo, posso garantir.
- Voc me garantiu que ela estaria aqui ontem, ao meio-dia. Ela ter a primeira apresentao esta noite. Ser possvel que no cumpre o trato com seus clientes?
- Sim, claro que cumpro! Mas  que Cat... Bem, ela tem um esprito um pouco independente, sabe. Ainda assim, garanto que ela valer todo o dinheiro que gastou com 
a contratao. At mais. O problema  que a contratou no incio da carreira. Espere mais um ano e...
- Estou pouco ligando para o ano que vem, Ccero. Eu lido com o presente e, at agora, no vi sua cliente.
- Ela vai chegar, no se preocupe. Seu irmo gostou muito do trabalho dela, quando esteve em Las Vegas.
- Meu irmo  muito mais paciente do que eu. Trate de faz-la chegar em uma hora, seno comearei a providenciar o rompimento do contrato. Prefiro contratar algum 
mais responsvel.
Dizendo isso, desligou o telefone e voltou a guard-lo no bolso, seguindo pelas docas em direo ao barco.
De fato, seu irmo Mac havia aprovado Cat Farrell. E ele a contratara confiando no julgamento do irmo, sem maiores questionamentos. Se Mac no houvesse falado primeiro 
sobre ela, ele no teria aceitado a sugesto, ainda mais com a recomendao extra de seu av para que ele a contratasse mesmo sem conhec-la pessoalmente.
Pela foto que vira dela, Cat era mesmo estonteante como todos diziam. Voluptuosa, sexy, sensual... E pela fita cassete que Ccero lhe mandara como amostra, tinha 
uma voz que combinava com aquela aparncia. Mas nada disso adiantaria se ela no aparecesse.
Uma adolescente que vinha se aproximando pelas docas chamou sua ateno. Usava jeans desbotado, uma mochila nas costas e um par de tnis gastos. O bon de beisebol 
com estampa de zebra se encontrava puxado para frente, cobrindo uma parte de seu rosto, oculto por um par de culos escuros. Duncan deixou escapar um suspiro. Era 
uma pena que os adolescentes houvessem perdido o senso de moda, pensou ele. Ento apressou os passos para det-la, quando ela fez meno de entrar em seu barco.
- Sinto muito, querida, mas no pode entrar a. S aceitaremos passageiros a partir das trs horas da tarde. Alm disso, ter de vir acompanhada por seus pais.
Ela parou de repente, mantendo as costas eretas. Viran-do-se para ele, abaixou os culos escuros com um dedo.
Duncan se surpreendeu ao se deparar com um belo par de olhos verdes com um matiz dourado em torno das pupilas. Com mais alguns anos de idade, somente aqueles olhos 
j seriam capazes de fazer os homens se ajoelharem aos ps dela, concluiu ele.
Para seu espanto, os belos olhos verdes o fitaram de alto a baixo, antes de se fixarem novamente em seu rosto, com um brilho de arrogncia que ele no pde deixar 
de admirar.
- E voc? Quem ?
Deveria ser ilegal para uma mulher ter uma voz como aquela antes de completar vinte e um anos, pensou Duncan. Aquele tom rouco e sensual ficaria melhor em uma mulher 
experiente.
- Sou Blade. Ele  meu - explicou, indicando o barco com um gesto de cabea. - Ser bem-vinda se quiser voltar com seus pais, mais tarde.
Os lbios dela se curvaram com o mesmo ar de arrogncia que ela trazia no olhar.
- Quer verificar minha identidade, Blade? Minha carteira deve estar aqui em algum lugar... - acrescentou ela, fazendo meno de abrir a mochila. - Mas j que estamos 
um pouco atrasados, por que no pulamos essa parte? Sou sua contratada, corao.
Duncan estreitou o olhar.
- Sou Cat Farrell, e completei vinte e cinco anos no ms passado.
Podia at ser, concluiu Duncan. Se ele usasse um pouco de imaginao. Na foto que lhe fora mostrada, no havia o mnimo sinal de sardas. E o rosto perfeito se encontrava 
cercado por uma sedosa cascata de cabelos avermelhados. No estava vendo nada disso ali,  sua frente. Alm disso, perguntou-se como ela conseguira apertar toda 
aquela... voluptuosidade sob a estranha capa que estava usando acima do jeans.
- Est atrasada - foi tudo que conseguiu dizer.
- Fiquei atrapalhada - explicou ela, com um sorriso. - No deveria ter deixado Ccero me indicar para aquela apresentao em Bakersfield. Acabei perdendo o vo, 
tive de reservar outra passagem. Um horror! Oua, o txi est esperando com minha bagagem. Poderia cuidar disso para mim? Vou dar uma olhada no cenrio.
- Ei, espere. - Duncan segurou-lhe o brao, antes que ela acabasse fugindo. - Fique aqui.
Sentiu uma onda de satisfao ao ver uma sombra de aborrecimento passar por aqueles olhos inesquecveis. Ento foi at um dos homens da tripulao e pediu a ele 
que cuidasse da bagagem de Cat e a levasse para bordo.
- Olharemos o cenrio juntos - avisou, ao voltar para junto dela.
Segurando-a novamente pelo brao, conduziu-a at a rampa que levava ao barco.
- Depois, teremos uma rpida aula de como utilizar esse aparelho novo e estranho chamado "telefone".
- Ningum me disse que voc era to exigente - protestou Cat, contendo a vontade de dizer algo mais sarcstico. Afinal, precisava do emprego. - Sinto muito, est 
bem? Quando viajamos, s vezes nos deparamos com imprevistos, e desta vez os meus ultrapassaram a lista de possibilidades. Cheguei assim que pude.
"Maldito Ccero", pensou ela. Ele no lhe dera um tempo humanamente possvel para viajar da Califrnia para Missouri. Perder o vo significara ter de disputar um 
lugar com gaiolas de puddles e passageiros desistentes para conseguir chegar ali a tempo.
Nas ltimas vinte e quatro horas, havia apenas cochilado e no comera nada alm de um sanduche e de um copo de suco de morango. Como se no bastasse, seu novo patro 
ainda vinha censur-la pelo atraso. Ela sabia melhor do que ningum que estava atrasada!
Porm, ele carregava os sobrenomes Blade e MacGregor. Juntos, eles seriam mais do que suficientes para promover a ascenso que ela tanto esperava ter na carreira.
Seria uma boa cartada. Notou que os deques estavam impecveis, assim como todo o restante do barco. Os gradis feitos de ferro trabalhado dispostos em alguns lugares 
da embarcao lembravam as romnticas sacadas que ela vira em filmes e em fotos antigas. Os vidros estavam completamente translcidos. S mesmo Duncan Blade para 
conseguir ter um barco to limpo e organizado.
Adiantando-se, ele abriu uma porta dupla pintada de vermelho e fez um sinal para ela entrar. Cat assentiu, seguindo na frente. Mantendo as mos na cintura, olhou 
o aposento.
Como o exterior do barco, aquele lugar tambm irradiava uma aura de charme e de tradio. Vrias mesas redondas estavam dispostas de modo a criar uma atmosfera aconchegante, 
mas suficiente para manter os passageiros a uma distncia civilizada uns dos outros. As luzes indiretas contribuam para tornar o lugar agradvel e o carpete era 
do mesmo tom de vermelho vivido das portas e da borda do barco.
O bar, localizado a um canto do salo, tinha um extico balco arredondado. Cat teve de admitir que o lugar tinha estilo. Os copos estavam incrivelmente transparentes 
e o espelho atrs do balco brilhava sob o efeito das luzes.
Ela caminhou at o palco, aprovando o cho de madeira impecavelmente encerado. Sentiu uma onda de satisfao ao ver um pster com sua foto pendurada em uma das paredes 
laterais.
Chegando ao centro do palco, virou-se de frente para onde o pblico ficaria. Mantendo os olhos fechados, respirou fundo e cantou os versos mais fortes de Woman in 
Love, de Barbra Streisand.
De p, no fundo da platia, Duncan teve de se esforar para no ficar boquiaberto. Cat tinha uma voz poderosa demais para algum com um porte fsico to delicado. 
O som melodioso preencheu o ambiente por completo, sem que ela precisasse usar o microfone.
- Tem uma tima acstica aqui - elogiou Cat.Duncan teve de respirar fundo para responder:
- Tambm tem um belo par de flautas com voc. Ela sorriu. Sabia muito bem o que tinha. A voz era tudo o que ela tinha, e Cat pretendia us-la para chegar ao topo.
- Obrigada, corao. Ainda preciso fazer algumas verificaes quanto ao som. Se me mostrar minha cabina, meu camarim e me arranjar um sanduche, estarei pronta para 
o trabalho em poucos minutos.
- Bem, ter uma apresentao dentro de.... - Ele olhou o relgio. - Dentro de oito horas.
- Nunca perco o horrio de uma apresentao - declarou Cat, tirando os culos. - Farei meu trabalho, Blade.
Ele assentiu, mesmo sem muita certeza de que deveria confiar nela.
- O camarim fica atrs do palco, entre o deque principal e o cassino.
- Muito esperto - disse ela, enquanto ele se aproximava. - Os passageiros compraro drinques aqui, comearo a peram-bular por a e acabaro indo parar no cassino. 
Bando de idiotas.
Duncan arqueou uma sobrancelha.
- Estou vendo que no gosta de beber nem de apostar.
- No bebo com freqncia. Beber prejudica o raciocnio e apostar, quando se vai alm da medida, significa perder. No gosto de perder.
- Nem eu. - Duncan a conduziu por outra porta e virou  esquerda, entrando por um pequeno corredor. - Aqui est seu camarim.
"Meu camarim", repetiu Cat, em pensamento. Menos de um ano antes, ela tivera seu primeiro camarim. Aquilo ainda lhe provocava um arrepio de emoo. Nada mais de 
dividir seu espao com stnppers nem com grupos de danarinos. Nada de brigar por um lugar em frente ao espelho nem de ter de procurar suas roupas de palco em meio 
a uma poro de outras.
Aquele camarim seria seu, pensou, observando o aposento impecavelmente organizado. Espelho iluminado, penteadeira espaosa, cadeira estofada em veludo, suporte com 
cabides e... Deus salve a Amrica! Um confortvel sof.
- E um pouco pequeno - disse e deu de ombros.
Na verdade, queria ter espao para danar e comemorar sua boa sorte.
- Mas conseguirei dar um jeito. Vou precisar de ajuda para trazer minhas roupas de palco para c.
- Voc a ter - garantiu Duncan. - Mas venha conhecer tudo primeiro.
Cat o acompanhou com certa relutncia. Teria gostado de se sentar naquele sof macio e de ficar ali por mais algum tempo, sorrindo consigo.
Em vez disso, seguiu Duncan at o cassino, com suas mesas forradas com feltro verde e suas roletas brilhantes.
Aquele era o palco de Duncan Blade, pensou ela. Por mais que ele estivesse vestido casualmente, e ele devia considerar que uma bermuda caqui e uma camiseta branca 
de seda feitas por um alfaiate fossem uma roupa casual, Duncan era a perfeita imagem de um tradicional apostador de barco. E ela no acreditava que ele tivesse o 
hbito de sair com os bolsos vazios de lugares como esse.
- Duas apresentaes por noite - disse ele, quando os dois voltaram para o corredor e seguiram at o deque de trs, iluminado pela luz intensa do sol. - Poder aproveitar 
osdias como quiser. Encorajamos a tripulao a travar contato e a fazer amizade com os passageiros. Tomar suas refeies nos deques inferiores junto com a tripulao. 
O desjejum  das seis s oito, o almoo das onze  uma e o jantar das cinco s sete. Garanto que no sentir fome.
-  bom saber disso. Costumo ter um apetite voraz. Duncan olhou para ela. Cat parecia ser magra, embora a foto que ele vira houvesse mostrado curvas muito atraentes. 
Particularmente, apreciava os progressos em matria de lingeries, e os verdadeiros milagres que elas eram capazes de provocar em uma mulher.
- Pode usar a academia de esportes, tambm nos deques inferiores - continuou ele. - Pagar por suas bebidas e, j que no toma bebidas alcolicas com freqncia, 
nem precisaria ser avisada. Porm,  minha obrigao avisar: se beber demais uma vez, receber uma advertncia. Da segunda vez, ter de deixar o barco na parada 
seguinte.
Descendo por uma escada estreita, Duncan seguiu por outro corredor.
- Aqui ficam as cabinas dos passageiros. Temos condies de comportar uma mdia de cem passageiros. - Abrindo uma das portas, ele disse: - Cabinas de primeira classe.
Ento deixou que Cat examinasse o aposento.
- Ora, ora... - murmurou ela.
O aposento era mais espaoso do que ela havia imaginado, com uma cama generosa e uma confortvel sala de estar. Os mveis pareciam antigos e, para seu maior espanto, 
genunos. Vasos com flores frescas decoravam o ambiente e uma delicada porta com sacada oferecia uma bela vista do rio.
- Deve custar uma fortuna - sugeriu.
- Voc tem aquilo que consegue pagar - falou Duncan. - As pessoas vm at aqui para relaxar, para se divertir e oferecemos a elas aquilo que podem pagar.
- Aposto que sim.
Algum dia ela tambm ocuparia uma cabina como aquela, pensou Cat. E quando isso acontecesse, deitaria nua na cama, feito um beb, e riria at seu estmago doer. 
Ento poderia esquecer os apertados quartos de hotel onde j havia sido obrigada a dormir por no poder pagar um lugar melhor.
- Bem, corao, j que empregados no devem ter a mordomia de ficar em uma cabina como esta, onde fica a minha?
- No nvel abaixo deste.
Duncan deu um passo atrs, mas quando Cat passou por ele, seus braos roaram um no outro. At o perfume dele cheirava a riqueza, pensou ela, meio contrariada. Ela, 
por sua vez, devia estar exalando um cheiro de horas de espera no aeroporto. Pensando nisso, se no comesse logo alguma coisa, acabaria desmaiando e dando um vexame 
logo nos primeiros minutos de seu novo emprego.
Contudo, no era a primeira vez que passava fome. Poderia esperar mais um pouco, pensou enquanto seguia Duncan por outra escada. "Pense em outra coisa", disse a 
si mesma. "Qualquer outra coisa."
Como no belo traseiro de Duncan, por exemplo. Definitivamente, ele mantinha a idia de primeira classe em todos os sentidos. Seu riso o fez olhar para trs.
- O que foi?
- Nada. Estou apenas admirando a paisagem daqui de trs. Duncan arqueou a sobrancelha esquerda, uma habilidade que Cat sempre admirara. Ento um sorriso msculo 
iluminou o rosto dele, tornando-o mais atraente do que nunca.
"Puxa!", pensou Cat. "Mas que arma secreta. Mais eficaz impossvel!"
- Da prxima vez, trocaremos de lugar - avisou ele, abrindo uma porta. - Esta  a sua cabina.
O aposento tinha metade do tamanho do outro, e a pequena janela mal refletia um pouco da luz do sol. Ainda assim, Cat gostou do espao disponvel, da cama de solteiro 
coberta por um bonito lenol e do cho impecavelmente limpo. Sua bagagem j havia sido levada para l e estava ocupando mais da metade do quarto.
- Quando arrumar a bagagem, ele no parecer to pequeno - disse Duncan.
- Gostei daqui.
De fato, ela gostara muito. A cabina emanava um perfume de limpeza, e no haveria bbados brigando no quarto ao lado. Tambm no seria preciso encostar uma cadeira 
contra a porta, para se proteger, e ela poderia dormir com os dois olhos fechados.
Examinou o pequeno banheiro e no viu o menor problema na banheira e no boxe minsculos. Por menores que fossem, seriam apenas para seu uso pessoal, pensou ela. 
Durante as seis semanas seguintes, aquele lugar seria todo seu.
- Ficarei bem aqui - avisou a Duncan. - E quanto quele sanduche?
- Mandarei que preparem algo. - Ele consultou o relgio, notando que j estava com uma hora de atraso na programao. - Descanse por uma hora. Pedirei a algum para 
verificar o som do salo. Manteremos o deque principal fechado at as quatro horas. Esse  todo o tempo que posso lhe oferecer para se aprontar, portanto, seja pontual.
- Estarei l, corao. - Cat andou at a porta e se apoiou nela, em um convite silencioso para que ele sasse. - Ah, e preciso de uma garrafa de gua no palco - 
avisou a ele. - Sem gs, sem sabor e sem gelo. Apenas gua mineral fresca. Duncan arqueou a sobrancelha novamente.
- Mais alguma coisa?
- Bem... - Cat curvou os lbios em um sorriso provocante, tocando a ponta do dedo na camiseta dele. - Isso o tempo ir dizer. Obrigada pela recepo.
Pelo visto, ela gostava de brincar com fogo, pensou Duncan.. Mas ele tambm era bom naquilo, Segurando o queixo dela entre o indicador e o polegar, inclinou a cabea 
at que seus lbios ficassem a centmetros dos dela. Adorou quando o olhar de Cat se tornou apreensivo de repente.
- Voc ainda no viu nada, doura.
Dizendo isso, saiu da cabina com um sorriso danando' nos lbios.

12

Duncan sempre gostara mais dos ares da noite. Principalmente daquele momento do crepsculo em que os tons intensos do cu comeavam a ceder lugar a um azul cada 
vez mais profundo.
Julho era um ms de dias quentes, com o sol se refletindo nas guas escuras do rio Mississippi. Isso tambm significava noites quentes, permeadas por leves brisas 
refrescantes.
Os passageiros j se encontravam a bordo do Princesa Comanche, e a festa de recepo havia iniciado um perodo cheio de divertimento, de prazer e de recordaes 
sobre a poca de aventura em que barcos como aquele costumavam navegar pelo rio.
Havia feito as saudaes aos passageiros, sorrindo para todos e felicitando desde os noivos que iriam passar a lua-de-mel a bordo at os apostadores sedentos pelo 
momento de comearem suas apostas. Quando o fim do crepsculo anunciou o incio da noite, Duncan sentiu-se tomado por uma onda de expectativa.
Boa parte de sua vida havia sido passada em hotis e em lugares provisrios, localizados em diferentes cidades e estncias tursticas. Gostava da vida que levava 
naquela poca. Aprendera sobre os negcios da famlia e descobrira que tinha jeito para lidar com isso. Mas tambm descobrira que preferia liberdade de movimentos 
e mudanas inesperadas.
Sua me costumava rir, dizendo que ele nascera com um sculo de atraso. O rio Mississippi era seu verdadeiro lar.
Duncan finalmente assumira isso, navegando pelo rio com seu Princesa Comanche. Enquanto o barco deslizava preguiosamente sobre aquelas guas tranqilas, ele dizia 
a si mesmo que estava deixando todas as restries para trs.
Se quisesse, tambm poderia pilotar o barco pessoalmente, algo que aprendera desde muito tempo. Mas no era necessrio no momento, pois confiava em sua tripulao. 
No era homem de entregar o controle nas mos de outros sem que tivesse como reav-lo quando fosse preciso.
Por isso, escolhera com cuidado o capito de seu barco e o restante da tripulao. Assim, poderia pelo menos desfrutar um pouco de cada viagem, sabendo que tudo 
estava indo bem em seu barco.
Passou diante do cassino e cumprimentou sua gerente com um gesto de cabea. Glria Beene tinha um olhar preciso, uma mente brilhante e um charmoso sotaque sulista 
que disfarava toda sua eficincia. Alm disso, preenchia muito bem o smoking de um charmoso modelo feminino, que ela costumava usar durante o trabalho.
Duncan a havia "roubado" de Savannah, aumentado consideravelmente seu salrio e chegara at a pensar em ter um relacionamento mais... ntimo com ela. Porm, ambos 
haviam descoberto que pensavam um no outro mais como parentes do que como amantes.
- A noite ser movimentada - disse Glria. - E com apostas em alta, espero.
- Os passageiros gostam de comear apostando nas mquinas, enquanto se aquecem. Estamos com dois casais em lua-de-mel. Voc vai logo identific-los pelos olhares 
apaixonados que trocam a todo instante. Se eles aparecerem por aqui, quero que providencie uma garrafa de champanhe para cada casal por nossa conta.
- Pode deixar.
- Vou verificar como esto os preparativos para a apresentao de Cat FarrelI, mas estarei circulando pelo barco durante as prximas horas.
Duncan se retirou devagar, apreciando a msica ambiente, o rudo das cartas sendo manipuladas e o som das roletas sendo testadas pelos membros da tripulao.
Depois de conferir se tudo estava em ordem no barco, dirigiu-se ao deque principal. Ao passar diante do camarim de Cat, olhou para o relgio e franziu o cenho. No 
ouvira nenhum rudo vindo l de dentro ou da cabina desde que a deixara, horas antes. Considerando o atraso da chegada, ele ainda no estava muito confiante de que 
ela seria pontual.
Hesitou por um instante, mas decidiu bater  porta.
- Cinco minutos, srta. FarrelI.
- Estou quase pronta. Poderia me ajudar aqui, por favor? Duncan abriu a porta. E foi como se algum o acertasse de surpresa bem no queixo.
Cat estava de p no centro do camarim, vestida com algo que somente uma alma muito generosa chamaria de vestido. A cor era de um verde to extico quanto o dos olhos 
dela, e deixava os ombros nus, formando uma espcie de moldura para abrigar os estonteantes cabelos avermelhados.
O jeans desbotado no dera a ele o mnimo indcio de que Cat tinha pernas esguias, mas o vestido com uma generosa abertura lateral e os saltos altssimos estavam 
sendo mais o que generosos em lhe mostrar isso.
- P-precisa de ajuda? - balbuciou ele, esforando-se para disfarar a surpresa.
Cat parou de tentar fechar o zper e virou-se, oferecendo a ele a bela viso de suas costas nuas.
- Voc comprou o presente, corao - disse ela - agora me ajude a amarrar o lao. Esse maldito zper nunca colaborou comigo.
- Vejamos o que posso fazer.
Duncan se aproximou, notando que com aqueles lindos olhos enfatizados pela maquilagem e com os lbios cheios pintados com um convidativo tom de vermelho, Cat no 
se parecia nem um pouco com uma adolescente. Ela exalava sensualidade por todos os poros.
Em seu lugar, o que poderia um homem fazer seno desfrutar do momento?, pensou ele.
- s vezes,  preciso abaix-lo um pouco...
Ele forou um zper um pouco para baixo, fingindo ignorar o contato de seus dedos com a pele dela.
- ...antes de subi-lo - completou, sem fechar o zper. Cat no estremeceu sob o toque da mo dele. Porm, ficou mais surpresa do que aborrecida quando, por uma frao 
de segundo, desejou haver estremecido.
Lembrando a si mesma que sabia muito bem como lidar com aquele tipo de situao, virou-se para Duncan com um sorriso sensual.
- Oh, isso me lembra que tenho estado meio em baixa, mas que prefiro estar no alto.
- Talvez no goste de ficar embaixo porque nunca tenha descido ao lugar certo - insinuou ele. Sem resistir, deslizou os dedos pelas costas dela. - Bonitas costas, 
srta. Farrell.
- Obrigada.
Oh, droga, ela realmente queria estremecer sob aquele toque.
- Tem um bonito rosto, Blade. Agora quer me ajudar com este vestido, antes que eu perca o incio do show? Meu chefe fica furioso quando me atraso.
- Testemunharei a seu favor, se for preciso.
Duncan ficou surpreso ao descobrir que preferiria despi-la e descobrir que outros mistrios se encontravam escondidos por baixo daquela roupa folgada com a qual 
ela estava vestida ao chegar.
A proximidade lhe permitiu perceber que Cat tinha noo do que se passava em sua mente. E a menos que sua percepo estivesse equivocada, teve a impresso de ver 
um brilho de curiosidade nos olhos dela.
Cat se manteve imvel, embora o calor daqueles dedos roando suas costas a fizesse sentir o desejo de se virar e descobrir se eles eram mesmo to experientes quanto 
pareciam.
- Seria um erro - disse ela.
- Sim, eu sei.
Com relutncia, Duncan fechou o zper. Ento deu um passo atrs, olhando-a por um longo momento.
- Mas pelo que estou vendo daqui, acho que valeria a pena.
Afastando-se, antes que acabasse voltando a toc-la, abriu a porta do camarim.
- Boa sorte.
Seguindo um impulso, Cat deu um passo  frente e parou bem prxima a ele junto  porta. Bem devagar, traou o contorno dos lbios dele com o dedo e sorriu.
- No sabe que no se deseja "boa sorte" a um artista, antes de ele entrar no palco? - perguntou, com voz sedutora.
- Sim, eu sei - respondeu Duncan. - Mas no sei se teria coragem de mand-la "quebrar uma perna", como se diz por aqui, no meio artstico. Ainda mais se tratando 
das suas - acrescentou, lanando um olhar significativo para as pernas dela, reveladas atravs da abertura do vestido.
Cat passou por ele, dirigindo-se ao palco. No soube dizer se seu corao estava acelerado pelo que acabara de acontecer ou pela expectativa da estria. De qualquer 
maneira, o importante seria manter as emoes  flor da pele. Afinal, tinha de transmitir emoo em suas interpretaes.
Por isso, em vez de bloquear as sensaes que Duncan lhe despertara, usou-as como combustvel para sua preparao, enquanto esperava para entrar no palco.
Quando as luzes diminuram, ela respirou fundo e seguiu em frente. Ao chegar ao centro do palco, fechou os olhos e comeou a cantar, soltando sua voz sensual e melodiosa.
Comeou com suavidade, permitindo que apenas sua voz envolvesse a letra da msica com a energia emanada de seu corao, como acontecia sempre que ela cantava. Ento 
os acordes da msica se juntaram  sua voz, formando um conjunto rico e harmonioso.
Uma outra luz se acendeu acima do palco, iluminando seu rosto. Manteve-se assim por algum tempo, at ilumin-la por completo quando sua voz ganhou fora, envolvida 
pelo calor de sua interpretao.
"Pura seduo", pensou Duncan, assistindo-a do fundo da platia. A voz de Cat poderia at soar triste, enquanto clamava pelo amor de algum, mas, ainda assim, era 
pura seduo.
E o pblico tambm sentiu isso. As mulheres pareciam estar com lgrimas nos olhos, enquanto os homens observavam Cat com indisfarvel ar de desejo. Deus, ela sabia 
mesmo como fazer um homem desej-la.
Em um gesto quase inconsciente, levou a mo aos lbios, onde ela o havia tocado. Aquele simples toque fora capaz de acender uma chama em seu corpo. Cat era perigosa. 
Provocante. E o pior era que ele tinha um fraco por mulheres perigosas e provocantes.
Ouviu a msica at os aplausos entusiasmados indicarem o fim da primeira apresentao. Ento se virou e caminhou de volta para o cassino, onde sabia que as apostas 
giravam a seu favor.
Cat no deu sinal de vida at o meio-dia. Depois da segunda apresentao, fora direto para o camarim, onde tirara o vestido de palco e a maquilagem.
Sentindo o efeito de a adrenalina diminuir, dirigira-se  sua cabina. Aps um banho quente, entregara-se  maciez daquele colcho. Ento dormira feito uma pedra.
Acordou com a luz do sol alto entrando pela pequena janela da cabina, o leve balano do barco e as exigncias desesperadas de um estmago vazio.
Por volta de meio-dia e meia, j havia tomado banho e dirigiu-se em alerta total  cozinlia do barco. Fez amizade com um dos cozinheiros logo que chegou ao local. 
Depois de trabalhar em hotis, clubes noturnos e at em espeluncas, Cat havia notado que era essencial travar algum tipo de contato com quem cuidasse da comida. 
Sempre se comia melhor dessa maneira.
Charlie era de Nova Orleans. Embora fosse cozinheiro, era magrrimo e carregava consigo o peso de um generoso bigode e de trs ex-esposas. Cat ficou sabendo de toda 
a histria a respeito delas, enquanto se deliciava com o camaro touffe que ele lhe servira.
Para acompanhar, apenas gua mineral, como sempre. Cafena costumava deix-la enrgica demais e outras bebidas nem sempre faziam bem  sua garganta.
No se importou de comer e conversar em meio  agitao da cozinha. De fato, mal notou a movimentao dos garons saindo e entrando do local.
O almoo estava sendo servido no salo do deque principal e tambm naquele reservado para os tripulantes, mas ela preferia a cozinha. Ali, pelo menos tinha acesso 
a mais "quantidade".
- Fale-me mais sobre nosso chefe, Charlie - disse, em um tom casual.
- Duncan?
Charlie acenou para um de seus ajudantes, para que este se certificasse de que os cogumelos estavam sendo cortados devidamente.
- E um bom homem - continuou ele. - E muito esperto tambm. Costuma me dizer: "Charlie, quero comida feita de sonho". - Divertindo-se com a lembrana, ele riu, balanando 
a cabea. - Ele gosta que a comida saia to perfeita quanto poesia, e  o que eu fao. Afinal, ele paga bem porque quer o melhor. E no aceita menos do que isso, 
chre. No Duncan Blade.
- Eu acredito - anuiu Cat, comendo outro pedao de camaro.
- Ele tem um fraco por mulheres bonitas. Mas no se deixa envolver por elas, como eu. Nenhuma delas conseguiu "fisg-lo". Muito diferente de mim, que basta ver um 
rostinho bonito para estar com uma aliana no dedo.
Cat riu.
- Mas no Duncan?
Charlie balanou a cabea negativamente.
- Ele as conquista, mas as deixa de lado enquanto elas ainda esto suspirando alto.
- Nem toda mulher  to sensvel assim.
- Oh, mas todo mundo tem um ponto fraco, menina. Sempre. Eu, por exemplo, tenho vrios.
Mas no ela, Cat disse a si mesma ao sair da cozinha para ir andar um pouco pelo deque. Quando uma mulher tinha motivos suficientes, podia encobrir aqueles pontos 
fracos at que eles se tornassem praticamente inexistentes. Ento seria ela a deixar os homens de lado, enquanto eles ainda estivessem suspirando.
Quando se tinha de depender apenas de si mesma, era preciso ser rpida nos pensamentos e nas aes.
Apoiando-se no gradil, ficou olhando as guas do rio ondulando com a passagem do barco. Era bom estar longe de aglomeraes. Longe de toda a loucura da cidade. Inspirar 
aquele ar puro ento era maravilhoso. Como se no bastasse, tambm havia o sol para tornar os dias mais bonitos. Ela adorava o sol.
Seria at interessante aceitar mais empregos como esse, contando com o benefcio de viajar como turista. Charlie tinha razo, Duncan Blade no era sovina com os 
funcionrios. O salrio que receberia pelas seis semanas de apresentao aumentaria consideravelmente suas economias. Com sorte, logo deixaria de ter de se preocupar 
com dinheiro.
Nunca mais voltaria a ser pobre, prometeu a si mesma. Nem se desesperaria ou sentiria medo. Catherine Mary FarrelI estava a caminho da fama.
Do deque de cima, Duncan continuou a observ-la. Cat estava curvada sobre o gradil, com os calcanhares cruzados displicentemente. Parecia to satisfeita e  vontade 
feito uma gata tomando sol.
Ento por que estava se sentindo tenso s de olhar para ela? Cat no aparentava o mesmo aspecto sedutor da noite anterior. No com aquele bon ridculo e os cabelos 
presos em um rabo-de-cavalo cado s costas. A camiseta folgada encobria-lhe os quadris, ou parte deles, e seus ps estavam descalos. O short curto, semi-escondido 
pela camiseta, deixava  mostra um belo par de pernas.
Contudo, no era a aparncia dela que o perturbava. Era sua... atitude. Cat continuou no mesmo lugar, irradiando aquela autoconfiana absoluta e parecendo no dar 
a mnima para quem a visse ali. Para ele, aquele tipo de atitude era sinnimo de estilo.
- Ei, Cat Farrell!
Ela se virou e, apesar da aba do bon e dos culos escuros, levou a mo ao rosto, protegendo-o do sol. Avistou Duncan no deque superior, com os cabelos muito negros 
esvoaando ao vento. A bermuda caqui e a camiseta azul mostravam um corpo atltico e perturbadoramente msculo.
"Ser que ele nunca parece menos do que perfeito?", Cat se perguntou.
- Ei, Duncan Blade - respondeu no mesmo tom bem-humorado.
- Quer vir at aqui?
- Por qu?
- Quero falar com voc.
Ela sorriu. Apoiando os cotovelos no gradil, continuou olhando para ele.
- Venha voc at aqui embaixo.
Duncan sabia que aquele era o tipo de atitude insignificante que poderia fazer algum perder toda uma batalha.
- Suba - disse apenas. - Para o meu escritrio.
Ele ainda teve tempo de v-la dar de ombros, antes de se afastar do gradil. Ficou esperando com pacincia, sabendo que ela precisava de algum tempo para ceder. Isso 
acabaria acontecendo.
Atrs dele, alguns passageiros se encontravam deitados em espreguiadeiras ao longo do deque. Outros haviam escapado para lugares mais frescos do barco. Reunidos 
em pequenos grupos, contavam detalhes sobre suas vidas ou conversavam sobre a histria do rio.
A grande maioria, porm, e para sua maior satisfao, encontrava-se no cassino, ouvindo o doce som das roletas.
Quando Cat chegou ao alto da escada, ele apenas fez um sinal para que ela o acompanhasse at o lance seguinte.
- Qual o problema, chefe?
- Nenhum. Como foi sua manh?
- No sei. Dormi durante todo o tempo. - Quando chegou ao alto, Cat olhou em volta. - Ainda bem que gosto das alturas.
- Venha.
Duncan abriu uma porta e ficou de lado, para que ela entrasse primeiro. Pelo visto, ele no gostava de correr o risco de ser trancado por algum, pensou Cat, contendo 
o riso.
O escritrio no era muito grande, mas tinha janelas suficientes para criar a sensao de espao. Cat atravessou o aposento, deslizando a mo pela mesa de mogno. 
Ento olhou para a pequena rea com cadeiras dobrveis, antes de se aproximar de uma das janelas e observar a paisagem.
- A vista daqui  maravilhosa - murmurou.
- Sim. Ela evita que eu fique maluco com tantos papis. Quer tomar algo gelado?
- gua.
Assentindo, Duncan abriu um frigobar e pegou uma garrafa.
- Isso  s o que voc bebe?
- Na maior parte das vezes - respondeu ela, com um sorriso.
Virou-se ao ouvir a gua sendo despejada no copo.
- E ento? Qual  o problema? - perguntou a ele.
- Examinei seu pster de propaganda e os outros materiais esta manh. - Duncan entregou o copo a ela.
- E...?
- Bem, est tudo muito profissional e bem escrito, mas no oferecem detalhes. - Sentando-se, esticou as pernas, cruzando os calcanhares, e olhou para ela.
- Conte-me mais.
- Por qu? - Cat quis saber.
- Por que no?
Ela tambm se sentou e cruzou as pernas.
-- Voc me contratou e eu aceitei. O que mais precisa saber?
- No sei de onde voc veio.
- Sou do lado sul de Chicago. Duncan arqueou uma sobrancelha.
- Vizinhana difcil, no?
- Como sabe? - indagou Cat, com um sbito sorriso.
- Os MacGregor no costumam passear por aquele lugar com suas limusines.
"Um ponto de fragilidade", pensou Duncan, servindo-se de um pouco de gua.
- Meu av trabalhou em minas de carvo e passou boa parte da juventude em vizinhanas to difceis quanto s do lado sul. Meu pai, descendente dos comanches, lutou 
e fugiu de lugares que fariam seu bairro parecer um paraso, pode acreditar. Venho de uma famlia que no esqueceu suas razes.
- Isso pode ser bom para voc, Duncan. Quanto a mim, prefiro enterrar o passado. - Olhando-o por trs dos culos escuros, Cat tomou outro gole de gua, antes de 
perguntar:
- O que est realmente fazendo por aqui?
- Aventurando-me - respondeu ele. - Onde est sua famlia?
- Meu pai morreu. Foi atropelado por um motorista bbado quando eu tinha oito anos e ele vinte e nove. Minha me  garonete em Chicago. O que isso tem  ver com 
meu trabalho?
Em vez de responder, Duncan se inclinou para frente e tirou os culos dela.
- Ei!
- Gosto de ver os olhos da pessoa com quem estou conversando.
Dizendo isso, colocou os culos sobre a mesa e encostou-se na cadeira, gostando do brilho de indignao que surgira nos olhos dela.
- Aceitei um contrato de seis semanas com opo de estend-lo para mais seis. Mas antes de decidir aceitar ou no essa opo, quero saber com quem estou lidando.
Mais seis semanas?, pensou Cat. Seria o mesmo que ter trabalho garantido, um bom salrio e estada confortvel por trs meses. Poderia dobrar suas economias e tambm 
a quantia do cheque que mandava para sua me todos os meses. Alm disso, poderia terminar na assinatura de um novo contrato com algum outro membro da poderosa famlia 
MacGregor.
Porm, ao sorrir com polidez para Duncan, no demonstrou o menor sinal do que ia em seus pensamentos nem da expectativa que parecera preencher seu peito.
- Bem, nesse caso, corao, minha vida  um livro aberto. O que deseja saber?

13

Duncan chegou  concluso de que havia tocado no ponto certo. Dinheiro parecia ser o assunto que Cat Farrell tratava com mais prazer e interesse. Com outra, teria 
abordado seu objetivo de forma mais indireta, conduzindo-a cuidadosamente at o ponto desejado com muito charme, delicadeza e uma boa dose de sagacidade.
Mas no acreditava que alguma daquelas tticas desse certo com Cat.
- Existe algum homem na sua vida? Ela arqueou as sobrancelhas, surpresa.
- Ora, voc vai mesmo direto ao que interessa, no?
- Tenho apenas boa percepo para ajustar meus passos aos da pessoa com quem caminho, minha cara. Existe algum?
- Nenhum, a menos que eu queira.
Cat tomou outro gole de gua, ganhando algum tempo para faz-lo perceber que ela no dissera nada alm da verdade.
- Nenhum homem... at o momento - afirmou ele. - No bebe com freqncia. No joga. Nada de vcios, Cat?
Um brilho provocador surgiu nos olhos dela.
- Foi o que eu disse? Voc bebe, joga e aposto que tem sempre uma mulher disponvel quando quer. Por acaso isso significa que tenha vcios, Duncan?
- Boa pergunta. - Em um gesto evasivo, pegou uma moeda sobre a mesa e comeou a entrela-la entre os dedos. - Voc me deixou impressionado ontem.
- No camarim?
O sorriso dele demonstrou apreciao.
- Sim. E tambm no palco. Tem muito talento.
- Eu sei.
Ele inclinou a cabea para o lado.
- O fato de saber isso e usar  algo a seu favor. Mas aonde quer chegar?
- O mais alto que conseguir, e depois mais alto ainda.
- Por que ainda no gravou nenhum disco?
Com a ponta da lngua, Cat enxugou uma gota de gua no lbio superior.
- Alguns produtores j andaram batendo  minha porta, mas no dei ateno a eles.
- Precisa de um novo empresrio. Ela deixou escapar uma risada.
- Conte-me uma novidade, por favor - ironizou.
- Posso ajud-la.
Devagar, Cat colocou o copo na mesa. A parte dourada de suas ris adquiriu um brilho mais intenso.
- E o que quer como porcentagem?
Os dedos que manipulavam a moeda pararam de repente.
- No fao barganhas em troca de sexo, se  isso que est pensando. No pago por isso nem brinco com o assunto.
Cat ficou em silncio por algum tempo. Como algo dito em um tom de voz to calmo poderia ser to desconcertante? Ento suspirou. Por mais que fosse difcil, teve 
de admitir que errara.
- Desculpe-me - disse a ele. - Ao longo da vida, no tive muitas pessoas se oferecendo para me ajudar sem cobrarem algo em troca.
- O sexo deve ser feito por prazer. E negcios por... por um tipo diferente de prazer. No costumo ligar uma coisa a outra. Entendido?
- Perfeitamente.
Satisfeito, Duncan recomeou a brincar com a moeda.
- Tenho alguns contatos no meio musical. Grave uma fita nos prximos dias. Vou entreg-la  pessoa certa.
- Assim? - Cat estalou os dedos. - E por qu?
- Porque gostei de sua voz. E tambm de seu visual. Cat hesitou, tentando identificar alguma inteno a mais por trs daquilo, mas no percebeu nada.
- Agradeo por isso. Muito.
Para selar o compromisso, estendeu a mo para ele. Riu com prazer quando a moeda desapareceu por entre os dedos dele.
- Puxa, muito bom - elogiou. - Sabe mais algum truque?
- Mais do que voc pode imaginar.
Divertindo-se com a reao dela, Duncan fez a moeda reaparecer entre dois dedos. Ento fechou as mos rapidamente e voltou a abri-las em seguida. A moeda havia sumido.
Cat riu feito uma criana, inclinando-se para frente.
- Faa de novo - pediu. - Vou descobrir o truque.
- Quer apostar? Ela o fitou nos olhos.
- Tenho olhos muitos rpidos.
- Lindos olhos. Deixaram-me aturdido quando ainda estava pensando que voc era uma adolescente rebelde. E seus cabelos...
A voz de Duncan se suavizou quando ele estendeu a mo e acariciou o rabo-de-cavalo que ela havia jogado sobre um ombro. Mantendo os olhos nos dela, inclinou-se mais 
para frente e tirou-lhe o bon.
- Maravilhosos - disse ele. - Onde est a moeda, doura?
- O qu?
"Progressos", pensou Duncan, com um sorriso. Encostan-do-se na cadeira, levantou as mos vazias.
- Nada na manga - completou.
Ao se dar conta de que havia sucumbido ao charme dele por um perigoso instante, Cat respirou fundo.
- Voc  muito bom nisso.
- Eu sei - respondeu ele, usando o mesmo tom auto-confiante que ela costumava usar. Pegou o bon. - Estenda a mo.
Quando Cat atendeu ao pedido, ele virou o bon, deixando a moeda cair. Porm, pegou-a no ar antes mesmo de ela tocar a mo de Cat. E a moeda sumiu mais uma vez. 
Cat no conseguiu conter o riso.
- Muito bom. Bem, estou me divertindo muito por aqui, mas ainda tenho de ensaiar algumas msicas novas para esta noite.
Ficou de p, surpreendendo-se quando Duncan tambm ficou e segurou-a pelos pulsos. Algo se acendeu dentro dela, mas Cat se manteve impassvel, com a cabea erguida 
e fitando-o nos olhos.
- Sentiu isso? - murmurou ele.
- O qu?
- A ligao.
- Talvez. Deixe-me ir.
Duncan continuou segurando-a o suficiente para deix-la impaciente, ento a soltou.
- Sem algemas, Cat.
- Melhor assim - afirmou ela. - Gosto de manter as mos livres.
Dizendo isso, levou a mo  nuca dele e puxou-o para si, at que seus lbios se encontrassem.
Esperava aquele sobressalto. Afinal, essa era a melhor parte de um beijo, no? Tambm j esperava sentir aquele calor pelo corpo. At ento, nenhuma novidade.
Porm, no esperava acabar realmente gostando do beijo de Duncan. Mais do que lhe provocar um calor pelo corpo, aos poucos o contato afetou-a por completo, deixando-a 
zonza, vulnervel.
Flagrou-se desejando ir mais alm, mas seu instinto de sobrevivncia a fez recuar.
- Bem... - disse, disfarando o tremor da voz e surpreendendo-se por no estar conseguindo pensar com clareza.
- Bem... - Duncan repetiu, segurando-a pelo quadril, antes que ela pudesse escapar. - Agora  minha vez.
Dizendo isso, manteve os lbios a centmetros dos dela. E se manteve assim at ouvir a respirao de Cat acelerar e seus olhos brilharem de um modo diferente.
Ento roou os lbios nos dela com provocante lentido. Cat o havia pegado de surpresa segundos antes, e ele tinha receio de que aquilo se tornasse um hbito. Se 
no tomasse alguma providncia para permanecer no controle, ela iria comandar sua vida e o barco antes do final da semana. E ele no tinha a menor inteno de deixar 
isso acontecer.
Sabia como oferecer prazer a uma mulher. Sabia como dar e receber. Devagar, deslizou as mos pelos lados da cintura e dos seios de Cat. Ento levou-as s costas 
dela e puxou-a mais para si. Lentamente, seus corpos foram se encontrando e se encaixando, at permanecerem juntos. - Oh, droga...
As palavras de Cat soaram mais como um gemido do que como um protesto. Aceitando o inevitvel, enlaou os braos em torno do pescoo dele.
Porm, Duncan continuou apenas brincando com seus sentidos. Mordiscou seus lbios, acariciou-lhe os mamilos, tocou sua lngua com a dele e mordiscou-Ihe a linha 
do queixo at faz-la estremecer com um gemido.
Ento voltou a beij-la com urgncia, at que Cat tivesse a impresso de que o ar havia sumido de seus pulmes. O pouco de sensatez que ainda restava na mente de 
Cat se foi quando Duncan colou o quadril ao dela, evidenciando seu desejo. Com um gemido de prazer, abriu mais os lbios, em um silencioso convite  seduo.
Duncan entendeu o recado. Com os dedos entrelaados entre os cabelos de Cat e mantendo o rosto curvado de encontro ao dela, aceitou a oferta de bom grado. Se Cat 
queria que ele fosse alm... Ele iria. Desejara fazer isso desde que a vira pela primeira vez e ali estava Cat em seus braos, mais do que disposta a se render.
Ento comeou a ouvir seu prprio sussurro de rendio. Queria ter Cat para si, mas algo lhe dizia que ir alm poderia compromet-lo de uma maneira que ele preferia 
evitar. Deus, o que o fizera chegar a essa concluso? E por que justo nesse momento?
Respirando fundo, afastou-se devagar, forando-se a tornar o beijo mais gentil. Segurou o rosto dela entre as mos, enquanto se afastava, relutante.
Cat abriu os olhos lentamente e passou a lngua pelos lbios. Sua respirao ainda estava acelerada, mas ela se esforou para no demonstrar quanto aquilo a afetara.
- Isso  que eu chamo de ligao - disse. O comentrio fez Duncan rir.
- Funciona comigo. V at minha cabina depois do show dessa noite. Ento faremos uma... conexo - insinuou.  
Cat suspirou. No havia nada que ela quisesse mais, porm, seu lado racional voltara a se acender, piscando um sinal de alerta em sua mente.
- Corao, voc pode at ter instinto suicida, mas tenho interesses importantes demais no momento para aceitar pular de um precipcio junto com voc.
Duncan segurou-a pela mo, mantendo-a no lugar.
- Isso no tem nada a ver com negcios, Cat.
- J entendi essa parte. - Soltando a mo da dele, levou-a at o peito forte. - Talvez possamos at levar isso adiante. No, no  isso que eu quero dizer. - Saindo 
para o lado, pegou o bon e os culos sobre a mesa. - Voc  um arrasador de coraes, Duncan, e no quero ter nenhuma ranhura no meu.
- De onde tirou essa idia maluca? - protestou ele. - Nunca sequer rasurei o corao de algum.
Cat no conseguiu conter o riso, enquanto colocava os culos.
- Aposto que acredita mesmo nisso.
Levando um dedo aos lbios, beijou-o e soprou-o para Duncan. Ento saiu logo dali, antes que ela prpria acabasse acreditando no que ele havia dito.
Duncan fez meno de ir atrs dela, mas se conteve. Seria chegar perto demais da humilhao. S o fato de se imaginar sentindo vontade de fazer aquilo deixou suas 
mos midas.
Precisava analisar melhor suas apostas com relao  vida. Aproximou-se da janela e enfiou as mos nos bolsos, encontrando a moeda em um deles. Desejar uma mulher 
era algo fcil, natural, aprecivel. Mas seduzi-la era tudo isso e um pouco mais. E ele no tinha dvidas de que conseguiria seduzir Cat Farrell, se quisesse.
Havia energia demais entre eles para ser desperdiada sem sequer uma tentativa. Ela estava errada, concluiu, franzindo o cenho. Ele no era um arrasador de coraes. 
Nunca havia magoado uma mulher. Quase sempre ia se afastando aos poucos, antes que as emoes se tornassem mais intensas e perigosas.
No havia motivo para mudar de atitude a essa altura de sua vida. Cat parecia um desafio mais excitante do que as outras mulheres que ele tivera, e mais intrigante 
tambm. Aquela espcie de sex-appeal explcito era capaz de deixar qualquer homem maluco.
Estava mais do que disposto a corresponder ao apelo sensual daquele olhar, desde que a ligao transcorresse sob seus termos. Tudo que precisava fazer, pensou, seria 
convenc-la de que seus termos eram aceitveis.
Ainda refletindo sobre o assunto, tirou a moeda do bolso e jogou-a para o alto, pegando-a no ar.
- Cara, eu ganho - murmurou, virando a moeda entre os dedos e sorrindo ao ver a mesma face nos dois lados.
Ainda estava sorrindo quando o telefone tocou. Apoiando o quadril em sua mesa, pegou o aparelho.
- Blade.
- Diga "al" quando atender ao telefone! Onde esto seus bons modos?
O sorriso de Duncan se ampliou.
- Al, vov.
- Oh, assim est melhor. Como esto as coisas no barco?
- Quentes. Estamos a caminho de Memphis e o mundo parece prestes a pegar fogo de tanto calor.
- Ah, pois eu estou sentindo uma tima brisa vinda do oceano enquanto fumo um maravilhoso charuto cubano.
- O que significa que vov no est em casa -- deduziu Duncan.
- Arma saiu para tomar ch com algumas amigas. J estou ficando aborrecido de ouvi-la dizer que est com saudade de voc.
Anna MacGregor nunca reclamava de estar com saudade dos netos, mas Duncan fingiu que o av havia dito a verdade.
- Irei passar alguns dias com vocs no outono.
- Achei que ela gostaria de fazer um passeio no seu barco.
- Oh, isso seria timo. Avise-me quando quiserem vir e eu mandarei estender o tapete vermelho.
- Seu irmo contou a ela sobre a cantora que voc contratou. Sua av ficou morrendo de vontade de ouvir a jovem cantar.
- O nome dela  Cat Farrell.
Duncan pressionou os lbios, ainda sentindo o sabor do beijo de Cat.
- Ela vale todo o dinheiro que gastei com o contrato.
- E eu no sei? Eu mesmo a ouvi cantar e lhe disse que valeria a pena.
- Sim, eu tambm gostei do estilo dela. Fez muito sucesso ontem  noite. Ouvi alguns passageiros fazendo comentrios sobre o show esta manh.
- timo, timo.
- Ela  meio temperamental - falou Duncan, como que para si mesmo.
- Os irlandeses costumam ser assim. Catherine Mary Farrell no  uma exceo.
Duncan estreitou o olhar, sentindo-se pouco  vontade, alis muito pouco  vontade, quando um sbito pensamento lhe ocorreu.
- Catherine Mary? Tudo que recebi a respeito dela era que se chamava Cat Farrell. Como sabe seu nome completo?
- Ah, seu irmo me falou - emendou Daniel, censuran-do-se pelo deslize. - Mac o mencionou e acabei gravando-o na memria porque o achei bonito. Catherine Mary.
Duncan tamborilou os dedos sobre o joelho.
- Ento  isso. Aposto que ela manter o segredo mesmo depois de se casar com o pianista.
- O qu?! Que pianista?
- Aquele de quem ela est noiva - disse Duncan, sem titubear.
"Agora te peguei, velho MacGregor", pensou.
- O nome dele  Dabny Pentwhistle.
- Pentwhistle? Pentwhistle?! Como diabos uma mulher em seu juzo perfeito iria querer ter um sobrenome desses? De onde veio o sujeito? Ela no estava noiva na semana 
passada.
- No? - Duncan arqueou uma sobrancelha. - E como voc sabe?
- Porque eu... - Sentindo-se prestes a cair em uma armadilha, Daniel voltou atrs. - Ora, estou velho demais para lembrar dos detalhes de tudo que fao. Sabe que 
me interesso pelas coisas que acontecem no seu barco, no sabe? Isso significa que tambm me interesso pelas pessoas que trabalham nele. Se a jovem quer se casar 
com um sujeito com um sobrenome desses, o problema  dela, mas gosto de estar informado sobre o que acontece por a.
- Bem, agora voc j est mais do que bem informado. Portanto, se estava tendo alguma idia idiota sobre me unir a Catherine Mary Farrell, pode esquec-la.
- Idiota? Isso  jeito de falar com seu av? Acho que estou precisando lhe dar umas palmadas, rapaz.
- J me disse isso antes. - Duncan riu. - Quando viro para c?
- Assim que voc ficar ao nosso alcance - brincou Daniel. - Mas veja se cria um pouco de juzo se eu no puder ir para lhe dar algum, meu rapaz. Deixar um Pentwhistle 
qualquer lhe roubar uma verdadeira jia  um pecado. A garota tem sangue nas veias, pelo que seu irmo me disse. Ela merece algum melhor.
- E eu sou a vtima?
- Ah! Um ingnuo,  o que voc ! Vai arrasar o corao de sua av passando todo o tempo nesse rio quando j deveria estar pensando em formar uma famlia.
- E em dar netos para ela segurar no colo, certo? J conheo essa histria, Sr. MacGregor. - Mesmo sob os protestos do av, Duncan riu. - Oh, eu te amo, vov.
- Deve amar mesmo - replicou Daniel, tambm rindo.
- Afinal, eu me preocupo com seu futuro. Quero ver meus netos casados e felizes antes que eu me v.
Duncan sabia bem quanto o av era carinhoso com os netos.
- Nunca vai morrer Sr. MacGregor. E se isso acontecer, aposto que voltar para arranjar o casamento de todos seus bisnetos. Agora v se preocupar com lan ou com 
algum dos outros, est bem? Eu estou timo.
- Est bem, est bem. - Daniel continuou rindo. - Volte a brincar com seu barquinho.
- Engraado, mas era exatamente isso que eu tinha em mente. Mande um beijo para vov.
- Pode deixar. Pentwhistle... Que horror! - resmungou Daniel ainda ao telefone, fazendo Duncan soltar uma gargalhada ao desligar.

14

Duncan acreditava em romances e na beleza dos sentimentos que eles traziam consigo. Admirava os detalhes dos gestos que tornavam um relacionamento especial entre 
um homem e uma mulher. Mac costumava dizer que o amor era sua religio e, embora Duncan no fosse to longe na considerao, admitia que sempre acreditara no poder 
desse sentimento.
Segundo sua experincia de vida, as mulheres adoravam receber amor e ateno. Por isso, mandou flores para a cabina de Cat quando atracaram em Memphis, um perfume 
quando pararam em Natchez e uma delicada caixinha de jias quando manobraram o barco em Baton Rouge.
No conseguira parar de pensar em Cat nem mesmo durante os momentos em que sua ateno tivera de se voltar para o trabalho com o barco. Em todas as vezes que haviam 
atracado, ele quisera lev-la para conhecer lugares exticos. Tambm a convidara para jantar na varanda de sua cabina, para uma caminhada pelo deque em uma noite 
enluarada e para uma tranqila ceia depois de uma das apresentaes.
E todas s vezes a resposta de Cat fora a mesma: "No, corao". Cat Farrell era mesmo muito teimosa.
Aquilo no era apenas aborrecedor, pensou, enquanto observava as docas de Nova Orleans, atravs da janela. Era tambm intrigante. O que sentiam um pelo outro era 
impossvel de ser ignorado. Pelo menos por ele.
Desde a conversa que haviam tido em seu escritrio, quase uma semana antes, Cat no havia lhe dado a mnima chance de toc-la novamente. No que ela o houvesse evitado, 
concluiu Duncan. Ela no era do tipo que agentava ficar fechada em uma cabina, sem ter contato com pessoas.
Sempre a encontrava perambulando pelo barco, conversando com algum da tripulao ou descansando em algum deque.
Nunca o evitava ou desviava o olhar quando se encontravam, pelo contrrio. Por vezes, chegara a lanar olhares e sorrisos provocantes para ele. Mas nada, alm disso.
No parecia nem um pouco afetada pelo que acontecera entre eles. Nem mesmo quando Duncan se aproximava o suficiente para inspirar seu perfume, o mesmo com o qual 
ele a presenteara.
Sim, aquilo o estava deixando maluco. Ela o estava deixando maluco! Mas estava longe de admitir sua derrota.
Se a combinao do charme de Duncan Blade e de Nova Orleans no fosse suficiente para amolecer o corao de uma mulher, no haveria esperana para o resto da humanidade.
Deitada na cama, em sua cabina iluminada por uma tnue luz vinda da janela, Cat se espreguiou com languidez. Pelo ritmo do balano do barco, sabia que haviam atracado.
Depois de uma semana a bordo, acostumara-se aos movimentos da embarcao, aos sons e  sensao de estar no Princesa Comanche.
O ar de Nova Orleans devia estar bem ali, do lado de fora da janela, pensou consigo. Doces tpicos, lindas flores, jazz e turistas bbados. O que mais uma mulher 
poderia querer?
Teria horas para visitar a cidade, andar pelas ruas estreitas, dar uma olhada nas lojas de quinquilharias, provar a comida que tornava a cidade famosa e ouvir os 
msicos de rua.
Seria bom sair um pouco do barco e ficar longe do "perigoso Duncan". Seus lbios se curvaram em um sorriso. Passara a defini-lo assim, desde alguns dias. Um homem 
que dispensava tantos cuidados com uma mulher, que era indiscutivelmente charmoso, bonito e sexy, era to perigoso para ela quanto um furaco. E ela no tinha a 
mnima inteno de ser arrastada por um.
Duncan era muito perspicaz no que dizia respeito a mulheres, pensou enquanto entrava no banho. O modo como ele a olhava com aqueles penetrantes olhos castanhos fazia 
com que ela se sentisse o nico foco de ateno para ele no mundo. Quando falava com ela, usava um tom sedutor naquela voz aveludada, como se houvesse esperado por 
toda a vida s para falar com ela. Como se no bastasse, o simples roar de seus braos, enquanto passavam um pelo outro, era suficiente para arrepi-la por inteiro.
O implacvel sedutor a estava deixando maluca. E ela no poderia se dar ao luxo de experimentar nem sequer um instante de loucura. No com os planos que tinha em 
mente para sua carreira.
Enviar flores fora um clich, tudo bem. Contudo, no era ingnua a ponto de no saber os motivos para o acontecimento de um clich como aquele. Se ficara to indiferente 
ao gesto, por que passara o dia se aproximando das flores para inspirar o perfume que elas emanavam? E por que no conseguia parar de pensar em Duncan?
Deus, e o perfume que lhe dera? Nunca tivera um perfume original na vida. Do tipo que vinha em vidros maravilhosos, custavam uma fortuna e faziam uma mulher se sentir 
uma rainha. O pior fora que Duncan soubera exatamente o tipo de fragrncia que ela preferia e que combinaria com sua pele. Tudo isso tornara o presente simplesmente 
irresistvel.
Chegou  concluso de que ele j havia nascido com o conhecimento de como impressionar uma mulher.
A caixinha de jias, porm, fora o que mais a tocara. Era to intil, to suprflua e, ainda assim, to linda! Em sua vida, nunca tivera tempo nem dinheiro para 
gastar com suprfluos. Por isso, at aquele momento, no tinha idia de quanto era prazeroso receber um presente daquele tipo.
Enrolada em uma toalha, atravessou a cabina e pegou a caixa deixada sobre sua pequena penteadeira. Era toda de madreprola branca, com detalhes em cor-de-rosa, e 
estava vazia. De fato, ela no tinha nada para pr ali dentro.
Um sorriso se insinuou em seus lbios, enquanto olhava para ela. Com um suspiro, colocou-a de volta na penteadeira e comeou a se vestir para o quente dia de vero. 
Sabia muito bem o que o perigoso Duncan estava tramando. Tratava-se de uma espcie de campanha de seduo, cuidadosa e estrategicamente planejada. E ela era o prmio 
que ele esperava conquistar.
"Essa  a especialidade dos arrasadores de coraes", pensou consigo.
Dando de ombros, escolheu uma camiseta branca e um short preto. Ainda bem que sabia como lidar com Duncan, concluiu, enquanto calava um par de sandlias pretas 
de tirinhas. Guardou um pouco de dinheiro no bolso, antes de pegar o bon e os culos escuros.
Quando abriu a porta, Duncan estava prestes a bater.
- timo. Ainda bem que j est pronta.
Cat se sobressaltou ao se deparar justo com ele, que estivem to presente em seus pensamentos nos ltimos minutos. Aquilo chegava a ser irritante.
Mesmo assim, colocou os culos escuros com um ar casual e inclinou a cabea.
- Por que eu no estaria?
- Porque raramente sai da cama antes do meio-dia. Ela sorriu.
- Se sabe disso, por que pretendia bater  minha porta s nove horas da manh?
- Porque queria acord-la. Mas j que est acordada, vestida e pronta, teremos mais tempo. Agora vamos.
- Para onde?
- Nunca esteve em Nova Orleans?
Com um sbito movimento, fechou a porta da cabina.
- No - respondeu Cat. - Mas esse era meu plano inicial.
- Melhor ainda. Comeamos pelos doces tpicos no Caf du Monde, como os turistas que se prezam devem fazer. Essas sandlias so confortveis?
- Sim. Mas meu plano inicial era sair sozinha, corao.
- Ento mude-o - sugeriu Duncan, conduzindo-a at o deque por onde sairiam. - Passei muito tempo em Nova Orleans. Esse  um dos meus lugares preferidos. - Continuou 
falando enquanto seguiam em frente. - A cidade fica mais bonita  noite, mas h muito que se fazer por aqui em um dia de vero. A atmosfera  toda especial. Gosta 
de frutos do mar?
- Gosto de comida de qualquer espcie - confessou Cat, fazendo-o rir.
- Conheo um timo lugar onde poderemos almoar.
- Oua, Duncan...
Ele parou e se virou para ela. Segurando-a pelos ombros, fitou-a nos olhos ao dizer:
- Passe o dia comigo, Cat.
" o que mais quero!", ela sentiu vontade de gritar. Porm, limitou-se a soltar um suspiro resignado.
- Por que no? Mas voc vai pagar as contas.
O passeio se revelou mais agradvel do que Cat esperava. Duncan era uma tima companhia e levou-a para conhecer os melhores lugares da cidade.
No French Quarter, os prdios eram grandes, elegantes e curiosamente femininos, com suas varandas de ferro trabalhado e peitoris enfeitados com flores. Os aromas 
eram ricos, permeados por uma leve atmosfera de Antigidade. Ruas estreitas, parques verdejantes e caladas convidativas para lentas caminhadas.
Cat experimentou alguns doces e tomou um gole do caf au lait de Duncan. Deliciou-se ao ouvir o sotaque afrancesado das pessoas que passavam por eles e o rudo dos 
cascos dos cavalos puxando carruagens em direo a Jackson Square.
Contando sempre com os comentrios bem-humorados de Duncan, conheceu artistas de rua e riu muito da imitao que um deles fez de Elvis.
Deixando-se levar pelo clima do passeio, andaram de mos dadas durante a maior parte do tempo. Estavam caminhando sob uma alameda com rvores frondosas quando Cat 
se adiantou para observar trs garotos sapateando em uma praa. Estavam com os rostos suados, mas continuavam movendo os ps com preciso e sincronismo perfeitos. 
Notou que Duncan deixou algumas notas, em vez de moedas, na caixinha que eles haviam deixado ao lado, para arrecadar algum dinheiro.
- Esses garotos devem arrecadar uma boa quantia no fim do dia - disse a ele.
- Eles merecem. Est pronta para almoar? Cat riu.
- Corao, eu sempre estou.
Ela esperava que ele fosse lev-la a um restaurante fino, com toalhas de Iinho sobre as mesas e garons discretamente eficientes. De fato, estava preparada para 
no demonstrar o mnimo espanto se isso acontecesse. Em vez disso, porm, Duncan a levou para uma lanchonete lotada, com mesas sem nenhuma toalha. Os guardanapos 
eram de papel e o menu ficava exposto em uma lousa atrs do balco. Cat sempre se sentia mais  vontade em lugares como aquele.
A mulher que se encontrava atrs do balco era enorme e usava um avental que mais parecia uma tenda. A mistura de cores chamativas do tecido lembrou a Cat uma pintura 
abstrata.
O rosto redondo, cor de chocolate, tinha uma pele finssima como seda e os dentes muito brancos logo se mostraram em um amplo sorriso quando ela avistou Duncan.
- Oh, meu garoto bonito! Venha at aqui me dar um beijo. Ele riu, aproximando-se e dando um sonoro beijo no rosto dela.
- Bonjour, Mama. a va?
- Oui, oui. Estou melhor do que nunca. Quem  a garota que voc trouxe para me visitar?
- Cat, esta  Mama. Ela  a melhor cozinheira aqui da regio.
- Cat? Um nome diferente. Combina com ela. Vou lhe oferecer um almoo inesquecvel, chre.
- Estou contando com isso. - Cat respirou fundo. - O aroma vindo da cozinha est maravilhoso.
- Eu sei - falou Mama, segurando a barriga, enquanto ria. - Leve sua garota para uma mesa, Duncan. Vou preparar a refeio de vocs - avisou e se encaminhou para 
a cozinha.
- No precisamos fazer o pedido? - perguntou Cat, ocupando uma das mesas com ele.
- Sempre como o que ela me oferece. - Duncan sorriu com charme. - Garanto que nunca me arrependi. Voc tambm vai gostar.
Duncan no poderia ter dito algo to certo, concluiu Cat, minutos depois, enquanto comia camaro assado na brasa, uma poro de arroz exoticamente temperado e po 
de milho.
Seu nico comentrio quando Duncan pegou dois camares do prato dele e colocou no seu foi um resmungo de aprovao, j que se encontrava com a boca cheia.
Enquanto bebericava a cerveja, ele observou Cat terminar o almoo. J havia feito aquilo antes, mas sempre parecia divertido v-la se deliciar com a comida. Cat 
parecia ter o mesmo apetite que um pedreiro depois de um dia de trabalho.
- Comendo desse jeito, como consegue no ser to gorda quanto Mama? - perguntou, com ar de riso.
- Hum,  que no me apego a nada, nem a comida - explicou com a boca cheia. - Mas adoro comer.
Duncan sorriu e tomou outro gole de cerveja.
- E melhor deixar um espao para a sobremesa. Mama faz uma torta de nozes imperdvel.
- Torta de nozes? - Cat olhou para a vitrine repleta de doces, ao lado do balco. - Com uma bola de sorvete para acompanhar?
Duncan assentiu, surpreso.
- Sim, se voc quiser.
- Eu quero.
Quando o prato ficou vazio, Cat se encostou  cadeira.
- Oh, que maravilha - disse com um suspiro.
- Nunca deixo de vir visitar Mama quando tenho chance. - Ele se inclinou para frente. - Vem c. Est com um pouco de molho no lbio.
Passou o polegar pelo canto dos lbios dela e deixou-o ali, enquanto a fitava nos olhos. Em silncio, aproximou-se devagar at que seus lbios tocassem os dela. 
Levou a mo ao pescoo delicado, acariciando-lhe os cabelos da nuca com dedos gentis.
Cat sentiu o corao disparar. L estava Duncan Blade tentando enfeiti-la novamente. E o pior era que tinha grandes chances de conseguir.
Em vez dos aromas do almoo recm-terminado, Cat passou a sentir um delicioso perfume de colnia ps-barba. Parecia bom demais para ser verdade.
Mas ainda estava no controle, disse a si mesma, abrindo os lbios. Claro que poderia interromper o beijo quando quisesse. S que ela no queria. Pelo menos por enquanto.
- Duncan! Deixe a garota comer em paz! - ralhou Mama, com um ar brincalho.
Querendo conservar consigo um pouco do sabor dos lbios de Cat, ele os mordiscou, antes de interromper o beijo. Continuou olhando para ela, ao se ajeitar na cadeira.
- Ela quer sorvete junto com a torta de nozes, Mama.
- Ora, e acha que eu j no trouxe?
Rindo, tirou os pratos sujos e colocou a sobremesa diante deles. Ento deu uma piscadela para Cat.
- Ele tem uma boca feita para beijar, no?
- Sim. - Determinada a no suspirar, Cat pegou o garfo de sobremesa. - O beijo dele no  nada mal - acrescentou, provando uma primeira poro da torta. - Hum... 
Mas isso aqui  o que eu realmente chamo de "nada mal". Que delcia!
- Ela tem um timo apetite - afirmou Mama, dando um tapinha no ombro de Duncan. - Seja esperto desta vez e fique com essa.
- Eu deveria apresent-la a meu av - falou ele, quando Mama se afastou. - Eles pensam do mesmo jeito.
- E mesmo?
Cat comeu outro pedao de torta, perguntando-se o que uma simptica cozinheira negra de Nova Orleans poderia ter em comum com o poderoso magnata escocs.
- Sim - confirmou Duncan. - Os dois acham que devo me casar e ter uma poro de filhos. Sempre que os encontro, eles insistem no mesmo assunto.
Cat pegou uma poro do sorvete e outro de torta e ar-queou as sobrancelhas, observando aquele rosto atraente.
- No parece precisar de ajuda nesse assunto, corao.
- Diga isso a eles.
Tomando outro gole de cerveja, decidiu que seria interessante ver a reao de Cat ao saber do mais novo plano do velho MacGregor.
- Meu av a escolheu para mim.
Ela pestanejou. Pela primeira vez, desde que haviam se conhecido, Duncan a viu ficar completamente perdida.
- Hum?
- Meu av. Ele quer que eu me case com voc. Cat riu alto e voltou a se concentrar na torta.
- Conte outra piada.
- Estou falando srio. "A garota tem um olhar preciso, bons antecedentes e principalmente sangue nas veias", disse ele, imitando os trejeitos de Daniel.
- Como ele pode saber? Fui apenas apresentada a ele, nada mais.
- Ficaria espantada se descobrisse quanto ele sabe a seu respeito. Meu av  terrvel. Achei que seria justo inform-la do que ele tem em mente.
Cat tamborilou os dedos sobre a mesa, tentando imaginar se aquilo tudo fazia algum sentido. No, no fazia.
- Voc faz tudo que seu av lhe manda fazer?
- No. Portanto, pode ficar tranqila. Isso no foi uma proposta de casamento. Eu mesmo s descobri o que ele estava tramando quando me telefonou h alguns dias 
para saber "como estavam indo as coisas".
Com um sorriso, Duncan comeou a comer a sobremesa.
- Mas eu o peguei na prpria armadilha - confessou. - Disse a ele que voc estava noiva de um pianista chamado Dabny Pentwhistle.
- Pentwhistle? De onde tirou um nome to horrvel?
- Meu av quis saber o mesmo. E ficou muito desapontado com voc, doura - acrescentou, apontando o garfo para ela. - Ele disse que no entende como pode estar perdendo 
tempo com um pianista com um nome desses. Mas ele no acreditou na histria por muito tempo. Ele  muito esperto. Acabou de arranjar o casamento de meu primo D.C.
- Arranjar o casamento? O que  isso? A Esccia medieval?
-  o cl dos MacGregor - respondeu Duncan, com um sorriso. - O problema  que D.C. e Layna formavam realmente um casal perfeito. Meu av tem um olho clnico para 
esses detalhes. E j fez isso antes, comeando por meus pais.
Cat se perguntou se Duncan iria mesmo comer toda aquela sobremesa.
- Ele arranjou o casamento de seus pais?
- No. Apenas deu um jeito para que eles se conhecessem. O resto foi por conta deles. S que ele tem "trabalhado" com a segunda gerao nos ltimos anos. Pelo visto, 
sou a mais nova vtima.
Cat no estava entendendo muito bem aquela loucura, mas assentiu.
- Mas voc pretende arruinar a mdia de vitrias dele?
- Pretendo levar minha prpria vida, fazendo minhas prprias escolhas. - Duncan tocou a mo dela sobre a mesa. - Porm, tenho de reconhecer que ele tem bom gosto.
- Hum... Curioso. - Cat deu de ombros e terminou a sobremesa. - Tem uma famlia muito estranha, corao.
- Voc no viu nada, minha querida.
Depois do delicioso almoo, voltaram a passear pelas ruas da cidade. Quando o calor se tornava quase insuportvel, entravam em uma loja, fingindo interesse por algum 
produto, apenas para se refrescar no ar-condicionado.
Estavam passando diante de uma doceria quando Cat parou de repente. O modo como ela olhou para uma fileira de bombas de chocolate fez Duncan rir.
- No acredito que j esteja com fome.
- No estou agora, mas vou ficar - avisou ela. - Ento por que no nos prevenirmos?
Cat riu quando ele comprou a bandeja inteira para ela. Gostava de Duncan. Realmente gostava do jeito dele. Todo aquele charme associado ao desejo que ele lhe despertava 
pareciam uma combinao difcil de resistir.
"Prepare-se, garota", avisou a si mesma ao entrarem em outra loja. "No se renda se quiser sair inteira dessa histria."
A loja tinha uma poro de quinquilharias e de jias nas vitrines. Pedras coloridas e cristais se encontravam expostos em delicadas caixas de vidro, ou impeavelmente 
arrumadas em prateleiras tambm de vidro.
Ao fundo, havia trs portinholas cobertas com cortinas. Ali os mais curiosos e, na opinio de Cat, mais ingnuos, podiam se consultar com algum que lia a sorte.
Cat perambulou pela loja, enquanto Duncan examinava uma das caixas de vidro expostas. Ao ouvir um rudo diferente, olhou na direo dele e avistou Duncan apontando 
para um enfeite. Cat balanou a cabea negativamente, indicando que no o queria. Segundo ela notara, Duncan adorava gastar.
Pouco depois, ele tocou-a no ombro. Quando Cat se virou, ele colocou uma delicada corrente de ouro em seu pescoo.
- O que  isso?
Franzindo o cenho, ela examinou o pingente amarelo em forma de um pequeno cilindro. A pedra reluzente era belssima e tinha uma curiosa cor de ch recm-preparado.
- Citrina - disse Duncan, com um sorriso charmoso. - Estimula a comunicao e a projeo da voz.  uma pedra excelente para cantores.
- Tolice - falou Cat, mas sem soltar a pedra. - No acho que acredite mesmo nessas coisas.
- Querida, sou descendente dos celtas e dos comanches.
Sei o que estou falando, pode acreditar. De qualquer maneira, a pedra combina muito com voc, Catherine Mary.
Duncan sentiu uma onda de prazer ao ver o espanto estampado no rosto dela. Porm, este logo cedeu lugar ao embarao e at ao  aborrecimento, segundo ele percebeu.
- Como sabe meu nome completo?
- Algum me contou. Quer ler a sorte?
- Oh, isso  besteira - protestou Cat.
- Ora, no vai doer.
Dizendo isso, Duncan levou-a at o balco e pagou por uma leitura de mos.
- timo. Voc tem mesmo muito dinheiro para gastar - ironizou Cat.
Ela nunca se considerara uma pessoa supersticiosa nem acreditara naquele tipo de adivinhao. Por isso, entrou com indiferena na salinha e sentou-se diante da jovem 
sorridente que lhe tomou a mo. Sabia que ela lhe diria algo sobre fazer uma longa viagem e conhecer um homem maravilhoso.
- Tem uma mo forte - comeou a mulher, sorrindopara ela. - E uma alma velha.
Cat revirou os olhos e fitou Duncan, de p a um canto da salinha.
- J sofreu perdas, decepes e lutou muito na vida.
- Quem no lutou? - replicou Cat, mas a mulher continuou analisando a palma de sua mo.
- Escolheu desde cedo o rumo de sua vida e raramente costuma olhar para trs. Prefere se manter sempre voltada para o futuro. Inclusive com relao s suas paixes 
e ambies. Procura sempre tomar decises com seu lado racional. Acha mesmo que seu corao  invulnervel?
Ao ouvir aquilo, Cat fitou a mulher nos olhos.
- Algum tem um corao que no seja? - indagou ela, com ironia.
- O seu  confivel - afirmou a mulher. - Voc  uma pessoa segura, talentosa. Seu corao a levar aonde voc quer chegar. - Ela franziu o cenho, olhando para o 
rosto de Cat, ao invez de examinar a mo dela. - Voc canta?
Cat sentiu um arrepio que quase a fez recolher a mo. Mas acabou dando de ombros, entendendo a charada.
- Meu amigo aqui deve t-la informado muito bem.
- Pode confiar nele tambm - continuou a mulher, sem dar ateno  ironia de Cat. - Ele tem um corao to seguro quanto o seu, embora tambm seja receoso. Mudanas 
e decises, riscos e recompensas... Tudo depender de voc. No precisa ficar sozinha, a menos que essa seja realmente sua opo de vida. A famlia  um centro para 
voc. Seu referencial, onde quer que voc esteja. Tem muitos caminhos a seguir, com muitas portas abertas pela frente - acrescentou ela, com um sorriso bondoso. 
- Portas que antes estavam fechadas, ou que pareciam estar.
Cat continuou ouvindo, sem desejar dizer mais nada. A mulher continuou examinando a mo dela por mais alguns segundos, antes de voltar a falar.
- No tem medo do trabalho, por mais duro que ele seja, mas espera receber um pagamento justo em troca. E econmica, embora sonhe em um dia no ter de ser. Generosa 
com assuntos e pessoas que considera importantes. S h uma pessoa que preencher devidamente seu corao, e essa pessoa j se encontra em seus pensamentos.
Cat jogou os cabelos para trs, quando os dois saram da loja.
- Aquilo foi muito astuto de sua parte, Duncan. Quanto teve de gastar para conseguir deixar a mulher to bem informada?
- Eu no fiz nada - respondeu ele, mantendo-se muito srio.
Aquilo que a princpio deveria diverti-los por alguns minutos tambm o deixara intrigado.
- Ah, pare com isso! - ralhou Cat, com um gesto de mo.
- No fiz nada mesmo - insistiu ele, enfiando as mos nos bolsos, em vez de segurar a dela, como vinha fazendo at ento. - Sugeri aquilo por impulso, pensando que 
fazer algo diferente iria nos divertir um pouco.
- Espere um pouco.
Cat tocou o ombro dele e estreitou o olhar, observando-o com ateno. Ou Duncan era um timo ator ou ficara mesmo to aturdido quanto ela.
- Bem, aquilo foi estranho - disse a ele.
- Sim, foi.
O caminho de volta ao barco foi feito praticamente em silncio.

15

O Princesa Comanche ficou atracado em Nova Orleans durante dois dias e seguiu viagem na segunda noite. A festa Mardi Gras, feita tradicionalmente para celebrar a 
viagem e saudar os passageiros que costumavam embarcar em Nova Orleans, estava repleta de risos, brindes e msica agradvel.
Enquanto circulava pelo barco, Duncan verificou se estava tudo bem nos deques, cumprimentou os novos passageiros e conversou um pouco com os que haviam permanecido 
para a viagem de uma semana de volta ao norte. Porm, no viu Cat em nenhum momento.
De fato, somente quando no a encontrou, enquanto seguia sua rotina pelo barco, foi que se deu conta de que a estiver procurando.
Seguindo a intuio, foi at a cozinha. Os preparativos para o jantar estavam indo de vento em popa. Em um gesto automtico, pegou um pedao de cenoura fatiada. 
Estava mas-tigando-a quando Charlie o cumprimentou.
- Ei, chefe, no acha que j est meio grandinho para ficar roubando cenouras em cozinhas alheias? - brincou ele.
- Estou apenas de passagem. Como est o peixe que pedi que inclusse no cardpio?
- Est pronto e saboroso. Temperei com alho especial, para dar mais sabor. Quer provar um pedao? A menos que tenha um encontro com alguma dama esta noite, claro. 
Alho no  algo recomendvel antes de um encontro - brincou o cozinheiro, mexendo uma das panelas. - Ouvi dizer que estamos com belas mulheres de Nova Orleans. Um 
grupo de irms,  isso?
- Sim, o grupo Kingston. Quatro lindas loiras - completou Duncan, com uma piscadela e outra mordida na cenoura. - Eu as vi na chegada, Charlie. Por acaso est procurando 
a quarta esposa?
- No haver nenhuma quarta - refutou o cozinheiro. - No vou mais cair na armadilha do casamento.
- J ouvi isso antes. Viu Cat por a?
- Ela tambm passou por aqui ainda h pouco. O apetite da garota  mesmo surpreendente. Entreguei o jantar a ela antes do show, como de costume. Ela gosta de pratos 
apimentados como voc. Tambm separei um pedao de torta de morangos para ela levar para a cabina. Se voc se apressar, acho que ainda a encontrar no caminho.
- Est bem, Charlie. At mais.
Duncan fez meno de se retirar, mas o beep em seu bolso comeou a vibrar. Ao olh-lo, verificou o cdigo. Estavam precisando dele no cassino.
- Cat ter de ficar para mais tarde - disse a si mesmo.
Duncan no conseguiu ter mais nenhum tempo livre at o meio da segunda apresentao de Cat.
Dois de seus melhores empregados estavam passando mal, depois de terem comido pratos com temperos fortes durante o passeio na cidade. Por isso, estavam com falta 
de empregados especializados em lidar com as mesas do cassino.
Duncan ficou algum tempo em uma das mesas, lidando com as apostas e entretendo os passageiros que haviam decidido apostar na sorte. Entre eles, as irms Kingston.
Elas eram mesmo lindas, pensou ele. Bem-humoradas, espirituosas e loirssimas. Em outras circunstncias, estaria mais do que disposto a flertar com quatro lindas 
loiras que o chamavam de "bonito" a todo instante. Porm, seus pensamentos teimavam em ir para longe dali.
Naquele horrio, Cat deveria estar se apresentando com outro daqueles vestidos estonteantes. Sua voz melodiosa estaria preenchendo o salo, deixando iodos encantados. 
Enfeitiados.
Foi ento que se deu conta de que no queria apenas v-la, mas tambm ouvi-la. Gostaria de ficar em uma mesa discreta, no fundo da platia, apenas ouvindo-a cantar.
- Duncan, bonito, no vai me ajudar a ter mais sorte? - insinuou uma das irms Kingston.
A pergunta o trouxe de volta  realidade.
- Bem, no que diz respeito  sorte, no h como receber ajuda.
- Oh. - Ela pareceu lamentar. - Talvez eu s seja boa mesmo em outros tipos de jogo.
"Mensagem recebida", pensou Duncan. Alto e claro. A loira fizera uma insinuao quase direta, mas o que diabos estava acontecendo com ele? Nunca recebera uma insinuao 
de uma bela mulher e no sentira vontade de corresponder ao flerte. De fato, sentiu-se at aliviado quando Glria apareceu para tomar seu lugar.
- Vamos mudar de lder, senhoras - brincou a gerente. O coro de "aah" que recebeu em resposta a fez rir alto.
- Despea-se logo, Duncan, antes que elas no o deixem partir.
- Boa noite, senhoras. Agora  com voc, Glria - disse  gerente.
- Pode deixar, chefe. Pode ir at o salo assistir ao restante do show, se quiser. Sei que seus pensamentos devem ter estado por l durante as ltimas horas.
- Voc  muito perspicaz - afirmou ele, tocando a ponta do nariz dela. - Glria cuidar bem de vocs - disse aos jogadores e se retirou, seguido por quatro pares 
de entristecidos olhos azuis.
- Ele j  comprometido?
Glria arqueou uma sobrancelha, fitando a loira do outro lado da mesa.
- Sim, querida. Mas nem ele mesmo sabe disso. Senhoras, faam suas apostas.
"Porque eu j fiz a minha", pensou, rindo consigo. Duncan entrou discretamente no salo, acostumando-se  luz fraca enquanto a voz de Cat chegava at seus ouvidos. 
Ela cantava algo sobre amar o homem errado, mas havia mais indignao do que tristeza em sua interpretao.
Pretendia ficar no fundo da platia e pedir um conhaque enquanto ouvia Cat cantar. Porm, algo o impeliu a permanecer no mesmo lugar, em um local menos iluminado.
Cat sabia que ele estava ali. Poderia jurar que ela mudara o tom da interpretao depois que ele entrara no salo. Mas qual no foi seu espanto quando Cat o avistou 
mesmo em meio s pessoas e naquele lugar pouco iluminado. O olhar de ambos se encontrou e Cat o sustentou enquanto continuava a cantar. Duncan franziu o cenho. Era 
como se a cano contasse a histria dos dois, saindo com emoo dos lbios de Cat e batendo contra sua pele feito uma brisa gelada.
Somente quando os aplausos ecoaram pelo salo foi que Cat se deu conta de que deveria interromper aquela espcie de ligao que fizera com Duncan. Seus olhares se 
sustentaram por mais alguns segundos, at que ela abaixou o microfone e sorriu para a platia, agradecendo pela ovao. Precisava se concentrar em seu pblico e 
no no perigoso Duncan Blade. Afinal, estava ali para entreter os passageiros.
Somente quando Cat comeou a conversar com as pessoas da platia foi que Duncan descobriu que ainda estava contendo o flego. Com charme, ela pediu que iluminassem 
um casal sentado a uma mesa da frente e que estava celebrando as bodas de prata. Fez algumas piadinhas suficientes para fazer todos carem na risada, antes de comear 
a cantar uma msica em homenagem ao casal.
No meio da cano, desceu do palco e tocou o rosto e os cabelos do homem. Quando ele j estava suficientemente enrubescido, sentou no colo dele, fazendo todos carem 
na gargalhada.
Duncan tambm no conseguiu deixar de rir. Cat era mesmo muito boa no que fazia. Tinha o poder de fazer os homens se ajoelharem aos ps dela e ficarem assim at 
que ela se cansasse deles.
E era justamente isso o que estava fazendo com ele. A nica diferena era que ele tambm pretendia fazer o mesmo com ela.
Encostando-se na parede, continuou assistindo  apresentao at o final.
Quando estava prestes a se retirar do palco, Cat se surpreendeu ao ver Duncan de p no corredor que ia dar no camarim, fitando-a com olhar penetrante. Para sair 
dali, teria de passar por ele.
Entretanto, a conscincia de haver ficado surpresa deixou-a ainda mais determinada a no demonstrar quanto  presena dele a afetara.
- No costuma ficar por tanto tempo - disse, abrindo a garrafa de gua que sempre mantinha prxima do palco. - Resolveu verificar se estou trabalhando direito?
- Eu queria v-la.
Duncan disse apenas aquilo porque era a verdade, e porque sabia que iria afet-la.
- Bem... Agora j viu.
Cat fez meno de seguir em frente, mas parou quando ele lhe segurou o pulso.
- Vamos l para fora.
- No, obrigada. Preciso trocar de roupa.
- No, no precisa. Gosto de v-la usando esses vestidos provocantes.
Cat estava trajando um vestido preto com um generoso decote na frente e outro nas costas.
- Estou cansada, Duncan.
- No, no est.
Ele podia sentir a energia emanando de Cat. Energia intensa o suficiente para incendi-lo de desejo. Fitando-a nos olhos, levou a mo dela aos lbios.
- O clima est agradvel nos deques e temos uma bela lua cheia. Venha caminhar um pouco comigo. Prometo no toc-la a menos que voc queira.
Aquilo era sinal de complicao, pensou Cat. Sim, porque ela queria que Duncan a tocasse. Pensando bem, talvez houvesse chegado o momento de agir de forma diferente.
- Est bem, vamos caminhar um pouco. Ser bom respirar ar fresco. O salo ficou muito lotado esta noite.
Passaram por entre as mesas at chegarem ao lado de fora.
- Aposto que ofereceu o "Feliz bodas de prata, garoto!" mais interessante da vida daquele passageiro - brincou Duncan, fazendo-a rir alto.
Jogando os cabelos para trs, Cat respirou fundo, sentindo o refrescante ar da noite.
- Eu e a esposa dele combinamos tudo antes do show. Ela me deu cinqenta dlares pela encenao.
- Se queria pregar uma pea nele, ela deve ter achado que o pagamento foi mais do que justo. Vamos para o deque superior - sugeriu ele. - Assim ficaremos mais perto 
da lua.
- Fiquei sabendo que as irms Kingston esto louquinhas por voc - falou Cat, enquanto subiam a escada.
- Esto?
- Elas estavam conversando no deque principal e, por acaso, ouvi o que disseram. Alis, tudo que elas fizeram foi dar risinhos e suspirar por sua causa.
- Nada melhor para um homem do que fazer as mulheres rirem e suspirarem por ele.
Duncan subiu com facilidade at o terceiro deque, dando graas por encontr-lo vazio.
- Aposto que sim - anuiu Cat, aproximando-se do gradil e se apoiando nele. - Puxa, essa vista  espetacular. Realmente incrvel. Adoro olhar o rio  noite.
- Este  meu lugar preferido - confessou Duncan. - Estava esperando por uma oportunidade de traz-la at aqui para ficar um pouco comigo  noite. - Devagar, virou-a 
de frente para ele.
- No  exatamente aqui que voc quer me ver, Duncan.
- Bem, digamos que esse  um dos muitos lugares. Ele deslizou as mos pelos braos dela, mas no fez meno de pux-la para si.
- Voc cantou para mim - sussurrou ele. O corao de Cat acelerou, deixando-a alerta.
- Canto para todos que estejam assistindo ao show. Esse  meu trabalho.
- Voc cantou para mim - repetiu ele, com o mesmo tom calmo e controlado. - Aquilo me fez desej-la tanto que todo meu corpo esquentou. - Deslizou os dedos pelos 
ombros dela, at alcanar-lhe o pescoo delicado. - E me fez ver quanto voc tambm me deseja.
Duncan inclinou a cabea at que seus lbios ficassem a centmetros dos dela.
- Mas ter de me pedir, j que prometi que no faria nada sem que voc tambm quisesse.
- Sempre mantm sua palavra, Duncan?
- Sim.
- E eu nunca peo - declarou Cat.
Levando as mos aos cabelos dele, puxou-o para si e o beijou. Duncan sabia que naquele momento ela poderia faz-lo se ajoelhar aos ps dela se quisesse. Mas, para 
seu espanto, isso no o perturbou.
Os lbios de Cat eram como uma chama de luxria, invadindo seu ser e fazendo-o desejar mais, muito mais. Sabia que, se no se controlasse, despiria Cat ali mesmo 
e faria amor com ela a cu aberto. Por isso, interrompeu o beijo e segurou-a pelos ombros.
- Minha cabina est logo atrs de ns.
Cat olhou para trs e deixou que um sorriso insinuante curvasse seus lbios. O desejo era algo que sempre a levava a agir feito uma adolescente curiosa em descobrir 
o amor.
- Eu sei - disse a ele.
Duncan segurou a mo dela, levando-a consigo. Ento circundou-a, enfiando uma mo no bolso para pegar a chave. Depois de abrir a porta, olhou para ela, em um convite 
silencioso.
Cat hesitou. Mas apenas por uma frao de segundo.
Duncan havia deixado a luz do abajur acesa e a janela aberta, recebendo a luz prateada do luar. Embora estivesse sentindo o corao bater com fora, Cat andou pelo 
aposento, fingindo interesse pelos detalhes.
Viu uma mesinha com vrios porta-retratos, cadeiras con-fortavelmente estofadas em azul, uma cmoda e uma pequena estante repleta de livros e com mais alguns porta-retratos.
A cama ocupava boa parte do espao, e parecia to convidativa quanto o sorriso de Duncan naquele momento, pensou Cat.
- Bonito lugar.
Olhando por cima do ombro, ficou surpresa e encantada ao mesmo tempo quando viu Duncan acender as velas azuis de um candelabro.
- Voc  mesmo do tipo romntico, no? - perguntou a ele.
Ele apagou o fsforo e em seguida a luz do abajur. Os dois ficaram em meio  penumbra da luz das velas e do luar.
- Tem algum problema com isso? - questionou Duncan.
- No. Acho que no.
Entretanto, aquilo a deixou um pouco receosa. Tentando disfarar o nervosismo, levou a mo s costas, preparando-se para abrir o zper do vestido.
- No.
Duncan deu um passo a frente. Com delicadeza, deslizou o dedo desde a base do pescoo dela at o incio do decote.
- Eu quero despi-la.
Cat deixou os braos cados ao lado do corpo.
- E o que est esperando?
- Nada. - Ele beijou-a na curva sensvel do pescoo. - Nada mesmo. Hum... Esse perfume  provocante demais.
Cat se esforou para pensar com clareza.
- Ganhei-o de voc, esqueceu? Duncan riu.
- Acho que acertei em cheio.
Por mais que Cat estivesse se esforando para controlar a respirao, ela estava ficando cada vez mais alterada.
- J o sentiu em mim antes - disse a ele, fechando os olhos quando Duncan lhe mordiscou a orelha.
-  distncia em que eu estava no foi suficiente para sentir que era to bom. - Roando os lbios nos dela, ele perguntou: - Deseja que eu diga o que quero fazer 
com voc ou prefere a surpresa?
"Oh, meu Deus", foi tudo que ela conseguiu pensar.
- No me surpreendo facilmente.
- Ento vejamos o que posso fazer a esse respeito... Duncan mordiscou os lbios dela de forma provocante uma, duas, trs vezes. At separ-los com a lngua, iniciando 
uma dana sensual que fez Cat estremecer.
Ela nunca havia sido beijada daquela maneira. Nenhum homem passara tanto tempo provocando-a e com tanta pacincia. Quando Duncan levou as mos ao zper de seu vestido, 
ela sentiu um delicioso arrepio de expectativa.
Porm, ele apenas insinuou as mos pelo vo, acariciando as costas dela com sensualidade. Era como se quisesse sentir cada centmetro do corpo dela, tornando aquela 
primeira vez muito especial.
A torturante antecipao foi deixando-a cada vez mais envolvida pela onda do desejo. Tanto que Cat ficou aliviada quando Duncan finalmente fez o vestido deslizar 
por sobre seus ombros e ir parar no cho.
Com a mesma pacincia, ele traou com o dedo o contorno do suti preto de renda.
- Incrvel... - sussurrou, descendo a mo devagar at alcanar a parte de baixo da lingerie. - Sim, incrvel...
- Vejamos se posso dizer o mesmo.
Esforando-se para disfarar o tremor das mos, Cat ajudou-o a se livrar da jaqueta e desabotoou-lhe a camisa. A luz das velas refletida sobre aquela pele bronzeada 
lembrou a ela uma esttua de bronze de um deus grego.
Umedecendo os lbios, antes de levantar a vista, falou:
- Sim, incrvel. Incrvel...
De sbito, Duncan levantou-a nos braos.
- Prometo que vai ficar ainda melhor.

16

Cat esperava beijos trridos, mos impacientes, e at agradeceria por isso. Mas quando Duncan deitou-a na cama e se posicionou acima dela, suas mos no demonstraram 
urgncia. Apenas o desejo de oferecer prazer.
Duncan curvou os lbios quando ela gemeu, arqueando o corpo de encontro ao dele. Deixando-se levar por um impulso, acariciou-a das formas mais ousadas, cumprindo 
a promessa de surpreend-la. E os gemidos entrecortados de Cat denunciaram que ele estava tendo sucesso.
Deixando uma trilha de beijos e de carcias provocantes pelo corpo dela, Duncan foi se mostrando um amante mais do que generoso. E isso tambm deixou Cat surpresa.
Desesperada por mais, enlaou os braos em torno dele e puxou-o para si. Ento insinuou o corpo sob o dele, indicando o que queria.
- Venha, Duncan. Agora.
Um brilho diferente surgiu nos olhos dele. Cat estava linda com os cabelos espalhados pelo travesseiro e o olhar turvo de desejo. Queria que ela fosse sua mais do 
que qualquer coisa no mundo. E seu desejo tambm no podia esperar.
- Olhe para mim, Cat.
Quando ela obedeceu, ele finalmente a possuiu. Mantendo o olhar no dela, deliciou-se ao ver os olhos verdes se estreitarem um pouco enquanto um leve gemido escapou-lhe 
por entre os lbios. Sem esperar por ele, Cat comeou a se mover, levada pelo ritmo cada vez mais intenso do desejo e da nsia de saci-lo.
Duncan se uniu a ela naquela dana frentica, at sentir o clmax arrebatar Cat em um longo estremecimento marcado por um gemido mais intenso.
Cat era sua afinal. A partir dali, ele tambm estava pronto para se entregar, e foi o que fez, deixando-se levar pelo estremecimento de prazer que tambm o arrebatou 
e o fez pertencer a Cat.
Bem, estava feito, pensou Cat, quando sua mente e seu corao voltaram ao ritmo normal. Todas as boas intenes e os conselhos que dera a si mesma haviam sido atirados 
pela janela e jogados no rio.
Um ponto de vantagem para Duncan, concluiu. No apenas entregara seu corpo, mas em algum ponto, ao longo do caminho, tambm deixara com ele boa parte de seu corao.
Sabia muito bem o que aconteceria dali em diante. Duncan havia conseguido o que queria. Haviam tido um caso, ainda que breve e muito discreto. Afinal, ele era o 
chefe e no podia se arriscar ser motivo de fofoca entre os tripulantes.
Quando seu contrato terminasse, Duncan a descartaria da vida dele, provavelmente dando-lhe algum presente de bom gosto para marcar a despedida. Ento seria o fim 
da histria.
Homens como Duncan Blade no faziam planos a longo prazo para cantoras itinerantes. Portanto, seria melhor se preparar porque, quando chegasse o momento certo, seria 
melhor partir antes que ele tivesse a chance de mand-la embora.
Determinada a seguir as regras daquele jogo em particular, deslizou a mo pelas costas de Duncan e se espreguiou.
- Hum... Incrvel, Duncan Blade. Incrvel. Ele tambm se espreguiou.
- Estou me sentindo feito um gato de desenho.
- O qu? - Cat se surpreendeu.
- Sim, aqueles gatos de desenhos animados que so atingidos por uma martelada e que ficam vendo uma poro de estrelas. E assim que estou me sentindo.
Ela riu alto e estava prestes a abra-lo quando lembrou a si mesma que seria melhor agir com mais cautela.
- O que acontece quando ele pra de ver estrelas?
- Oh, ento acontece tudo de novo...
Dizendo isso, Duncan puxou-a para si e beijou-a longamente. Quando ela comeou a se render mais uma vez, ele abraou-a e a manteve bem junto de si.
- Gosta de assistir desenhos? - perguntou Cat, fingindo que o gesto dele no a afetara.
Duncan assentiu.
- E bom para relaxar. Quem consegue pensar nas preocupaes assistindo Tom e Jerryl
- Tico e Teco... - acrescentou ela.
- Quem diria que a sofisticada Cat Farrell  f de Tico e Teco?
- Ei,  preciso ser muito sensvel para gostar dos desenhos da Disney! - protestou ela.
Ali estava outra ligao, pensou Duncan, ainda que em outro nvel.
- Minha prima, Cybl, e eu costumamos ter longas conversas sobre desenhos. Ela  desenhista - disse ele.
- E mesmo?
- Hum-hum. E muito talentosa.
Duncan deitou-a sobre ele, at que seus corpos ficassem moldados um ao outro.
- Quer ter uma longa conversa sobre um assunto bem mais interessante? - insinuou ele.
- Acho que no seria nada mal - respondeu Cat, sentindo o corao acelerar.
Roando o corpo sobre o dele com sensualidade, mordis-cou-lhe o queixo.
- Pronto para receber outra martelada? - brincou.
- Mais do que voc imagina. - Aps uma breve pausa, ele acrescentou: - Traga suas coisas para c.
- Hum-hum. O qu?! - Cat se afastou com um sobressalto.
- Sua bagagem - explicou Duncan. - Traga tudo para c.
- Ei, sobre o que est falando? - Ela se sentou.
- Quero passar mais tempo a seu lado. Ento, para que ficar dois deques abaixo do meu?
Sentando-se, Duncan comeou a acariciar o ombro dela.
- Para manter a discrio. Se eu me mudar para c, a tripulao e os passageiros vo logo perceber. O barco no  to grande assim.
- E da?
Duncan virou-a de frente para ele e acariciou um seio de Cat quando o lenol caiu e foi parar na cintura dela.
- Somos adultos, Cat. J passamos da fase de ter de na
morar escondido dos pais. Quero que venha para c.
"Pense rpido!", ela ordenou a si mesma, sabendo que seu maior desejo no momento era aceitar a proposta.
- Voc tem uma cama bem maior, uma belssima vista, mos muito experientes... - acrescentou com um leve gemido. - Mas se eu aceitar me mudar para c, a cabina de 
baixo ter de continuar sendo minha. No quero que a alugue para mais ningum.
Duncan fitou-a nos olhos.
- Quer ter uma rota de fuga,  isso?
- Ser melhor assim, corao. Se algum de ns decidir pr um ponto final na histria, voltarei para l e pronto. Nada de mgoas nem de ressentimentos, certo?
Ele hesitou por um instante.
- Est bem - disse por fim.
Ento puxou-a para si e amou-a mais uma vez.
Nenhum dos dois quis pr um ponto final no relacionamento. Cat esperava que isso fosse acontecer, pelo menos por parte de Duncan. Porm, quanto mais tempo passavam 
juntos, mais sentiam falta da companhia um do outro quando estavam separados.
Cat tentou se convencer de que se tratava apenas de atrao fsica, j que o desejo de ambos parecia insacivel.
Quando estavam em Natchez, Duncan a surpreendeu com uma reserva em um luxuoso hotel da cidade. Chegando l, passaram boa parte da noite fazendo amor na enorme banheira 
de hidromassagem.
Na noite seguinte, ambos se surpreenderam com o mpeto com que fizeram amor encostados  porta do camarim de Cat, minutos antes do show. Tanto que a voz dela se 
manteve um pouco trmula durante toda a primeira apresentao.
Duncan continuou presenteando-a com flores e com presentes sem muita importncia. Cat no conseguia entender por que ele mantinha aquele hbito. Afinal, ela j pertencia 
a ele e no havia motivo para Duncan ficar se preocupando com detalhes para conquist-la.
De fato, j fazia trs semanas que os dois haviam se tornado amantes, pensou ela, aninhando-se na cama que ela j considerava to sua quanto de Duncan.
Haviam navegado de um extremo a outro do rio, estavam voltando com novos passageiros e, no entanto, a ligao entre eles continuava mais intensa do que nunca. E 
ela no tinha a mnima idia do que fazer a respeito daquilo.
"Aproveite o momento, Cat", era o que dizia a si mesma sempre que comeava a pensar nisso.
Espreguiando-se, pensou se no seria melhor dormir um pouco mais. Estavam atracados em Saint Louis e Duncan estava no porto, cuidando de assuntos profissionais, 
como sempre, quela hora da manh.
Ela teria o dia inteiro de folga e no estava com a mnima vontade de ir at a cidade. A tarde, trabalharia na gravao da fita que Duncan lhe pedira, embora no 
estivesse muito convencida de que ele realmente estivesse com inteno de fazer algo quele respeito.
Ainda assim, decidira cuidar de sua prpria carreira e despedira Ccero. Preferiria trabalhar sozinha a ter um empresrio que mais a atrapalhava do que ajudava.
No entanto, seria melhor procurar outro agente. O salrio que estava ganhando pelo trabalho no Princesa Comanche lhe permitiria contratar algum mais competente, 
que pudesse escolher os locais de suas apresentaes com mais profissionalismo.
No pretendia voltar a se apresentar nas espeluncas onde j tivera de cantar para ganhar alguns trocados. O sacrifcio no valia a pena. No depois de todo o desgaste 
que aquilo lhe provocava.
Estava tendo a chance de desfrutar um pouco da boa vida e gostara da experincia. De fato, nunca se sentira to bem em toda sua vida, pensou, espreguiando-se novamente 
e leva ntando-se ao perceber que no voltaria a dormir.
Aps se vestir, saiu para o deque, estreitando os olhos quando a luz intensa do sol atingiu-a em cheio. Colocando os culos escuros, seguiu em frente. O calor estava 
muito intenso mesmo quela hora da manh. A luz do sol se refletia nas guas do rio, fazendo-o parecer uma estrada repleta de contas brilhantes.
Aproveitando que a maioria dos passageiros ainda se encontrava dormindo ou desfrutando o ar-condicionado das cabinas, resolveu fazer uma pequena caminhada antes 
do desjejum.
s vezes, quando estava andando sozinha pelo barco, como naquele momento, gostava de imaginar que ele era seu. Antes de comear aquele trabalho, no tinha idia 
de que acabaria gostando tanto de navegar pelo rio Mississippi. Sabia que sentiria falta de tudo aquilo quando seu contrato terminasse.
Mas nada durava para sempre, lembrou a si mesma. Por isso, devia aproveitar ao mximo cada momento. Assim, pelo menos lhe restariam as boas lembranas.
Estava virando um corredor quando parou de repente, ao avistar Duncan no deque, abraado a uma bela loira.
Estreitando o olhar, cravou as unhas na palma das mos. Ningum traa Cat Farrell. Ningum!
Sentiu vontade de ir at l e de dizer boas verdades aos dois. O nico detalhe que a conteve foi seu orgulho prprio. No daria a Duncan o prazer de saber quanto 
a magoara. Por isso, respirou fundo e seguiu em direo a eles, como se no estivesse dando a mnima para o que acabara de ver.
- Bom dia, seu traidor.
O sorriso que Duncan mostrara ao v-la desapareceu de repente.
- Hum?
- Quem diabos pensa que ?
O orgulho prprio acabou no sendo to forte assim. Alm disso, ela sentiu uma onda de triunfo ao empurr-lo pelo peito.
- Acha que pode acabar de dormir comigo e ir logo abraando uma mulher com idade para ser sua...
- Minha me - completou ele, segurando a mo com a qual ela estava prestes a esbofete-lo. - Mame, essa  Cat Farrell. Aquela sobre quem eu estava lhe falando.
"E sobre quem escondeu certos detalhes", pensou Serena. Mesmo assim, estendeu a mo para Cat com um sorriso amvel.
- Como vai, Cat?
Boquiaberta e sentindo o rosto esquentar, Cat aceitou o cumprimento. Acertaria algumas contas com Duncan depois.
- Peo mil desculpas pelo que disse, sra. Blade.
- Oh, por favor, no se preocupe com isso. - Serena riu. - Todo mundo est sujeito a cometer enganos.
O comentrio deixou Cat mais  vontade. A me de Duncan era adorvel e no havia como no se sentir relaxada na presena dela. Embora ela houvesse dito aquilo por 
desaforo, Serena no parecia madura o suficiente para ter um filho da idade de Duncan. No com aqueles invejveis cabelos loiros e os olhos de um extico tom de 
lils. A roupa de seda es-voaante a tornava ainda mais elegante e sua pele rosada parecia to saudvel quanto a de uma mulher de trinta anos.
- Agora vejo quanto me enganei - disse Cat. - A senhora realmente no parece ter idade para ser me de Duncan.  muito jovem e bonita.
- J gostei dela - gracejou Serena olhando para o filho. - Duncan no estava esperando receber nossa visita - explicou a Cat. - O pai dele e eu decidimos pegar o 
barco no meio do trajeto e descansar um pouco, antes de irmos para o oeste. Temos de resolver alguns negcios em Las Vegas.
- E isso no  tudo - acrescentou Duncan, parecendo estar se divertindo com as reaes de Cat. - Meus avs tambm esto aqui. Viajaro conosco at chegarmos novamente 
a Nova Orleans.
"Maravilhoso", pensou Cat, com ironia.
- Que bom - foi tudo que conseguiu dizer. - Bem, se me derem licena, preciso... - interrompeu-se quando um homem se aproximou deles.
Era alto e tinha a pele bronzeada. Um elegante par de culos escuros ocultava uma parte do rosto que parecia ser enigmtico, embora emanasse uma aura de simpatia. 
Alguns fios prateados se misturavam aos cabelos muito negros.
Categoria foi a primeira palavra que surgiu na mente de Cat, ao v-lo. Em seu prprio tempo, aquele homem deveria ter sido o campeo dos arrasadores de coraes 
femininos, pensou ela.
- Justin, querido... - Serena estendeu a mo para ele.- Venha conhecer Cat Farrell, a cantora sobre quem Duncan nos falou.
Ento aquele era o pai de Duncan. Bem, no era de admirar que o filho dele fosse um dos homens mais atraentes que ela j lia via conhecido. Vinha de uma famlia 
geneticamente privilegiada.
- E um prazer - disse ele, segurando a mo dela com firmeza. - Tanto Mac quanto Duncan falaram sobre seu talento. Espero que aceite fazer uma temporada no Comanche 
Atlantic City.
Cat no tinha a mnima idia do que ele estava falando, mas aceitou de imediato.
- Oh, ser um prazer, Sr. Blade.
Deus, precisava dar um jeito de sair dali antes que acabasse dando outro vexame.
- Com licena, mas tenho um trabalho para fazer. Espero que voltemos a nos ver antes de partirem.
- Pode ter certeza disso - respondeu Serena quando ela se afastou.
- Vamos entrar antes que acabemos derretendo sob esse sol - sugeriu Duncan. - Quero me certificar de que vov e vov j esto se acomodando. Tambm preciso pegar 
os papis que voc quer examinar, papai. - Tomou a mo da me. - Depois lhe contarei mais detalhes sobre o que est querendo saber, Sra. Blade - avisou, entendendo 
o olhar de curiosidade com o qual Serena passara a olh-lo desde que Cat se retirara.
- Melhor assim - aprovou ela.
Uma hora depois, Serena interrompeu um gole de seu ch gelado e caiu na gargalhada.
- Ele fez isso? - perguntou a Duncan. - Colocou vocs dois juntos do mesmo jeito que fez comigo e com seu pai no passado?
- Mais ou menos - respondeu ele. - E o pior  que acho que terei de agradecer a ele por isso.
- No, por favor - pediu Justin, levantando a mo. - Voc criaria um monstro.
- Bem, no posso deixar de admitir que ele tem muito bom gosto - Duncan afirmou. - Ela  sensacional. - Sentado atrs da mesa de seu escritrio, encostou-se na cadeira. 
- Profissionalmente falando, ela  impecvel. E um milagre que ainda no tenha gravado um disco e no esteja no topo das paradas. Acho que tudo isso  culpa do empresrio 
incompetente que ela tinha antes. Mas ns daremos um jeito nisso.
- Ns? - indagou Serena.
- Nossa famlia tem contatos - ele disse simplesmente. - E pretendo us-los. Sei que Cat nasceu em um meio pobre e que cresceu sem muita instruo, mas no h motivo 
para no chegar ao topo com uma voz maravilhosa como a dela. Esse  o aspecto profissional do trabalho. Quanto ao pessoal, ainda no tenho muita certeza de nada. 
Cat  uma pessoa...
incomum, e nunca senti pccJtoingum o que sinto por ela.
Franzindo o cenho, pegoiMim papenimbrado com o smbolo do cl dos MacGregor e en-egoi>Oy secr-pai. Os sentimentos eram o principal assunto no momento, pensou ele. 
Cat o afetara de uma maneira que ele nunca esperara ser possvel.
- Talvez o fato de ela no ser como ningum que conheci  que faa com que eu a veja de um modo especial - continuou. - Vou estender o contrato por mais seis semanas 
para nos dar chance de nos conhecermos melhor. Do ponto de vista profissional,  uma tima deciso. Ela tem o dom de cativar o pblico. Pessoalmente, porm, ainda 
no sei.
"Parte de voc j sabe, meu filho", pensou Serena, reconhecendo aquele brilho diferente nos olhos dele. Tocando a mo de Justin, observou o rosto do filho por mais 
algum tempo. Dali em diante, tudo que Duncan precisaria fazer seria sintonizar a mente ao mesmo que seu corao estava sentindo.
Ela no teria muito tempo, Serena pensou consigo, ao se afastar da famlia por alguns minutos para ir procurar Cat.
Queria ter uma idia mais precisa de quem era a jovem que se apoderara do corao de seu filho. Embora houvesse conseguido saber alguns detalhes por meio de seu 
pai, enquanto o censurava por estar interferindo na vida de Duncan, precisava saber mais.
Quem era Cat FarrelI? Seria o corao dela generoso o suficiente para abrigar o amor de seu filho?
Sorriu consigo ao chegar  porta do salo de apresentaes. Para no acabar sendo direta demais, decidiu seguir o exemplo de seu pai e tramar uma aproximao mais 
sutil.
Abrindo a porta do salo, parou de repente. Parou e apurou os ouvidos.
Cat estava sentada ao piano, a um canto do palco. Ela tocava bem. No chegava a ser uma exmia pianista, mas tinha estilo suficiente para criar uma atmosfera musical 
adequada para sua voz. Deus, e que voz. Cat cantava no apenas com a garganta mas com o corao.
Quando ela terminou de cantar, Serena flagrou-se com os olhos marejados de lgrimas.
- Parece jovem demais para ter uma voz e uma interpretao to maduras - disse, aproximando-se com um sorriso. Quando Cat se virou para olh-la, completou: - Voc 
canta muito bem.
Esforando-se para no parecer embaraada com os elogios, Cat virou-se na banqueta.
- Gosto de cantar, e acho que isso  fundamental.
- Sem dvida. E com sua voz isso se torna um verdadeiro presente divino. Chorei enquanto a ouvia cantar.
- Oh, esse  o mais tocante dos elogios - confessou Cat. - Obrigada.
- Sei que estou interrompendo seu trabalho - afirmou Serena, mas mesmo assim subiu ao palco para ir se sentar na banqueta do piano, ao lado de Cat. - Vim convid-la 
para se unir a ns no jantar desta noite.
- Mas  um evento em famlia, no ?
Cat no entendia nada sobre tradies familiares, mas sabia muito bem o que era se sentir "uma estranha no ninho".
- Gostaramos muito que viesse - insistiu Serena. - Eu soube que j conheceu meu pai.
- Sim, fui apresentada a ele quando estava em Las Vegas. Ele  um homem muito impressionante.
- Sim,  mesmo. - Serena sorriu. - Ele ficou encantado por voc.
Mesmo surpresa, Cat assentiu e falou:
- Duncan deve ter contado que foi ele quem me indicou para este trabalho, no?
- Sim, para atender aos propsitos dele. Meu pai  assim mesmo. Est no sangue e ele no consegue evitar - explicou, com um sorriso gentil. - Espero que no se sinta 
ofendida.
- No. Apenas surpresa.
-  mesmo? E por qu? - Serena quis saber.
- No esperava que ele fosse se interessar em me considerar uma pretendente adequada para o neto dele - Cat foi direto ao assunto.
- Bem, se ele estivesse aqui com certeza diria: "imagine!" Garanto que ele est procurando algum com fora de carter e determinao. Voc tem ambas as coisas. 
Alm disso,  sensvel e tem admirao pelo senso de famlia.
Cat arqueou as sobrancelhas.
- Mal completei o colegial, Sra. Blade. Desde aquela poca, meu nico propsito tem sido ganhar o suficiente para no passar fome. A nica pessoa que tenho como 
famlia  minha me, por quem sinto muito carinho.
- Sobre isso, meu pai diria: "Cat Farrell tem brio". No h como faz-lo mudar de idia quando ele toma uma deciso.
Cat olhou para as prprias mos e em seguida para as de Serena. A me de Duncan tinha as mos de uma verdadeira dama. Assim como o rosto, a educao... Comeou a 
deduzir o que estava acontecendo.
- J entendi - disse. - A senhora quer que eu v embora antes que Duncan comece a achar que o av dele fez uma boa escolha?
Serena estava dedilhando as teclas do piano mas parou de repente e olhou para Cat.
- O que a fez pensar isso?
- Est bvio demais - respondeu Cat. - Sei muito bem qual  o meu lugar e de onde venho. Meu pai era um homem comum que teve a infelicidade de morrer antes de completar 
trinta anos de idade. Minha me  uma garonete que nunca teve a chance de ser outra coisa na vida. E eu canto para sobreviver. Seu pai pode estar velho e sentimental, 
mas no a senhora.
- Entendo. - Serena tornou-se pensativa. - Se eu lhe oferecesse... digamos... dez mil dlares para voc ir embora, o que diria?
Um brilho de indignao surgiu nos olhos verdes de Cat.
- Eu a mandaria para o inferno, Sra. Blade.
Para seu total espanto, Serena inclinou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.
- Oh, eu sabia que iria gostar de voc. Soube disso desde o momento em que apareceu no deque e desafiou Duncan daquela maneira. Cat, j que no me conhece, no ficarei 
ofendida se me considerar uma esnobe, mais interessada em etiqueta do que na felicidade de meu filho, porm... - Ela parou um instante, tornando-se muito sria. 
- Voc deveria ter mais auto-estima do que quer aparentar ter.
- No estou entendendo o que a senhora est querendo dizer.
- Estou dizendo que a nica pessoa que a est considerando pouco interessante e atraente  voc mesma. - Com gentileza, pousou a mo sobre a de Cat. - Eu amo meu 
filho. Ele  um belo rapaz em todos os sentidos. Como eu poderia no me sentir feliz por saber que voc tambm o ama?
- Eu no disse que amo Duncan. - Cat endireitou o corpo, como que tomada por uma onda de apreenso. - Eu no disse isso.
- No, no disse - confirmou Serena, com outro sorriso gentil. - Mas se algum dia descobrir que o ama, eu ficaria feliz por ele. Agora vou deix-la voltar ao trabalho. 
- Ficou de p com elegncia. - Pense sobre o jantar, est bem?
Serena estava quase passando pela porta quando Cat a chamou:
- Sra. Blade?
- Sim?
- Quando vi tudo isso... - ela fez um gesto, indicando o ambiente em torno de si - ...imaginei que Duncan fosse uma pessoa de sorte. Mas agora me dou conta de que 
ainda no tinha visto nada.
Serena sorriu, apreciando o comentrio.
- Gostei mesmo de voc, Cat - disse e saiu, parecendo mais do que satisfeita.

17

Cat no esperava se apaixonar durante uma viagem de seis semanas pelo rio Mississippi. Tampouco tinha idia de que iria se sentir assim por um homem na casa dos 
noventa anos. Mas foi exatamente isso o que aconteceu: apaixonou-se por Daniel MacGregor.
Ele era direto em tudo que fazia e dizia, lembrando muito seu prprio jeito de ser. Tambm era temperamental, e Cat sempre gostara de trocar desafios com algum 
com sangue quente como ela.
For outro lado, o velho MacGregor no passava de um sentimental corn uma queda pelo lado romntico da vida. E, para ela, a combinao parecia simplesmente irresistvel.
Entretanto, no teve a mesma certeza quanto ao temperamento de Anna MacGregor. A av de Duncan parecia emanar dignidade, serenidade e uma fora de carter que no 
combinava muito com aquela aparncia frgil. Aquela fora era algo que no podia ser ensinado, Cat concluiu. A pessoa j nascia com ela ou no.
Serena herdara aquele mesmo aspecto da me. Imaginou que todas as mulheres da famlia houvessem herdado, incluindo as que haviam entrado para o cl por causa do 
casamento.
Bem, ela prpria nunca seria uma lady, nem desejava ser. Tambm no linha a menor inteno de se casar. Gostava de ser livre e independente e pretendia continuar 
assim.
No entanto, seria bom se pudesse se encontrar com Daniel MacGregor de vez em quando para trocar algumas farpas com ele.
- No conhece nem sequer uma balada escocesa? Que espcie de cantora  voc afinal?
- Uma cantora normal, sr. MacGregor.
Com freqncia, Daniel ocupava uma das mesas quando o salo se encontrava vazio. Dava sempre um jeito de criticar o repertrio de Cat, dizendo que ela deveria cantar 
mais msicas do repertrio celta.
- Isso significa que no consegue cantar nada diferente?- Ele arqueou as sobrancelhas grisalhas. - Ora, pois fique sabendo que existem algumas canes escocesas 
capazes de fazer o mais macho dos homens chorar feito criana! - Aps uma pausa, acrescentou: - Com essa sua voz, qualquer homem com sangue escocs nas veias est 
propenso a se apai
xonar por voc.
Deliberadamente, Cat passou a mo pelos cabelos.
- Todos se apaixonam por mim de uma maneira ou de outra.
Daniel riu alto.
-  uma jovem insolente, Cat Farrell, mas gosto do seu jeito. Por que diabos no est tentando fisgar meu neto?
Tratava-se de uma pergunta perigosa, e Cat preferiu sair pela tangente.
- Porque j estou tentando fisgar o av dele. Afinal, porque pegar um peixe pequeno se posso ter acesso a um tubaro?
Daniel pareceu mais do que satisfeito em ouvir aquilo. Cocou a barba grisalha, fitando-a com um brilho diferente no olhar.
- Ele lhe dar lindos bebs.
- Dar ao senhor,  o que quer dizer - retrucou ela. - J entendi o que quer, sr. MacGregor. - Aproximando-se, beijou-o no rosto. - No ficar feliz enquanto no 
tiver bisnetos suficientes para encher um auditrio.
- Anna adora crianas. - Lembrando-se de que a esposa no estava por perto, Daniel tirou um charuto do bolso. - E se preocupa dia e noite com nosso Duncan.
- Sua esposa no parece ser uma pessoa to preocupada assim.
Cat pegou uma caixa de fsforos sobre o balco do bar e a entregou a ele. Sorriu enquanto observava Daniel acender o charuto.
- Se fugir comigo, corao, no ter mais de se preocupar em fumar escondido.
- Est tentando seduzir meu av de novo?
Duncan entrou no salo, experimentando a mesma sensao esquisita de orgulho que o dominava sempre que via os dois juntos. O que, alis, vinha acontecendo com bastante 
freqncia.
- Eu teria conseguido convenc-lo a ir comigo para Veneza, se voc no tivesse aparecido - disse Cat.
Sem que ela esperasse, Duncan se aproximou e deu-lhe um beijo de tirar o flego.
- Isso sim faz mais o meu gnero! - aprovou Daniel, batendo o punho cerrado na mesa. - No a deixe escapar, garoto.
- Tomarei cuidado - respondeu Duncan, pensando que realmente no conseguia mais se imaginar longe de Cat. - O salo abrir dentro de vinte minutos, vov - avisou, 
sem deixar de olhar para ela. - V passear em outro lugar.
- Isso no  jeito de falar com seu av - ralhou Cat.
- E sim, depois que o flagrei tentando roubar minha mulher.
- Ei, era a mulher quem estava tentando roub-lo - salientou ela. Quando tentou se afastar, Duncan segurou-a pelo brao. - Preciso trabalhar, corao.
- Sou o chefe, lembra? Com licena, vov, mas preciso ter uma reunio de negcios com minha contratada. - Enquanto conduzia Cat em direo ao camarim, disse por 
cima do ombro: - A propsito, vov est vindo para c. Se eu fosse voc, daria um jeito nesse charuto.
- Muito obrigado pelo gentil aviso - resmungou Daniel, apagando o charuto de imediato e abanando a fumaa diante do rosto.
Ento sorriu com um ar sentimental, ao ver Duncan saindo com Cat. Estava disposto a apostar que teriam um novo casamento antes do fim do vero.
- Duncan, eu estava conversando com seu av.
- E o que sempre a encontro fazendo nos ltimos dias.
- Sou louca por ele.
- Eu tambm - confessou Duncan. - Mas...
Ele trancou a porta e abraou-a, encostando-a contra a parede. Ento deslizou as mos pelo corpo dela, fitando-a com um olhar significativo.
- Bem... - murmurou Cat, sentindo o corao bater mais forte.
"Mantenha suas reaes sob controle, Cat Farrell. No pense nem sinta mais do que pode controlar."
- Por que no disse antes?
Enlaou os braos em torno do pescoo dele, preparando-se para receber um beijo ardente. Porm, Duncan segurou o rosto dela entre as mos e apenas roou os lbios 
nos dela, provoca ndo-a.
Queria ouvir a respirao entrecortada de Cat, como sempre acontecia quando ele a amava devagar, criando uma doce tortura de expectativas. Gostava de v-la se render 
aos poucos, quase com relutncia, at finalmente se entregar por completo, sem receios.
s vezes, faziam amor com urgncia, como se fosse a ltima vez. Em tais momentos, a paixo nunca parecia ser completamente saciada. De outras vezes, amavam-se entre 
risos e insinuaes descontradas. E de outras ainda, o amor se fazia com infinito carinho e ternura. Era assim que Duncan queria am-la naquele momento.
Com um suspiro, Cat rendeu-se queles braos fortes e carinhosos. Ser amada por Duncan era sempre uma novidade. Ele parecia guardar uma doce surpresa na manga para 
cada vez que se encontrassem com mais intimidade.
Beijou-o nos lbios, enquanto ele a carregava at o sof, e gemeu baixinho quando as mos experientes comearam a acariciar seu corpo.
Duncan adorava ver a pele de Cat esquentar sob seu toque. Os lbios convidativos sussurraram seu nome, antes que ele os tomasse em um longo beijo possessivo.
Ouviu a respirao alterada de Cat, mas queria mais. Mais do que exctao e desejo incontrolvel. Ele queria amor.
- Aceite-me, Cat - murmurou junto aos lbios dela. - Prometo que nunca a magoarei.
Por que ele dissera aquilo?, ela se perguntou, mesmo rendida aos beijos e s carcias de Duncan. No era possvel que ele acreditasse que nunca a magoaria. No quando 
estava lhe tirando uma barreira de proteo que ela demorara tanto tempo para construir, e da qual tinha receio de se livrar.
Tentou se afastar um pouco para pensar, mas as mos e os lbios de Duncan eram persuasivos demais. Experientes demais.
Quando deu por si, j estava dividindo com ele a parte mais sensvel e preciosa de seu ser. Unidos em um abrao ntimo e sensual, entreolharam-se quando o mpeto 
do clmax pareceu intenso demais para ser contido.
- Desta vez est sendo diferente - murmurou Duncan,ofegante.
Cat apenas assentiu, antes que um gemido irrompesse em sua garganta e os lbios de Duncan cobrissem os seus mais uma vez.
Com ele, chegou ao pice e foi alm, antes que a calmaria voltasse a reinar em seu corpo. Mas no em seu corao.
- Foi diferente - repetiu Duncan.
Cat pegou um robe e o vestiu, aflita para recobrar a clareza de pensamento que ele parecera lhe roubar minutos antes.
No dissera que Duncan era suicida? E ali estava ela, andando com ele  beira do precipcio.
- No, no foi - respondeu.
Ele inclinou a cabea para o lado, fitando-a com ateno.
- Por que a assusta tanto saber que me importo com voc? E que  importante para mim?
- Isso no me assusta.
Tentando ocupar as mos com alguma coisa, pegou uma escova e comeou a pentear os cabelos.
- Qualquer que seja sua opinio a esse respeito, no durmo com um homem que no signifique nada para mim.
- No foi o que eu quis dizer. - Duncan comeou a se vestir enquanto continuava a falar. - Voc  habilidosa em mudar os fatos para aquilo que lhe convm, Cat. Mas 
tambm sou habilidoso em enfatizar o que realmente  importante. No momento, voc  o mais importante para mim.
- Tudo bem. - Ela o olhou atravs do espelho. - Gosto da idia de ser importante na vida de algum. - Deixando a escova sobre a penteadeira, virou-se para ele. - 
Voc tambm  importante, Duncan. Era isso que queria ouvir? Claro que , do contrrio eu no estaria mais com voc. Mas no complique as coisas, por favor.
- Engraado, juro que pensei que as estava facilitando. O que sente por mim?
- Muitas coisas. Sinto desejo, mas acho que isso j est mais do que evidente. Gosto de estar com voc. - Sorrindo, aproximou-se e colocou as mos sobre o peito 
dele. - Gosto de seu estilo, de seu rosto bonito e simplesmente adoro seu corpo.
O brilho de divertimento que ela esperava ver nos olhos dele no apareceu. Continuaram se entreolhando por alguns segundos, antes de Duncan quebrar o silncio.
- E se no houvesse sexo?
- E difcil dizer. - Ela deu de ombros, indo arrumar os cosmticos sobre a penteadeira. -  difcil dizer quando o temos com tanta... freqncia. Mas, pelo bem do 
argumento... - Virou-se para ele. - Eu continuaria gostando de voc. E uma pessoa muito agradvel e no tenho muitos amigos. Nunca fico em um lugar por tempo suficiente 
para fazer amizades duradouras e assumir os riscos que elas envolvem. Mas voc  uma exceo.
Duncan arqueou uma sobrancelha. Estranho que estivesse se sentindo contente e irritado ao mesmo tempo.
- Ento somos amigos? 
- No somos? - Cal sorriu.
Acho que sim. - Duncan deu a ela o mesmo sorriso fcil que ela lhe dera. 
- Bem, doura, logo estaremos atracando e tenho trabalho a fazer 
- anunciou ele, mudando de repente de tom.
Nos veremos por a. 
- Cat sentiu-se aliviada ao notar que um novo motivo de discusso se 
esvara sem maiores conseqncias. 
- Oh, e Duncan?  muito bom trabalhar com voc, corao.
Ele sorriu ao abrir a porta. Mas quando a fechou atrs de si, estreitou o olhar 
e tornou-se srio de repente.
Sempre se considerara um homem de sorte, mas que tipo de sorte era aquela que o fazia se apaixonar perdidamente por uma garota que no seguia nenhum padro?
O amor era uni jogo que ele s esperava jogar quando estivesse preparado. Porm, as cartas j haviam sido distribudas e, dali em diante, ele teria de cuidar para 
que Cat no desse a cartada final. Sim, porque quando Duncan Blade entrava em um jogo, era para vencer

18

Durante o resto da semana, Duncan deixou o jogo prosseguir, mas manteve algumas cartas na manga.
No estava sendo exatamente um sacrifcio, pensou consigo enquanto se encaminhava para o cassino. Quanto mais Cat relaxava, mais... demonstrativa ela se tornava.
Alm disso, gostava de ver o jeito divertido com que ela flertava com seu av, e a maneira como ela foi se aproximando gradualmente de sua av. Em uma das vezes, 
chegara at a ver as duas debruadas no gradil do deque central. Ao observ-las de longe, teve quase certeza de que a sexy Cat Farrell e a serena Anna MacGregor 
estavam trocando segredos. Um verdadeiro milagre.
Precisava falar com Cat, mas ainda no havia encontrado uma oportunidade adequada durante toda aquela tarde. Revira o contrato dela, para se lembrar dos detalhes 
da proposta. Pareceu-lhe justo fazer isso antes de falar com o empresrio de Cat para renov-lo.
Alm disso, havia tambm a notcia sobre o telefonema que recebera pela manh de Reed Valentine, da Valentine Re-cords. Tinha certeza de que Cat ficaria contente 
ao saber que a fita que ela gravara deixara o produtor entusiasmado.
No queria dar a notcia a ela sem um clima especial. Uma notcia como aquela merecia um contexto mais requintado, e ele j havia tomado duas providncias com relao 
quilo. Cat receberia a boa notcia aps a segunda apresentao daquela noite.
Ao pensar nisso, um sorriso curvou seus lbios bem no momento em que passava por uma mesa de apostas. Uma das irms Kingston lhe segurou a mo.
- Oh, sentirei falta disso - insinuou ela, mostrando seu melhor sorriso. - No acredito que nosso passeio tenha de terminar amanh.
- Espero que tenha gostado.
Com qual delas estaria mesmo falando?, ele se perguntou. Cindi? Sandi? Candi?
- Oh, adorei cada minuto. J estamos pensando em fazer
a viagem de novo no prximo ano.  muito divertida.
- Fico contente que tenham gostado. Est tendo sorte? Ela no desviou os olhos muito azuis dos dele.
- No tanto quanto eu gostaria. Duncan riu, entendendo a indireta.
- Estou me referindo s apostas.
- Nisso tambm, mas pelo menos me distrai.
Ele estava prestes a fazer um comentrio quando viu Cat entrar no cassino. Ento todo o resto sumiu de sua mente.
- Com licena.
A loira ficou olhando ele se afastar e suspirou alto.
- Algumas querem toda a sorte do mundo s para si - 
desabafou ela para a pessoa que estava organizando as apostas.
Enquanto Duncan se aproximava, Cat o observou com ateno. A imagem lembrou a de um felino se esgueirando com habilidade por entre as mesas, em meio ao som sedutor 
de fichas e de roletas. Sim, sem dvida aquele era o mundo de Duncan.
- Ei, nunca veio at aqui - disse ele, segurando a mo dela e brincando com seus dedos.
- Eu no tinha motivo. Nem tenho, mas...
- Nunca quebra nenhuma das regras que impe para si mesma? - perguntou ele.
- Todo o tempo, corao.
- Quer jogar?
- S tenho vinte minutos at o incio do show.
- E tempo mais do que suficiente. - Avistando uma mesa vazia, fez um sinal para irem at l, satisfeito por Cat ter ido visitar seu lugar preferido. - Venha. Perteno 
a longa linhagem de apostadores.
- Oh, claro que sim - zombou ela.
- Bem, uma curta linhagem ento. Minha me gostava de jogar. Foi assim que conheceu meu pai.
- E mesmo? - Cat se surpreendeu. - E quem venceu?
- Os dois. Vou lhe emprestar cem dlares em fichas.
- Posso cobrir minhas apostas.
- timo, ento est com crdito. - Com habilidade, Duncan separou um grupo de fichas. - Est especialmente deliciosa esta noite, doura.
Cat sorriu, disfarando o arrepio que o elogio lhe provocara. O vestido azul-marinlio com detalhes prateados moldava cada curva de seu corpo, deixando-a mais feminina 
do que nunca.
Enquanto fazia pequenas apostas e via Duncan manipular as cartas com destreza, Cat notou que ele era mesmo muito bom naquilo. De fato, Duncan era bom em qualquer 
tipo de jogo. S que ela tambm era. A diferena era que ela jogava para sobreviver. Por isso, nunca podia se dar ao luxo de perder. No podia perder tempo nem dinheiro, 
e muito menos seu corao.
Durante o jogo, comeou a perder as apostas, mas isso no foi o que mais a incomodou, j que se tratava de apostas pequenas. Sua maior preocupao era estar perciendo 
terreno para Duncan. Cada vez que se encontravam, ele parecia ter o poder de induzi-la a ceder um pouco mais. Por isso, tinha a inquietadora impresso de estar comeando 
a perder o controle do jogo.
- E muito bom nisso, Duncan - disse, enquanto ele arrumava as fichas.
- E meu trabalho.
- Bem, j que perdi trinta dlares em apenas cinco minutos, acho que est na hora de parar. Desse jeito, acabarei perdendo o vestido antes do show.
- Poderemos jogar apostando peas de roupa depois - insinuou Duncan.
Cat sorriu e inclinou-se sobre a mesa, na direo dele. Com esse jogo ela sabia lidar.
- Vim apenas para lhe dizer que terei uma surpresa para seu av no final da segunda apresentao. Achei que voc iria gostar de ver do que se trata.
- E o que ?
- V at o salo na hora do show e descobrir. - Cat olhou de soslaio para a loira sentada  outra mesa. - Isto , se conseguir se livrar de seu harm, claro.
- Sabe que sou todo seu, doura.
- Sim - anuiu ela, tocando o rosto dele, antes de endireitar o corpo. - Mas quero confirmar isso depois. Afinal, preciso recuperar minha perda no jogo de alguma 
maneira.
Dizendo isso, retirou-se mexendo os quadris com tanta sensualidade que fez Duncan engolir em seco. Definitivamente, ele teria cie se encontrar com ela depois.
Quando Cat terminou a segunda apresentao, notou que Duncan havia entrado no salo minutos antes e estava fazendo companhia aos avs, em uma das mesas. Havia combinado 
o tempo certo com Anna, por isso saiu do foco das luzes do palco quando as pessoas comearam a se dispersar.
Por experincia, sabia que alguns passageiros ficariam no bar e outros s mesas. Porm, considerava que aquela seria uma apresentao exclusiva. Talvez por isso 
estivesse sentindo aquele frio de antecipao no estmago.
- No entendo qual  seu problema, rapaz - resmungou Daniel. - Essa garota foi feita para voc!
- Daniel.
Anna apenas suspirou. Tambm havia chegado  mesma concluso, mas no queria que o marido acabasse dizendo algo que atrapalhasse o andamento das coisas.
- Deixe Duncan em paz. Ele j  um adulto.
- E exatamente esse o problema! Quando  que ele vai cumprir sua obrigao? Quando decidir criar juzo e se casar, como algum da idade dele deve fazer? Se ele 
deixar essa garota escapar, eu... Ora, no estar honrando o sangue que tem nas veias! - bradou, cruzando os braos e encostando-se na cadeira.
Sabendo que aquilo deixaria seu av morrendo de inveja, Duncan tirou um fino charuto do bolso e colocou-o na boca. Ao acend-lo, soltou uma generosa baforada, divertindo-se 
com o brilho de indignao e de desejo que viu nos olhos de Daniel.
- Quem disse que vou deix-la escapar?
- Se tivesse um pouco mais de percepo, veria... - Daniel se interrompeu se repente, parecendo desistir de dizer algo. Disfarando, deu um tapinha nas costas do 
neto e continuou: - Hah! Ento  isso! Eu no lhe disse que o rapaz era brilhante, Anna? No avisei para no se preocupar?
- Constantemente, Daniel. - Anna pousou as mos sobre as do neto, olhando-o com uni ar carinhoso. - Gosto muito dela, Duncan.
- Eu sei. Mas o mantenha fora disso, sim, vov? Deixe que eu resolva tudo sozinho.
- Me manter fora?!
Daniel protestou com tanta nfase que algumas cabeas se voltaram em sua direo.
- Ora, seu ingrato, pois no estaria nisso se eu...
- O qu, Daniel? - Anna o interrompeu com o mais doce dos sorrisos. - No interferiu na vida de outro de nossos netos, interferiu?
- Ah. No, claro que no. No fiz nada. Eu quis apenas dizer... Dizer o que disse! - Daniel achou melhor se retirar, antes que acabasse se deixando levar por seu 
sangue quente. - E melhor irmos andando, querida. Precisa descansar.
- Espere um pouco. Quero terminar meu vinho.
Ento levantou o copo, fazendo o gesto que havia combinado com Cat. Entendendo o sinal, ela voltou para o centro iluminado do palco.
- Daniel MacGregor? Tenho algo para voc.
- Ora, ento o que est fazendo parada a? Venha at aqui e me d, seja l o que for.
- O que quero lhe dar sair daqui - ela apontou para o palco - e daqui - levou a mo ao corao.
Ento Cat cantou para ele a antiga balada escocesa Loch Loman. Mantendo os olhos nos,dele, notou um brilho de lgrimas mesmo a distncia. E sentiu os seus tambm 
ficarem marejados em resposta.
Duncan havia aceitado, ainda que parcialmente, a idia de estar apaixonado por Cat. Mas v-la ali, cantando com tanto sentimento para o homem que ocupava um lugar 
to importante em seu corao foi demais para ele. Se j no soubesse, naquele momento teria de admitir que estava apaixonado por ela.
Porm, no sentiu o choque que imaginou que sentiria quando algum dia se descobrisse apaixonado. O sentimento parecia preencher seu peito de uma maneira acolhedora, 
e graas a Cat. De sbito, deu-se conta de quanto sua vida mudaria dali em diante. Tudo que restava fazer seria encontrar uma maneira de ter Cat a seu lado para 
sempre.
Ouviu o av suspirar a seu lado e pegar um leno para enxugar as lgrimas quando a msica terminou.
- Essa menina  incrvel - disse Daniel.
Cat desceu do palco e beijou-o no rosto.
- Sentirei sua falta, Daniel. De verdade.
- Ora, ora...
Para surpresa de Cat, o velho MacGregor sentou-a no colo dele e a abraou.
- Duncan, vamos caminhar um pouco - sugeriu Anna. Pegando a mo do neto, afastou-o da mesa. - Essa menina est precisando de amor - afirmou quando Duncan olhou para 
trs e avistou Cat abraada a seu av.
- Tenho amor para oferecer a ela - disse  av. - Mas ainda preciso convenc-la disso.
Anna acariciou a mo dele.
- Aposto em voc.
Duncan sabia que Cat estava cansada. Notou isso nos olhos dela quando levou-a at sua cabina. Ela no era do tipo que demonstrava as emoes com freqncia. Para 
algum assim, passar por tal experincia devia ser muito desgastante.
- O que fez para homenagear meu av foi muito comovente.
- Adoro seu av.
De fato, Cat andava preocupada com o fato de estar se importando tanto com pessoas com as quais no teria ligao depois de algum tempo.
- Acho que o sentimento  mtuo - respondeu Duncan. - Se no fosse por minha av, e por quase setenta anos na diferena de idade entre vocs, eu ficaria preocupado.
Cat riu, disfarando um bocejo quando voltou a ficar sria.
- Eu no ficaria to tranqilo assim, se fosse voc - brincou.
Duncan abriu a porta e ficou de lado para ela entrar primeiro. Cat se surpreendeu ao ver a cabina iluminada pelas velas de um candelabro e um brilho de cristais 
vindo da mesa.
- O que  isso?
- Achei que aceitaria quebrar outra regra. Aproximando-se do balde prateado deixado sobre a mesa, tirou dele uma garrafa gelada.
- Champanhe? - Cat assobiou ao ver a etiqueta. - E do melhor. O que vamos celebrar?
- J chegarei l. Quer o champanhe agora?
- No gosto de beber, mas champanhe francs tem de ser uma exceo  regra. Foi por isso que no quis que eu trocasse de roupa depois do show? Queria que eu estivesse 
devidamente vestida para honrar o champanhe?
- No. Na verdade, pedi que no mudasse de roupa porque eu mesmo queria despi-la. No momento certo, claro.
Com habilidade, Duncan abriu a garrafa, provocando um breve estampido. Depois de encher duas taas, entregou uma a ela e brindou:
- A sua privilegiada garganta. Cat riu, provando o champanhe.
- Meu Deus, como pude viver at hoje sem provar isso? - disse, fechando os olhos por um instante.
- Estamos chegando na ltima semana de seu contrato. Cat deu graas por j haver engolido a bebida, do contrrio, provavelmente teria se engasgado.
- Sim, eu sei. Foi uma tima experincia.
- Quero prolongar a temporada.
Ela sentiu o corao comear a bater mais forte.
- Ora, ento vamos brindar a isso tambm - props.
- Queria conversar com voc, antes de telefonar para seu empresrio.
- Eu o despedi, Duncan. Portanto, pode falar diretamente comigo.
- Voc o despediu? - Duncan apertou os lbios, antes de assentir. - Foi uma atitude sensata, mas precisar de algum para rpresent-Ia.
- Ningum bateu  minha porta nos ltimos tempos, corao. Mas tentarei arranjar um empresrio quando for preciso.
- J est sendo, Cat. Reed Valentine quer marcar uma reunio e combinar os detalhes de uma gravao experimental no estdio dele, em Nova York. Quando voc puder, 
claro.
Cat sentiu o ar fugir de seus pulmes. De repente, tudo pareceu estar distante, exceto as fortes batidas de seu corao.
- Reed Valentine? Da Valentine Records? Uma reunio comigo? Por qu?
- Puxa, quantas perguntas. - Duncan riu. - Reed quer marcar uma reunio porque ficou muito impressionado com a fita que voc gravou.
- Voc a enviou para ele?
- Eu lhe disse que mandaria para um de meus contatos. Cat tentou recuperar o flego, mas teve dificuldade. Valentine Records? No era possvel!
- No est acreditando em mim, Cat? No brinco com coisas como essa.
- No  isso. Claro que acredito, mas  que estou com falta de ar.
Preocupado, Duncan se aproximou dela. Cat havia ficado muito plida de repente.
- Sente-se um pouco.
- No. Sim. Quer dizer, no. Preciso de um pouco de ar. Entregou a taa de champanhe a ele e saiu para a varanda.
Estava zonza, sentindo-se como se houvesse tomado toda a garrafa de champanhe de um s gole. Apoiando-se no gradil, ficou olhando as guas calmas do rio.
- No era o que voc queria?
Mantendo-se de costas para Duncan, Cat fechou os olhos, ao senti-los cheios de lgrimas.
- Esperei por isso durante toda minha vida, Duncan. E tudo que eu sempre quis. Eu queria uma chance, apenas uma chance para provar que posso ser algum. - Interrompeu-se 
um instante, contendo a vontade de chorar. - Preciso de um minuto, Duncan. Est bem? Me d apenas um minuto.
Em vez de deix-la, porm, Duncan virou-a de frente para ele. Ento notou os olhos dela marejados de lgrimas.
- Pensei que soubesse quanto isso significava para voc, mas vejo que me enganei. - Falando com gentileza, enxugou uma lgrima que rolou pelo rosto dela. - Eu deveria 
ter encontrado uma maneira melhor de lhe dar a notcia.
- No, tudo bem. No se preocupe com isso.
Cat ficara assustada com a possibilidade que Duncan estava lhe oferecendo.
- Apenas me deixe sozinha por um minuto, sim? - pediu mais uma vez. - Preciso me recompor.
- No, no precisa. - Ele se aproximou mais dela. - Precisa se dar mais liberdade, Cat.
Ela respirou fundo, mas acabou soluando alto. Ento encostou o rosto junto ao peito dele, abraando-o com firmeza.
- Isso  tudo para mim - confessou. - Tudo! Mesmo que mudem de idia e que detestem meu trabalho, j ter sido suficiente. Pelo menos poderei dizer que tive uma 
chance. Nunca vou poder retribuir o que fez por mim, Duncan.
- No h nada a retribuir. Cat...
-  tudo - ela repetiu, afastando-se e segurando o rosto dele entre as mos. - Oh, estou to agradecida, Duncan. - Beijou-o com paixo. - Deixe-me mostrar...
- Cat, no estou  procura de gratido.
- Mas preciso lhe oferecer a minha. - Ela o beijou mais uma vez. - Deixe-me agradecer, por favor.

19

Cat havia agido como uma feiticeira, pensou Duncan,  luz do dia. Mais do que nunca ele sentira o que era estar sob o poder daquele feitio.
Sentira vontade de dizer a ela que a amava e de pedir que Cat ficasse a seu lado para sempre. Mas no lhe parecera justo propor isso em um momento em que ela se 
encontrava envolvida por um conflito emocional. Por isso, preferira esperar por uma oportunidade mais apropriada.
Esperaria at a noite. Ento o ar estaria mais ameno e ambos se encontrariam sozinhos acima do rio. Alm disso, aquele intervalo de tempo lhe daria chance de pensar 
com cuidado em como se dirigir a ela, e quais as palavras e o tom que deveria usar. Gostaria de ter mais segurana quanto  reao que Cat teria, mas era impossvel 
prever.
Provavelmente, aquele par de alianas pesaria em seu bolso durante todo o dia. Comprara as jias depois de se despedir de seus avs, que haviam partido pela manh.
Pelo visto, a melhor maneira de fazer o tempo passar seria preench-lo com trabalho.
Cat havia se preparado durante toda a manh e pensara muito sobre o que acontecera. S havia uma resposta para aquilo. Duncan lhe dera algo que ela desejara durante 
toda a vida. E sem lhe cobrar nada em troca.
A nica maneira de retribuir o que ele fizera seria sair da vida dele de tuna forma rpida e honesta. Nada de mgoas nem de ressentimentos, disse a si mesma, enquanto 
subia a escada em direo ao escritrio dele.
Suas pernas estavam trmulas. Parou um instante, censu-rando-se pela falta de autocontrole e tambm admitindo para si mesma que sua atitude no estava sendo nobre. 
Aquilo era uma fuga.
No sabia como lidar com o que sentia por Duncan, essa era a verdade. E por que diabos deveria saber? Nunca amara antes.
Por isso, seria mais justo terminar tudo antes que ela acabasse indo alm. Antes que comeasse a pensar que havia um lugar para ela na vida de Duncan Blade. Claro 
que no havia.
Poderia esperar mais uma semana, at o final do contrato, mas achou que seria covardia de sua parte. A atitude mais decente e profissional seria dar a ele tempo 
suficiente para colocar uma pessoa em seu lugar. No iria retribuir o que Duncan fizera atrapalhando o negcio que ele administrava com tanto zelo, nem tampouco 
arruinando a vida dele.
Problema seu que houvesse acabado se apaixonando por ele. Abrira seu corao demais e, dali em diante, teria de pagar o preo por sua insensatez. Ao pensar nisso, 
porm, a possibilidade de realizar o sonho que ela alimentara durante tanto tempo no lhe pareceu mais to animador.
Ento lembrou a si mesma que Cat Farrell era uma mulher de palavra, que enfrentava as responsabilidades em perodos bons ou ruins da vida. Foi pensando nisso que 
chegou ao escritrio de Duncan e o viu atravs da janela. Seu peito pareceu apertado de repente.
Oh, Deus, ele era to perfeito em todos os sentidos. Duncan era gentil e carinhoso, tinha integridade, e era ambicioso, como ela.
O perigoso Duncan, arrasador de coraes, pensou. Com certeza, ele j teria esquecido seu nome antes do final do vero.
Respirando fundo, jogou os cabelos para trs e entrou no escritrio.
- Tem um minuto, chefe?
Duncan se encostou na cadeira, deixando de lado os papis que estivera lendo.
- Acho que posso arranjar algum tempo para voc - brincou. - Como est se sentindo?
- Ainda nas nuvens. Viu quando seus avs partiram?
- Sim. Eles vo passar um dia em Nova Orleans, antes de pegarem um vo para Boston e irem visitar minha irm e meus primos. Disseram que iro visitar meus tios Caine 
e Diana. Aposto que vov no perder a chance de perseguir meu primo Ian por alguns dias, censurando-o por ele ainda estar solteiro. "Um jovem e brilhante advogado 
ainda solteiro? Imagine!" - ele imitou a maneira como Daniel costumava falar. - Acho que depois tambm passaro por Maine, para que o velho MacGregor possa importunar 
um pouco o lado Campbell da famlia.
Cat sorriu.
- Isso o mantm rejuvenescido.
- Ento ele vai ficar com noventa anos para sempre porque nunca vai parar com isso.
- A famlia  a vida dele.
- Eu sei - anuiu Duncan. - Aprendeu a conhec-lo bem rpido.
- Aprendi a am-lo bem rpido. Alis, a amar todos vocs. Recebi um convite de Daniel - contou, com um brilho de satisfao no olhar. - Ele me disse para visitar 
Hyannis Port quando quiser. J vi fotos do castelo que ele construiu por l. E fascinante.
- Ento daremos um jeito para que o conhea pessoalmente.
No at que ela tivesse certeza de poder sair com o corao
intacto de uma visita como aquela, pensou Cat. Provavelmente, isso nunca aconteceria. Sentando-se e cruzando as pernas, preparou-se para mostrar o desempenho mais 
importante de sua vida.
- No quero interromper seu trabalho por muito tempo, mas h alguns assuntos sobre os quais precisamos conversar.
- Est bem. Eu ia procur-la mais tarde de qualquer maneira. - Duncan abriu uma pasta e pegou o contrato. - Coloquei apenas uma clusula a mais, com um aumento garantido 
de cinco por cento no seu salrio a partir do dia em que ele comear a valer. Todo o resto continua igual ao contrato anterior. Se no quiser assin-lo sem algum 
para aconselh-la, poderemos procurar um advogado em Nova Orleans, ou em algum dos portos onde pararmos na volta para Saint Louis.
- No tenho receio de assinar um contrato feito por voc, Duncan. Mesmo assim, tenho o hbito de ler absolutamente tudo antes de assinar qualquer documento.
-  o correto. Ento fique com este e leia-o novamente.
- No  preciso porque no vou assinar.
Duncan ficou segurando os papis no ar por alguns segundos, antes de coloc-los sobre a mesa.
- O que disse?
- No quero o prolongamento do contrato. At onde sei, quando atracarmos em Saint Louis, no prximo fim de semana, estarei livre do contrato.
- Tire os culos.
- Est muito claro aqui - protestou Cat.
- Se quer falar de negcios, quero que me olhe nos olhos.
Hesitante, ela tirou os culos e pendurou-os na blusa. Duncan fitou-a com ateno, em busca de detalhes que apenas um apostador sabia observar. Se Cat estava blefando, 
tambm era uma tima atriz, pensou ele.
- Quer negociar novas condies?
- No foi o que eu disse. Tenho uma nova oportunidade pela frente, corao, e graas a voc. No h motivo para eu passar mais seis semanas em um barco sendo que 
eu poderia estar em Nova York.
- Entendo. Mas se leu seu contrato, Cat, j deve estar sabendo que tenho o direito a essa ltima opo. Portanto, voc ter de cumpri-la.
Bem, ela no achara mesmo que Duncan iria facilitar as coisas.

- Espero que me deixe sair sem maiores problemas, em nome dos velhos tempos.
Duncan ficou de p e abriu o frigobar. Pegou duas garrafas de gua. Estava se sentindo como se houvessem jogado um balde de gua fria sobre sua cabea.
- Estamos falando de negcios, Cat. No tem nada a ver com o fato de estarmos dormindo juntos. Quer um copo?
Cat pegou a garrafa com um gesto um tanto brusco. De certa forma, aquilo aliviou um pouco a apreenso de Duncan. Ela no estava to indiferente quanto queria demonstrar. 
O que Cat queria afinal? O que estaria se passando pela mente dela?
- Est bem, nada de favores. E justo - afirmou Cat, tomando um generoso gole de gua na prpria garrafa. - Se  assim, ento me processe.
- Primeiro vamos tentar resolver isso como profissionais. Notou que ela enrubesceu ligeiramente ao ouvir aquilo.
Se ainda havia um pouco de emoo ali, ele poderia utiliz-la.
- Voc est querendo ir para Nova York se encontrar com Valentine. No a culpo por isso. Quando chegarmos a Saint Louis, voc pode ir... - Ele levantou a mo quando 
ela fez meno de falar. - Conseguirei algum para se apresentar no seu lugar por uma semana. Ento voltar para Nova Or-leans, onde o barco estar atracado, e cumprir 
o restante de seu contrato. Assim, no haver prejuzo para ningum.
- No gostei da proposta.
- E pegar ou largar - disse Duncan.
- Prefiro largar. - Cat ficou de p.
- Sente-se.
- No me diga o que fazer.
- O negcio est concludo. Agora vem a parte pessoal, e eu disse para voc se sentar.
Sem deixar de olh-lo, Cat tomou outro gole de gua, mas se manteve de p.
- Decidiu agir assim agora, Duncan? Seu ego ficou ferido ou algo do gnero?
- Acha mesmo que vou deix-la ir embora assim, sem mais nem menos?
- Sim, porque se no deixar, vou ferir muito mais do que seu ego. Oua, foi divertido e lhe devo muito pelo que fez. Mas est na hora de pr um fim na histria.
- E isso  o que voc sabe fazer melhor, no? Mudar de um lugar para outro.
- Sim.
Antes que ela pudesse impedir, uma sombra de arrependimento surgiu nos olhos de Cat.
- Desculpe-me por ter de pensar mais em mim agora. Mas no vou esquec-lo, corao.
Foi ento que ela cometeu o erro de sorrir e de tocar o rosto dele. Seu sorriso desapareceu de imediato quando Duncan lhe segurou o pulso.
- Est trmula, corao.
- No, no estou - refutou ela. - Est frio aqui, s isso.
- Por que est tremendo, Cat?
- Voc est me machucando.
- No, no estou. - Os dedos dele mal estavam circundando o pulso dela. - Voc, por outro lado, est fazendo o possvel para me magoar. Por qu?
- No quero mago-lo, Duncan. - A emoo deixou-a com a voz trmula. - Droga, deixe-me ir embora!
- Nem pensar. Ento quer me deixar? Sem mgoas nem ressentimentos? Pois est mentindo. No  to boa atriz quanto imaginou ser.
- Estou vendo que no tem muita experincia em levar foras, no ?
Duncan arqueou uma sobrancelha.
- Ah, ento  isso. Est querendo me dar o fora antes que eu possa fazer isso com voc.
- Mais ou menos.
- Cat, pare de agir feito criana e vamos colocar as cartas sobre a mesa, est bem? Eu te amo e voc vai se casar comigo.
- O qu?! Voc ficou maluco?
- Quero ficar com voc, portanto, acostume-se  idia - avisou ele.
Ela estreitou o olhar.
- Quem diabos voc pensa que ? Oh, estou sem ar. - Levou a mo ao peito, tentando recuperar o flego. - Droga - resmungou.
- Engraado, teve essa mesma reao ontem  noite, quando lhe contei sobre Valentine. Algo que voc disse haver desejado durante toda a vida. - Duncan se aproximou 
mais dela. - Existe algo mais que voc desejava com a mesma intensidade, Cat?
- No. Fique longe de mim. Preciso de um pouco de ar.
- Voc no ir a nenhum lugar. - Segurando-a pelo brao, fez com que ela se sentasse na cadeira. - Temos uma tradio na minha famlia. - Ele tirou uma moeda do 
bolso.
- Cara, voc se casa comigo, coroa, voc pode partir.
- Oh, claro - respondeu Cat, em vim tom evasivo.
- Combinado.
- Ei, mas eu no...
Duncan jogou a moeda para o ar e pegou-a no dorso da mo.
- Cara. Venci. Quer um casamento suntuoso ou uma cerimnia mais simples?
Cat no disse nada. J havia recuperado o flego e seu corao no estava mais parecendo querer escapar de seu peito. Duncan estava aborrecido. Podia notar isso 
nos olhos dele. Por trs daquele sorriso irnico havia fria, indignao.
- Duncan, pessoas sensatas no decidem se casar jogando cara ou coroa.
- Meus pais decidiram assim, e eu tambm decidirei. A no ser que prefira apostar.
- No fao apostas.
Apoiando as mos na cadeira dela, Duncan se inclinou para a frente.
- Eu te amo, Cat.
- Pare com isso - pediu ela, em um fio de voz.
- Eu te amo - ele repetiu. -  suficiente para mim. Eu sabia que algum dia isso aconteceria, quando eu estivesse no lugar e no momento certo, diante da pessoa certa. 
Quando acontecesse, seria suficiente para mim. Eu te amo, Catherine Mary. Agora diga que no me ama.
- No.
- No o qu?
- Oh, afaste-se de mim, Duncan. Como posso pensar direito com seu rosto a centmetros do meu?
- Apenas responda - insistiu ele, roando os lbios nos dela. - Mas seja convincente.
- No vai dar certo.
- No foi o que eu lhe perguntei.
- Eu estava lhe fazendo um favor.
- Muito obrigado - ironizou ele. - Agora responda.
- Afaste-se, Duncan. Est me sufocando.
Ele sorriu e se afastou, depois de ver a resposta nos olhos dela.
- Est bem. Dar a resposta de p faz mais o seu estilo. Cat ficou de p, sem se importar com a provocao.
- Quero continuar com minha carreira.
- Eu tambm.
Ela notou que Duncan falara srio. Enfiando as mos nos bolsos, falou:
- No preciso de uma casa no campo com uma cerca pintada de branco.
- Pelo amor de Deus! Essa idia sempre me aterrorizou. A maneira como ele disse aquilo fez Cat rir.
- Est falando srio?

- Completamente. Eu costumava ter pesadelos com cercas brancas.
- Duncan! Estou tentando ser sincera com voc. Preciso que tambm seja sincero comigo porque pode acabar me magoando mais do que imagina.
O olhar dele se tornou terno.
- Eu lhe disse que nunca faria isso. E sou um homem de palavra.
Cat respirou fundo.
- Tem certeza de que  isso que quer?
- Certeza absoluta. - Duncan tirou do bolso a caixinha com as alianas. - Adivinhe o que tenho aqui?
- Ah, meu Deus. Voc  mais rpido do que imaginei. Estou com as mos suadas. Isso s acontece quando fico real mente nervosa. - Em um gesto infantil, enxugou-as 
no short.
- Tudo bem, corao, foi voc quem pediu por isso. Lembre-se que eu lhe dei todas as chances para desistir. Eu te amo e, para mim, isso tambm  suficiente.
Duncan sorriu.
- Aceito correr o risco. Afinal, nunca tive medo de apostar - disse ele, abrindo a caixinha.
Uma das alianas era lisa e a outra tinha uma delicada pedra de citrina no centro.
- Oh, meu Deus - murmurou Cat, ao v-la.
- Quer apostar que acertei no tamanho? - brincou Duncan.
- No quero mais saber de apostar com voc. Sempre acabo perdendo.
Ele enfiou a aliana na mo direita de Cat. O tamanho ficou perfeito.
- Desta vez, voc saiu ganhando - ele disse e beijou a mo dela logo acima do anel. - Negcio fechado?
- Parece que sim. Mas quero ver aquela moeda. Duncan arqueou uma sobrancelha. Girando a moeda entre os dedos, fez com que ela desaparecesse.
- Que moeda?
Do Dirio
de
Daniel Duncan MacGregor

H momentos que marcam a vida de um homem com a mesma preciso com que um diamante  capaz de cortar um vidro. A primeira paixo por uma mulher. A primeira troca 
de um olhar apaixonado. O primeiro filho, nascido do ventre dessa mesma mulher e sendo colocado em seus braos... E os acontecimentos da vida do filho, preenchendo 
a desse homem com alegrias e tristezas, risos e lgrimas.
H muitas lembranas assim na minha vida. De fato, muitas para contar e poucas das quais eu me arrependo. E, de alguma maneira, todas elas compartilhadas com a minha 
famlia.
Outro desses momentos felizes aconteceu recentemente. Vi uma jovem por quem me afeioei muito entrar para a famlia que formei com minha Anna. Nos ltimos dias do 
vero, ela fez a meu neto Duncan a promessa de que seria dele. Na verdade, passou a ser tambm nossa.
Quando trocaram os votos de casamento e o primeiro beijo como marido e mulher, ela se inclinou na minha direo e disse: "Obrigada, sr. MacG". - Foi assim que ela 
passou a me chamar carinhosamente desde ento. - "Obrigada por me escolher para ele."
Ela no  mesmo especial? No ligo para esse tipo de coisa, mas um homem gosta de ser elogiado de vez em quando.
Aqueles dois tero lindos filhos. No que estejamos com pressa, embora Anna, como sempre, j tenha cogitado a idia. De qualquer maneira, pelo menos fizemos nossa 
parte para coloc-los no caminho certo.
Agora, aqui estou eu diante da janela do meu escritrio. Daqui, posso ver as ltimas rosas do jardim de Anna se desvanecendo. Logo o inquieto vento do outono comear 
a soprar as ptalas, levando-as para longe. O tempo continua passando, por mais que s vezes desejemos que ele ande um pouco mais devagar.
Mas se ele no nos d ouvidos, eis mais um motivo para que no seja desperdiado. Ainda tenho netos que precisam ser encaminhados na vida e no posso perder tempo.
Ainda assim,  melhor me manter calado quanto a esse assunto. Outro dia, Anna ralhou comigo s porque comentei por alto que j estava na poca de nosso lan comear 
a pensar em casamento.
Tudo bem que ele seja um brilhante advogado, mas a vida de um homem no se torna completa apenas com a profisso. Deus, parece que foi ontem que o vi andando pela 
casa com passinhos incertos, louco para pr as mos no vaso de cristal da av. Nosso Ian sempre teve admirao por coisas belas.
Por isso, eu no poderia escolher para ele menos do que uma bela dama. Acho que ela ser o complemento perfeito para o carter dcil e gentil do meu neto. Est mais 
do que evidente que ele est doido para formar uma famlia. Afinal, no comprou uma casa h pouco tempo? O que leva um homem a comprar uma casa seno o desejo de 
formar uma famlia?
 admirvel que ele j tenha todos os mveis e outros detalhes na casa. Mas o que realmente forma um lar  a presena da famlia. Digo isso por experincia prpria.
Portanto, o mnimo que posso fazer por meu neto querido  indicar a ele a direo a seguir, e deixar que continue o caminho por si prprio. Ou pelo menos deix-lo 
pensando que est fazendo isso por si prprio.




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PARTE III

IAN

20

As vezes, o dia parecia no ter horas suficientes, pensou Ian. Detestava ter de viver apressado, fosse por um motivo profissional, por prazer ou por outra razo 
qualquer do dia-a-dia.
Tinha de admitir que andava a tarefado demais ultimamente. Como se no bastasse o desgaste dirio, ainda era preciso encontrar disposio para enfrentar o trnsito 
intenso de Boston no horrio de pico.
Mas depois dessa uma ltima tarefa, finalmente poderia ir para casa. Ou melhor, para seu novo lar. S de pensar na elegante construo cercada por um belo jardim 
sentiu um sorriso se insinuando em seus lbios e ignorou o barulho a seu redor.
Ao longo dos ltimos dois meses, havia visitado lojas de mveis e de departamentos, para que a decorao ficasse exatamente do jeito que ele queria.
Todas as vezes em que colocava a chave na fechadura e entrava na casa, com suas paredes bege e as portas envernizadas, sentia que os dias de barulho e de agitao 
nos apartamentos acima e abaixo do seu se encontravam muito distantes.
No que no gostasse de compartilhar o espao com outras pessoas. Afinal, fora criado em meio a uma famlia numerosa. Porm, sempre sonhara em ter seu prprio lugar. 
Ficaria eternamente grato  sua prima Jlia, que o ajudara a escolher aquela casa perfeita e aconchegante.
Ele queria um lugar com uma atmosfera antiga e estvel, e conseguira encontr-lo. Dignidade, estilo e carter. A necessidade de ter tudo aquilo parecia estar no 
sangue dos MacGregor.
Crescera com dignidade, estilo e carter e estava acostumado a lidar com isso tanto em casa quanto no trabalho. O escritrio de advocacia MacGregor defendia essas 
trs virtudes, assim como seus pais, seus avs e a famlia que se formara a partir deles.
Juntamente com os pais e a irm, ele fazia parte do respeitado escritrio de advocacia. Pretendia deixar sua marca na empresa e contribuir para manter aquelas tradies. 
Com o tempo, talvez at conseguisse seguir os passos de seu pai e de seu tio e ir para Washington.
De vez em quando a imprensa divulgava alguma nota citando que lan MacGregor estava treinando para a poltica. Comentavam que ele vinha de uma linhagem familiar favorvel 
a isso, j que seu pai fora chefe do Departamento de Justia e seu tio o presidente dos Estados Unidos.
Segundo alguns jornalistas mais ousados, ele tinha um porte seguro, penetrantes olhos azuis e um semblante de traos marcantes que faziam as mulheres suspirarem 
e os homens confiarem nele.
Certa vez, quando ele ainda estava estudando em Harvard, um tablide publicara uma foto dele vestido apenas com uma sumria tanga. O resultado fora um aumento incrvel 
na venda dos jornais e o ttulo de "Gato de Harvard". O apelido pegara, para seu embarao e para divertimento da famlia. No entanto, tentara encarar o fato com 
bom humor. Afinal, que outra escolha ele tinha?
De qualquer maneira, sentira uma doce vingana com aqueles que haviam dito que ele era apenas mais um rosto bonito tentando usar o prestgio dos MacGregor para conseguir 
subir na vida. A doce vingana viera com a primeira colocao na turma em que ele se formara. Ian conseguira realizar seu intento com razovel facilidade. Gostava 
de leis desde que se entendia por gente e mostrar isso aos outros nunca fora difcil para ele.
Por isso, depois de mostrar que era competente, tornara-se o membro mais jovem da empresa. E esse era seu maior problema. Por ser o mais jovem participante da empresa, 
s vezes lhe entregavam servios mais apropriados para um boy do que para um advogado que se classificara em primeiro lugar na turma de formatura.
Ao entrar em uma rua secundria, diminuiu a velocidade e procurou por algum estacionamento, mesmo sabendo que seria difcil encontrar um por ali. Por fim, conseguiu 
estacionar a quatro quarteires de seu destino. Um pouco mais e poderia ler deixado.o carro em casa e voltado a p, pensou com ironia.
Aps pegar a pasta e sair andando, tentou relaxar e chegou at a olhar algumas vitrines no caminho at a Brightstone's.
Corriam os primeiros dias do outono. Ele sempre considerara que aquela poca tinha um clima perfeito na Nova Inglaterra. Enquanto andava, prometeu a si mesmo que 
se presentearia com uma taa de vinho quando chegasse em casa. Ento sentaria em sua poltrona preferida e desfrutaria de seu pequeno reino.
Com as pontas do sobretudo balanando ao vento, parou diante da Brightstone's e observou o prdio antigo feito de tijolos vermelhos. A livraria era uma verdadeira 
instituio em Boston. Na cidade, a Brightstone's era sinnimo de bons livros.
Ainda se lembrava da poca em que ia at ali com sua me e saa correndo direto para a seo de livros infantis. Os funcionrios eram sempre muito prestativos e 
discretos, deixando os clientes  vontade.
De fato^ as horas agradveis que passara ali o levaram a pensar seriamente em montar uma biblioteca em um dos cmodos que ainda estavam vazios em sua nova casa.
Ao entrar na livraria, ficou contente ao notar o mesmo ambiente que ele conhecera na infncia. O teto alto, o assoalho impecavelmente polido e a maravilhosa variedade 
de livros expostos.
Lembrava-se de que o segundo andar abrigava livros de histria, biografias e outros de autores locais. O terceiro andar, no entanto, era seu lugar preferido: o precioso 
recanto dos livros raros.
Ao observar a quantidade de pessoas presentes, imaginou que o negcio estivesse indo bem. Cerca de um ano antes, ouvira dizer que a antiga instituio de Boston 
estava com srios problemas financeiros e com dificuldade para competir com as megastores.
Alguns clientes estavam examinando as prateleiras de livros enquanto outros se encontravam acomodados nas cadeiras acol-choadas e nas mesas de leitura. Aquilo era 
novo, no?, Ian se perguntou. Notou que um pequeno caf havia sido montado ao lado da escada que dava acesso aos andares superiores.
A tranqila msica new age tocando ao fundo tornava o ambiente ainda mais agradvel. Parecia bem diferente da seleta msica clssica que ele costumava ouvir ali 
quando visitava a livraria durante a infncia.
Curioso, seguiu em frente e notou que a ala infantil continuava como antes. A nica diferena era que haviam acrescentado uma grande caixa com brinquedos plsticos 
para as crianas e alguns psteres com cenas de contos de fada.
Ao se aproximar da escada, o delicioso aroma de caf invadiu suas narinas, levando-o a desejar tomar uma xcara da bebida. "Muito perspicaz", pensou ele. Seria difcil 
algum sair dali resistindo  tentao de tomar uma xcara de caf e de comprar um livro.
Convencendo-se de que no tinha tempo para nenhuma das opes, encaminhou-se para a rea administrativa e chamou a ateno de um funcionrio.
- Sou Ian MacGregor e vim falar com Naomi Brightstone. Ela est  minha espera.
- A srta. Brighstone se encontra no escritrio dela, no segundo andar. Quer que eu o acompanhe at l, senhor?
Pelo visto, os funcionrios prestativos e bem-educados continuavam sendo uma das marcas registradas da livraria. Ian sorriu e balanou a cabea negativamente.
- No, obrigado. Irei sozinho.
- Ento vou apenas avis-la de que o senhor est subindo.
- Eu agradeo. Ian comeou a subir a escada e, de repente, lembrou-se
de sua me lhe sorrir naquele mesmo lugar e dizer que, se ele fosse paciente durante as compras, depois iriam tomar sorvete. Sem dvida, uma boa lembrana.
Notou que o segundo andar j no parecia mais to inti-midador como no passado. Talvez porque ele no fosse mais um garoto com oito anos de idade.
O ambiente estava mais iluminado e as prateleiras, antes de madeira escura, haviam sido substitudas por outras de cerejeira. Duas longas mesas com cadeiras confortveis 
criavam um ambiente mais reservado, semelhante ao de uma biblioteca. No momento, estava sendo usado por um casal de estudantes adolescentes mais interessados um 
no outro do que nos livros abertos diante deles.
A viso o fez curvar os lbios em um sorriso saudoso. Tambm havia tido seus namoricos na poca da escola, s que geralmente na biblioteca da escola, um local bem 
menos agradvel do que aquele.
De fato, namoro era algo que se tornara raro em sua vida nos ltimos tempos. Faltava-lhe tempo at mesmo para isso. Mas no vontade. Sentia falta de uma agradvel 
e carinhosa companhia feminina.
- Sr. MacGregor?
Ele se virou ao ouvir o chamado. Aquela deveria ser Naomi Brightstone, deduziu, observando a morena que veio em sua direo. Estava vestida com um elegante tailleur 
vermelho e sapatos de salto da mesma cor. Os cabelos muito negros se encontravam presos em uma trana cada s costas, deixando o rosto atraente emoldurado apenas 
por uma discreta franja.
Os lbios cheios estavam ressaltados por um batom da mesma cor da roupa e seus brincos eram simples argolas douradas. A mo que ela ofereceu a ele no tinha nenhum 
anel ou pulseira no pulso.
- Srta. Brightstone?
- Sim. - Ela sorriu. - Lamento no haver descido para receb-lo.
- No tem problema. Acabei me atrasando um pouco porque no consegui sair do escritrio no horrio marcado.
- Venha at meu escritrio - convidou ela. - Deseja alguma coisa? Caf? Cappuccino
- Aquele cappuccino  mesmo to bom quanto parece pelo aroma?
Dessa vez o sorriso dela iluminou tambm os olhos acinzentados.
- E melhor. Principalmente se for acompanhado por um cie nossos biscoitos de avel.
- Eu me rendo.
- No vai se arrepender. - Ela voltou pelo corredor e continuou falando. - Mandarei algum traz-lo at aqui. Desculpe-me pela confuso, nossa reforma ainda no 
terminou.
- Percebi as modificaes. Ficou muito bom.
- Obrigada. - Naomi olhou para ele, antes de abrir uma porta. - Estamos tendo uma resposta muito boa dos clientes.
O escritrio dela aparentava haver sido recentemente reformado. As paredes eram de um tom perolado e dois quadros estrategicamente posicionados davam um colorido 
agradvel ao aposento. A mesa de cerejeira era pequena e elegante, provavelmente para combinar com o estilo e a altura, mais ou menos um metro e sessenta, de Naomi 
Brightstone.
Com um sorriso, ela indicou uma das cadeiras.
- Sente-se, por favor. Vou pedir o cappuccino.
Ian se acomodou e aproveitou a chance para observ-la melhor. Nos documentos em sua pasta constava que Naomi era filha dos donos. Segundo seus clculos, ela pertencia 
 quarta gerao que administrava a Brightstone Books.
Pensara que ela fosse mais velha, e no uma bela mulher na casa dos vinte anos, cheia de elegncia e estilo. E de belas formas, pensou consigo, observando com interesse 
o modo como as curvas femininas preenchiam o tailleur vermelho.
Quando ela desligou o telefone, sentou-se na cadeira diante dele e uniu as mos sobre o colo.
- J vo trazer - avisou. - Agradeo por haver concordado em me encontrar aqui. A livraria est tomando todo meu tempo esses dias.
Ian notou que a voz de Naomi era to suave e tranqila quanto seu olhar.
- Sei bem o que  isso - disse a ela. - Fico feliz que minha vinda tenha ajudado. Na verdade, a livraria fica no caminho para minha casa.
- Oh, isso  muito bom. Sua secretria disse que os papis para eu ler e assinar j ficaram prontos.
- Sim - Ian confirmou. - Est tudo discriminado como seu pai pediu. - Curioso, ele abriu a pasta e examinou os papis. - Ele pretende se aposentar?
- Mais ou menos. Ele e minha me querem ter mais tempo para ficar na casa de inverno, no Arizona. Talvez at se mudem para l de forma permanente. Meu irmo e a 
famlia dele j fizeram isso.
- E voc no pensa em ir morar no oeste?
- No. Eu adoro Boston. - "E a Brightstone", completou ela, em pensamento. - Assumi muitas responsabilidades na livraria no ltimo ano.
- A reforma foi idia sua?
- Sim. - Naomi havia lutado por aquilo com muito empenho. - O mercado muda e com ele as exigncias e as expectativas dos clientes. Era hora de mudar.
Ficou de p ao ouvir uma batida  porta. Ao pegar a bandeja entregue por um rapaz, agradeceu e voltou para junto da mesa.
- O caf, por exemplo - continuou ela, entregando a xcara a Ian - ,  o tipo de servio que as pessoas gostam deter em uma livraria hoje em dia. Elas no vm at 
aqui apenas para procurar livros, mas tambm pela atmosfera do lugar.
- Sorrindo novamente, sentou-se segurando a outra xcara.
- E pelo timo caf - acrescentou.
- Bem, no momento meu voto vai para o ltimo item - disse Ian, aps o primeiro gole. - Est timo. Conferi a documentao e as notas da contabilidade e posso dizer 
que suas alteraes j esto surtindo efeito.
- Aumentamos as vendas em cinqenta por cento nos ltimos nove meses - salientou Naomi, preferindo no pensar, pelo menos no momento, no custo de tudo aquilo. - 
Minha previso  de que teremos um aumento de mais quinze por cento nos prximos seis meses.
- Eu adorava vir aqui quando era criana.
- Veio  Brightstone's no ano passado? Ian balanou a cabea negativamente.
- Mas prometo que virei mais vezes de agora em diante. - Ele colocou a xcara sobre a mesa e entregou os papis a ela. -  melhor ler os documentos. Responderei 
s dvidas que surgirem.
- Obrigada.
Naomi aceitou os papis e pegou um delicado culos de leitura com armao dourada. Quando ela o colocou, Ian no pde deixar de conter o flego por um instante. 
Sempre tivera um fraco por mulheres que usavam culos.
Tentando se ocupar com algo, pegou a xcara novamente e disse a si mesmo para se manter na linha. Naomi Brightstone era uma cliente.
Mesmo assim, no conseguiu deixar de admirar o brilho de inteligncia dos olhos acinzentados por trs das lentes cristalinas. Como se no bastasse, aqueles lbios 
pintados de vermelho pareciam um convite a um longo beijo. O corpo muito feminino levemente curvado para a frente, coberto pelo tailleur em estilo militar. Os sapatos 
elegantes... Puxa, ela tinha belas pernas.
O andamento da documentao os levaria a se encontrarem de novo, e ele no sabia se conseguiria resistir quela tentao. Os MacGregor no eram conhecidos por serem 
bem-comportados.
De qualquer maneira, concentrou-se no cappuccino, tentando ignorar aquele delicioso perfume que teimava em invadir suas narinas quando ele afastava a xcara do rosto.
Talvez no houvesse nenhum problema em convid-la para jantar. Ou melhor, almoar. Encontr-la  luz do dia seria mais seguro, mais profissional. Um almoo casual, 
durante o qual ele nem sequer pensaria em roar os lbios junto  orelha dela para descobrir se o perfume que ela usava era mesmo to bom quanto parecia.
Ela usava unhas curtas, bem cuidadas, mas sem nenhum esmalte. Tambm no usava nenhuma aliana, indcio de que no era comprometida.
Pensando em qual seria a melhor maneira de abordar o assunto do almoo, continuou a olh-la enquanto ela se mantinha concentrada em ler o documento.
Naomi leu cada linha e suspirou. Todos aqueles termos legais significavam muito para ela. Se estivesse sozinha, provavelmente seguraria os documentos junto ao peito 
e choraria. Ou gritaria de alegria. Todavia, ao terminar de l-los, limitou-se apenas a deix-los sobre a mesa e a tirar os culos.
- Tudo parece estar em ordem - afirmou.
- Alguma pergunta?
- No, entendi tudo. Estudei um pouco de leis comerciais.
- timo. Pode assin-los agora, se quiser. Precisa de uma testemunha. Depois vou mand-los para seus pais, em Scotts-dale. Quando eles tambm assinarem, o acordo 
estar legalmente aprovado.
- Vou chamar minha assistente - anunciou Naomi. Cinco minutos depois, Naomi estendeu uma mo firme para ele.
- Obrigada mais uma vez.
- No precisa agradecer. Estou apenas fazendo meu trabalho. Oua, tenho uma lista aqui comigo. Meu av... voc j se encontrou com ele.
- Sim, vrias vezes - confirmou ela. Com outro daqueles doces sorrisos, acrescentou: - Ele e sua av vm sempre aqui quando esto em Boston.
- Ele est  procura de algumas primeiras edies - explicou Ian. - Pediu que eu visse o que voc pode fazer quanto a isso, quando soube que eu estava preparando 
seu novo contrato.
- Oh, ser um prazer. Vamos at o terceiro andar. Se no tivermos o que ele est procurando, faremos uma pesquisa.
- timo.
Naomi se adiantou at a porta, mas olhou-o com ar de curiosidade quando Ian continuou no mesmo lugar.
- Seu perfume  maravilhoso - disse ele.
- Oh.
Ela abaixou o olhar, enrubescendo. As mos que at ento haviam permanecido firmes uniram-se em um gesto nervoso.
- Obrigada. Ele ... novo. Isto , eu apenas... Bem, vamos. Ao seguir logo atrs dela, Ian curvou os lbios em um sorriso. Naomi era ainda mais encantadora do que 
parecera a princpio.

21

Naquele momento, nem mesmo o Grand Canyon seria um buraco grande o suficiente para ela se enterrar, pensou Naomi. Somente o fato de estar cercada por livros, um 
lugar mais do que seguro para ela, e de ter de manter seu desempenho profissional mantiveram-na firme at a partida de Ian MacGregor.
Depois de localizar dois livros da lista e de prometer uma pesquisa quanto ao terceiro, despedira-se com um formal aperto de mos e ficara olhando ele descer a escada 
em direo  sada.
Ento voltara para seu escritrio, fechara a porta devagar e deitara a cabea na mesa. Era mesmo uma idiota.
At quando continuaria procurando um lugar para se esconder sempre que um homem atraente lhe demonstrava interesse? No deveria ser esse um dos benefcios da mudana 
que fizera em si mesma? Afinal, deixara de ser uma garota tmida e desajeitada para se tornar uma mulher segura e elegante. A mesma que quase se enterrara no buraco 
mais prximo s porque Ian MacGregor havia elogiado seu perfume.
Uma semana se passara desde ento, e ela ainda no se recuperara por completo. Havia conseguido encontrar o terceiro livro. O volume se encontrava sobre sua mesa, 
impeca-velmente embalado e pronto para ser entregue por um mensageiro ou pessoalmente. No entanto, continuava reunindo coragem para dar a notcia a Ian. Era mesmo 
uma idiota.
Depois de todo o trabalho que tivera, no era possvel continuar agindo assim. A reforma da Brightstone's no fora o nico projeto que ela colocara em andamento. 
Fizera tambm uma reforma em si mesma ao longo do ltimo ano.
Perdera peso, depois de se convencer de que deveria parar de alimentar sua timidez e a insatisfao consigo mesma, e comeara a procurar a mulher escondida dentro 
dela. Uma mulher que ela no apenas conseguira encontrar, mas de quem passara a gostar.
Uma dieta equilibrada e exerccios fsicos se tornaram um hbito depois que ela entendera que os anos frustrados de sua adolescncia no haviam passado de uma espcie 
de fuga. No fora apenas seu guarda-roupa que mudara, pensou ela, recordando mentalmente o processo. Na verdade, demorara meses at trocar as roupas recatadas por 
modelos mais femininos e ousados, criando um estilo mais atraente. Comeara a usar cores mais marcantes, lembrou, olhando para o blazer e a cala de linho verde-limo. 
Nada mais de cinza e marrom.
E essas no haviam sido as nicas mudanas. Aprendera a selecionar e a aplicar maquilagem, perdera o medo de aglomeraes e aprendera a se apresentar ao mundo com 
uma aparncia atraente, dinmica e profissional.
Jurara a si mesma que nunca mais se permitiria ser tmida nem evitaria as pessoas, como fizera durante toda sua adolescncia simplesmente porque no conseguia ser 
sofisticada como sua me, nem extrovertida e confiante como seu irmo. A Brightstone's precisava de algum com estilo e personalidade, e ela se tornara essa pessoa. 
Vinha sentindo muito orgulho de seu desempenho. De fato, achava at que havia se sado bem em seu encontro com Ian MacGregor. Ele era justamente o tipo de homem 
que a faria dar um vexame antes mesmo de conseguir cumpriment-lo.
O "Gato de Harvard". Sem dvida, ele merecia o ttulo. Era to bonito, to elegante e... Bem, quando sorria era simplesmente irresistvel. Duvidava que ela houvesse 
sido a primeira mulher a sentir o corao acelerar na presena dele.
Ainda assim, sara-se bem. Haviam tomado caf, conversado, falado de negcios... E bastara um elogio mais pessoal para faz-la agir feito uma idiota, concluiu com 
desnimo. Deus, ela at enxubescera! Justo ela que pensava j haver superado aquela fase. E tudo por causa de seu perfume.
"E por que diabos usa perfume, Naomi?", perguntou-se. "Voc o usa para que as pessoas notem sua presena, para que se sinta mais feminina e confiante."
Um homem como Ian deveria estar acostumado a fazer elogios daquele tipo s mulheres. Com certeza, esperava ver uma reao mais natural e sofisticada, talvez at 
com algum indcio de flerte, e no uma mulher enrubescida feito uma adolescente tmida.
Apostava que ele havia rido at chegar em casa naquele dia. Ou pior: sentira pena dela. S de pensar, sentiu uma onda de indignao. Passara a maior parte de sua 
vida sendo alvo de divertimento ou da piedade de algum e no queria mais aquilo para si. At mesmo as pessoas da famlia haviam agido assim, embora dissessem que 
a amavam. Quando se era "o patinho feio" em meio a uma famlia de cisnes, era difcil reunir foras para dar a volta por cima.
Sua me ficara atnita quando a vira pedir conselhos sobre roupas e maquilagem. Antes de os dois partirem para o Arizona, seu pai lhe dera um forte abrao e, para 
sua surpresa, no a chamara de "minha menina", como era de hbito, mas de "minha linda". Podia at parecer ridculo, mas aquilo a fizera sentir-se como uma princesa.
Haviam lhe confiado a gerncia da Brightstone's porque sabiam que ela era inteligente e que iria trabalhar at ter uma estafa, se fosse preciso. E tambm porque 
ela travara uma longa e rdua batalha at convenc-los a ficarem do lado dela.
Seu pai no queria realizar aquelas mudanas porque, segundo ele, elas gerariam gastos que poderiam deix-los com dificuldades financeiras. Porm, o amor que ela 
tinha pela livraria foi transmitido em cada um de seus argumentos. At que, por fim, ele acabara concordando e confiando nela.
Por isso, no poderia decepcion-los. E no iria faz-lo, disse a si mesma. Um breve vexame na presena de lan no seria suficiente para desanim-la. Alm disso, 
era provvel que ele at j houvesse esquecido dela.
Portanto, se quisesse continuar convencida de que se tornara uma nova mulher, teria de enfrentar a situao. Teria de rever o irresistvel lan MacGregor.
Em um impulso, pegou o livro sobre sua mesa e se dirigiu  porta. No telefonaria para ele, mas faria melhor: entregaria o livro pessoalmente.
Quando Naomi entrou no simptico prdio de dois andares que abrigava o escritrio de advocacia MacGregor, convenceu-se de que estava calma.
Tivera tempo de renovar o batom antes de sair do carro e fizera suas dez respiraes para acalmar os nervos.
O grande problema era sua reao  presena de lan. Uma reao que comeara a se manifestar desde o instante em que o encontrara no segundo andar da Brightstone's, 
sorrindo ao ver um casal de adolescentes namorando.
Sua reao fora semelhante s que ela costumava ter no passado, quando se via diante de um homem bonito, desejvel e completamente fora de seu alcance. No entanto, 
manteve-se calma ao entrar no escritrio, dizendo a si mesma que lan estava interessado apenas em negcios.
Sorriu para a mulher sentada  mesa da recepo.
- Boa tarde. Em que posso ajud-la?
- Sou Naomi Brightstone. Eu tenho...
Ela se interrompeu ao ouvir uma gritaria vinda da porta.
- Eu venci! A justia triunfou mais uma vez e o mundo est salvo para nossos filhos!
A mulher que dissera aquilo, uma bela morena trajando um tailleur lils, lanou um sorriso radiante para Naomi.
- Oh, desculpe-me - disse ela. - Geralmente agimos com mais sobriedade por aqui. Sou Laura Cameron.
- Sou Naomi Brightstone. Meus parabns, qualquer que tenha sido o motivo.
- Obrigada. Est esperando... Brightstone? Da livraria?
- Sim, isso mesmo.
- Oh, adoro aquele lugar! Sempre adorei. - Laura prendeu atrs da orelha uma mecha que havia escapado de seu penteado. - O novo caf ficou maravilhoso.
O frio que Naomi sentira no estmago se amenizou um pouco.
- Obrigada. Temos muito orgulho dele.
- Estamos trabalhando em algo para voc, no? Ou melhor, Ian est trabalhando.
- Sim. Passei apenas para...
- Sou a irm dele.
- Sim, eu sei. Seu av queria um livro. - Naomi tirou-o da bolsa. - Eu tinha um compromisso aqui perto e resolvi traz-lo pessoalmente - mentiu, na falta de uma 
explicao melhor.
- Oh. Quer que eu entregue ou prefere falar com lan?
- Bem, eu...
Sentiu o rosto esquentar, mas sobressaitou-se quando seu telefone celular comeou a tocar.
- Oh, ele sempre me assusta - disse a Laura, forando um sorriso. - Com licena, sim?
Ela tirou o pequeno aparelho da bolsa e o atendeu.
- Al?
- Naomi? Aqui  Ian MacGregor.
- Oh. - Dessa vez seu rosto corou. - Que curioso.
- O qu?
- Bem, eu estava prestes... Estou com o livro que voc pediu.
- timo, ento mataremos dois coelhos com uma caja-dada. Seus documentos tambm j ficaram completamente prontos. Queria avis-la de que irei entreg-los esta tarde. 
Posso passar pela livraria quando sair do escritrio.
- Na verdade, no ser necessrio. Eu...
- Oh, no h problema. Ela fica no caminho para minha casa, lembra?
- Sim, eu me lembro. Mas  que estou na recepo.
- De onde? Daqui? - Ele riu alto. - Ento fique a. Sem dar tempo para ela responder, ele desligou e a deixou olhando para o aparelho, confusa.
- Era seu irmo - disse a Laura.
- Sim, notei que era ele. - Laura riu. - As maravilhas da tecnologia... - acrescentou, perguntando-se o que significaria aquele tom rosado nas faces de Naomi.
lan apareceu na recepo quase em seguida. Sim, ela era mesmo exatamente como ele se lembrava. Aproximando-se, estendeu a mo, notando que Naomi ainda estava segurando 
o celular.
- Pode desligar agora - avisou com um sorriso estonteante.
- Oh, sim, claro - anuiu ela, notando que, de fato, no desligara o aparelho.
"Que timo", pensou. "Vexame nmero um."
- Eu sa para resolver alguns assuntos e aproveitei para vir entregar o livro de seu av.
- timo. Vamos subir.
- No quero interromper seu trabalho.
- No estar interrompendo nada.
Olhando para a irm, lan arqueou uma sobrancelha.
- Eu j estou de sada - Laura se apressou em dizer. - At logo, Naomi. - Ela se despediu com um sorriso e saiu.
- Deve estar ocupado - insistiu Naomi enquanto o seguia escada acima.
- Tenho alguns minutos disponveis. No pensei que fosse encontrar o livro to rapidamente.
- Temos timas fontes - explicou Naomi. - O preo foi aquele que lhe falei, o mais alto, infelizmente.
- Tudo bem. Meu av quer muito esse volume - afirmou lan, conduzindo-a por um corredor.
O perfume dela continuava divino, pensou ele. Mas dessa vez tomaria o cuidado de no fazer nenhum comentrio direto.
- Entre e sente-se - disse, abrindo uma das portas.
O escritrio de lan era elegante e bem clssico. Uma ampla janela dava vista para a rua, onde as folhas das rvores estavam comeando a adquirir o tom amarronzado 
tpico do outono.
Vendo-se sem uma escapatria educada, Naomi ocupou uma das duas cadeiras em frente  mesa.
- Vocs tm um bonito prdio.
- Meu pai o construiu antes de se casar com minha me. Ainda estava trabalhando no acabamento quando minha me abriu um escritrio aqui. Os dois comearam o escritrio 
de advocacia com um estilo mais aconchegante e familiar, combinando com o prprio estado de esprito deles na poca.
- Sem dvida, tiveram sucesso.
- Que tal um caf? Se bem que o que vou lhe servir no chegar nem aos ps do que tomei na Brightstone's - gracejou ele.
- No precisa se incomodar. Eu preciso mesmo...
- Vou pegar os papis - anunciou Ian.
No a deixaria ir embora antes que tivesse a chance de pr sua proposta em prtica.
Naomi conteve o flego quando Ian ocupou a cadeira a seu lado, e no a outra atrs da mesa, como ela esperava.
- Tenho cpias para voc - continuou ele. - Os originais tero de ficar no tribunal. O n nncio no  completamente oficial at que seja reconhecido pelo juiz, mas 
voc j pode se considerar scia majoritria da Brightetone Books. Meus parabns.
Naomi abriu a boca para agradecer com polidez, mas no conseguiu falar, devido  emoo. De fato, tudo que conseguiu fazer foi fechar os olhos.
- Tudo bem com voc? - perguntou Ian, em um tom gentil. Ela assentiu, mantendo a mo nos lbios at conseguir conter a vontade de chorar.
- Sim. Desculpe-me.
- No precisa se desculpar.
Tomou a mo dela antes mesmo de se dar conta do que fizera. Surpresa, Naomi levantou a vista para ele.
- Deve ter sido uma notcia importante para voc - Ian deduziu.
- A melhor que j recebi - ela confessou. - Pensei que estivesse preparada. Eu estou - corrigiu-se. - Estou preparada para o trabalho, mas  que ouvir algum dizer 
isso com todas as palavras foi um pouco demais para mim. Muito obrigada. - Ela sorriu. - Ainda bem que estou sentada.
- Sei como se sente. Foi como me senti no primeiro dia em que entrei neste escritrio e me sentei atrs desta mesa. Aquele dia foi muito importante para mim. Fiquei 
sentado ali durante meia hora, mais ou menos, apenas com um sorriso danando nos lbios. Senti uma espcie de euforia e de medo ao mesmo tempo.
- Exatamente - anuiu Naomi, relaxando a mo na dele. -  muita responsabilidade assumir algo que faz parte da tradio da famlia por tanto tempo.
- Sim, eu sei. O que pretende fazer para comemorar? - Comemorar? - Ela franziu o cenho. - Acho que apenas voltarei para o trabalho.
- No seria justo, depois de tanto esforo. Que tal um jantar?
- Jantar? Sim, vou preparar um quando chegar em casa. Ian olhou-a por um instante, ento meneou a cabea. Tudo bem, teria de ser um pouco mais direto.
- Naomi, eu gostaria de lev-la para jantar se voc no tiver outro compromisso esta noite.
- Oh. Bem... No, acho que no. Hum... - "Pelo amor de Deus, no comece a gaguejar!", gritou para si mesma, em pensamento. - No precisa se sentir obrigado a...
- Deixe-me colocar de outra maneira: quer jantar comigo esta noite? - perguntou Ian, adorando ver aquele tom rosado nas faces dela.
- Ah... sim, obrigada. Seria um prazer.
- timo. Sete horas est bom para voc?
- Sim.
- Quer que eu a apanhe na livraria ou em seu apartamento?
- Na... no meu apartamento. Vou lhe dar o endereo.
- J o tenho nos arquivos - lembrou ele.
- Oh, sim, claro. No fica longe da livraria. Vou a p para o trabalho todos os dias. Gosto da vizinhana.
"Pare de falar e saia logo, antes que acabe dando algum outro vexame!"
- Preciso voltar - anunciou, ficando de p. Sobressaltou-se ao notar que sua mo ainda estava entre as dele. - Para o trabalho - acrescentou. - Na livraria.
Ian no entendeu por que ela parecia to nervosa.
- Voc est bem?
- Sim, estou. Obrigada.
- Vou acompanh-la at a sada.
- No  preciso. - Aflita, Naomi afastou a mo da dele. - Conheo o caminho.
- Naomi - ele a chamou antes que ela passasse pela porta.
- Hum?
- O livro.
- Livro? Oh. - Amaldioando-se, ela voltou e entregou o livro a ele. - Acabei esquecendo de entreg-lo. At logo.
- At a noite.
- Sim, at a noite - ela disse e saiu em seguida.
Ian enfiou as mos nos bolsos, equilibrando-se sobre os. calcanhares. Talvez a finalizao do documento a houvesse deixado nervosa. Ou seria sua presena? Bem, no 
seria nada mal se a bela e eficiente Naomi Brightstone se sentisse um pouco nervosa na sua presena. Isso indicaria que ela no era indiferente a ele.
Voltando  mesa, apertou o boto do interfone e pediu  sua secretria que reservasse uma mesa no Rinaldo's para as sete e meia.
Guardando os papis na pasta, saiu assobiando para o tribunal. Fazia tempo que no se sentia to ansioso por um encontro.
lan estava terminando de ajeitar a gravata quando o telefone tocou. Ele o ignorou, no querendo perder tempo com nenhuma conversa. Ainda teria de passar em uma floricultura 
antes de ir apanhar Naomi.
Porm, quando ouviu no viva-voz da secretria eletrnica um "Por que diabos esse rapaz no est em casa?", dito com um carregado sotaque escocs, riu consigo e tirou 
o fone do gancho.
- Estou em casa, mas no por muito tempo.
- J estou acostumado. Meus netos nunca tm tempo para mim.
Ian sorriu, reconhecendo muito bem o tom de "vtima" do velho MacGregor.
- Sua av anda muito preocupada com voc.
-  mesmo?
Ian pressionou a lngua contra a bochecha. Conhecia aquela histria.
- Quando vir visit-la?
- Vov, estive a o ms passado para o casamento de Duncan, lembra?
- E da? Estamos em um novo ms. Ian suspirou.
- Verei o que posso fazer.
- Pois trate de ver logo. Acha que gosto de viver com sua av choramingando pelos cantos da casa? O que vai fazer, saindo a essa hora?
- Vou jantar com uma linda garota, e graas a voc.
- A mim? Mas no fiz nada. No v dizer para sua av que andei me intrometendo na sua vida. S o que fiz...
- Relaxe, homem - brincou Ian, rindo. -- No o acusei de estar tentando me arranjar um casamento. Desta vez, foi apenas coincidncia. Pediu que eu procurasse seus 
livros na Brightstone's durante minha reunio com Naomi, lembra?
- E da? Um homem no tem direito de se interessar por livros raros? - perguntou Daniel, fingindo indignao.
- Claro, vov. - Ian revirou os olhos. - Naomi levou a obra de Walter Scott ao meu escritrio hoje, e justo quando eu pretendia entregar a documentao pronta para 
ela. Ento aproveitei para convid-la para jantar.
- Bem, sendo assim...
Sentado  mesa de seu escritrio, em Hyannis Port, Daniel teve de se conter para no dar um grito de triunfo. O rapaz podia at ser esperto, porm no mais do que 
o av.
-  uma garota interessante, a jovem Naomi - disse, em um tom evasivo. -  educada, inteligente...
- E apenas um jantar, vov. No comece.
- Comear o qu? Estou apenas dizendo que  bom que v jantar com uma jovem interessante. Que mal h nisso?
- Mal nenhum. - Ian olhou para o relgio. - Preciso ir andando, seno chegarei atrasado.
- Ento o que est esperando? Saia logo, rapaz, mas lembre-se de telefonar para sua av qualquer hora dessas. Assim ela me deixar um pouco em paz.
Daniel desligou e esfregou as mos. Com Ian parecia estar sendo mais fcil do que com os outros.
O primeiro drama de Naomi comeou com o que vestir, depois com o que faria nos cabelos. Por fim, escolheu um vestido preto simples, com um discreto adorno em volta 
do decote, mangas justas e saia estreita, acima dos joelhos. Depois escovou os cabelos vigorosamente, deixando-os soltos sobre os ombros.
Esperava estar com uma aparncia elegante, mas casual o suficiente para no demonstrar quanto hesitara para escolher a roupa. Depois de se maquilar com cuidado, 
colocou o colar de prolas herdado de sua av e calou os sapatos pretos de salto alto. Eles poderiam at deix-la com os ps doloridos at o final da noite, mas 
pelo menos a fariam sentir-se muito feminina. Em seguida, aplicou atrs das orelhas algumas gotas do perfume que Ian elogiara.
- Pronto - disse a seu reflexo, no espelho. - Voc est tima, mas no aja como uma idiota, pelo amor de Deus. Um advogado irresistvel a convidou para celebrar 
um momento especial de sua vida. No estrague tudo com sua maldita timidez. Oh, meu Deus! - Ela conteve o flego ao ouvir a
campainha. - Tudo bem, respire fundo.
Fechando os olhos, respirou fundo dez vezes, como sempre. Estava mais calma e sorridente quando abriu a porta. Tentou se manter assim mesmo ao descobrir que Ian 
estava to lindo quanto um prncipe de conto de fadas.
- Que adorvel.
- Obrigado - agradeceu ele. - Voc tambm est. Naomi riu.
- Eu me referi s flores - explicou.
- Oh, sim. - Ian olhou para o buqu de rosas champanhe. - So para voc.
- Obrigada - ela agradeceu, aceitando o buqu. - Entre um pouco. Vou coloc-las em um vaso. Sinta-se  vontade.
No seria difcil, pensou Ian, observando a sala com uma decorao prtica e aconchegante, como o escritrio de Naomi.
Ela voltou com o vaso pouco depois, satisfeita por no haver corado, mesmo tendo sido as primeiras flores que ela recebera de algum que no pertencia  sua famlia. 
Quando estivesse sozinha, poderia suspirar quanto quisesse.
- Gostei de seu apartamento - disse Ian.
- Oh, eu quis uma decorao prtica, que combinasse com meu jeito. Tambm no quis perder a aparncia original do prdio. Gosto de construes antigas.
- Eu tambm - afirmou ele. - Na verdade, comprei uma casa antiga h poucos meses. O cho estala, as torneiras vazam de vez em quando, mas eu a adoro.
Naomi sorriu.
- Quer tomar um drinque antes de sairmos?
- No, obrigado.  melhor levar um casaco - aconselhou lan. - Est ficando frio l fora.
- Oh, est bem.
Naomi foi at o armrio onde guardava alguns casacos, no hall de entrada. lan a seguiu e ficou bem atrs dela, disposto a ajud-la a vestir o casaco.
Naomi ainda estava se felicitando por estar agindo com naturalidade quando, ao se virar, deparou-se com ele a centmetros de distncia. O sobressalto a fez perder 
o equilbrio, inclinando-a para trs.
lan amparou-a a tempo de ela no acabar dentro do armrio. Ento sorriu com charme. Sim, Naomi se sentia nervosa em sua presena. E isso no era adorvel?
- Sinto muito - mentiu. - Eu no queria assust-la.
- Eu no ouvi voc se aproximar - explicou ela.
- Deixe-me ajud-la com o casaco.
Naomi ficou surpresa com a intensidade das batidas de seu corao. Em outra poca, uma situao como aquela seria mais do que suficiente para ela sair correndo e 
ir afogar as mgoas em um pacote gigante de batatas fritas.
No presente, porm, ela era uma mulher sofisticada. Ou pelo menos queria ser. Por isso, entregou o casaco a lan e virou-se de costas, ordenando a si mesma para manter 
a calma.
Com mais rapidez do que propriamente elegncia, afastou-se dele e pegou a bolsa.
- Vamos?
No restaurante, sob o efeito de alguns goles de vinho, foi bem mais fcil demonstrar naturalidade.
Ian era uma companhia maravilhosa. De fato, Naomi ficou surpresa ao descobrir quantas coisas os dois tinham em comum.
- Gosto do ritmo tranqilo e envolvente das msicas new age - disse ela, enquanto conversavam sobre preferncias musicais. - Por isso sempre deixo algumas tocando 
no som ambiente da livraria. - De vez em quando, tambm ponho msicas tpicas. Elas animam a clientela sem incomodar.
- Voc foi ao festival celta no ltimo vero?
- Passei quase um dia inteiro por l - respondeu Naomi.
- Eu tambm. - Ian ofereceu a ela um pedao de seu cogumelo portabello grelhado. - Achei as msicas maravilhosas e tambm as danas.
- Eu adoro msica celta. - Sem pensar, Naomi se inclinou para a frente, aceitando o cogumelo que ele oferecera no garfo. - Hum, isso est muito bom.
- Quer mais um pouco?
- No, obrigada. Tenho um fraco por qualquer comida italiana.
- Eu tambm - falou Ian. - Alis, sei fazer uma deliciosa galinha picala.
- Gosta de cozinhar?
Ele assentiu, comendo outra poro de cogumelo.
- Eu tambm - continuou Naomi, impressionada com a quantidade de vezes em que aquela frase estava se repelindo ao longo da conversa. - Poderei fazer meu molho de 
queijo para acompanhar sua galinha pcata qualquer dia desses.
- Ento precisamos marcar esse dia quanto antes. Quando Naomi respondeu apenas com um sorriso, Ian se aconselhou a ir com mais calma. Seu av no era o nico MacGregor 
dado a "planos mirabolantes". E ele j tinha um em mente.
- Na verdade, Naomi, tenho uma proposta de negcios para lhe fazer.
- Negcios?
Ela franziu o cenho, enquanto os pratos de entrada foram retirados, antes de o garom servir os seguintes.
- Sim. Espero que a idia lhe parea to agradvel quanto pareceu para mim. Quero remodelar um dos cmodos vazios da minha casa e transform-lo em uma biblioteca. 
Tenho um design em mente, mas gostaria de ouvir suas opinies. Tambm agradecerei se puder me ajudar a organizar minha coleo de livros.
- Sim, com prazer.
Naomi tentou disfarar o desapontamento, dizendo a si mesma que seria melhor assim. Claro que Ian s se interessaria por ela profissionalmente. O que mais ela esperava?
- Est interessado em livros raros por motivos comerciais?
- No, no. Quero apenas uma biblioteca, no um museu.
- Ele riu. - Pensei em um lugar aconchegante, com uma boa variedade de livros. Quero comear com os livros que j tenho, depois partirei para as novidades.
- Ser um prazer ajud-lo. Se me der uma lista com o que j tem, ou com o que est procurando, comearei a trabalhar nisso amanh mesmo.
- timo. Tem algum tempo disponvel para ir  minha casa, ver o aposento e ouvir sobre o design que tenho em mente?
- Sim, quando voc quiser.
- Que tal no sbado s seis da tarde?
Naomi achou o dia e o horrio um tanto inusitados, mas se limitou a assentir, aceitando a proposta.
O vento estava intenso quando Ian parou o carro em frente ao prdio onde Naomi morava. As rvores faziam uma espcie de bale, enquanto, no rdio, a msica suave 
parecia embal-las invisivelmente.
Para Ian, a noite pareceu perfeita.
- Obrigada pelo jantar - Naomi agradeceu, quando ele abriu a porta do carro para ela. - Foi uma tima comemorao - acrescentou, segurando os cabelos que teimavam 
em lhe cobrir o rosto.
- Para mim tambm.
Naomi ficou surpresa quando Ian segurou sua mo, conduzindo-a at a entrada do prdio. Sem dvida, aquilo parecia mais ntimo do que segurar seu brao.
Deveria convid-lo para entrar? No, nem pensar. No havia se preparado para algo assim, e no queria acabar acrescentando outro vexame  sua desastrosa coleo.
Achando que seria indelicado pedir que ele no fosse em frente, deixou que lan a acompanhasse at a porta de seu apartamento. Atrapalhando-se um pouco para encontrar 
as chaves na bolsa, sorriu para ele quando finalmente conseguiu encontr-las.
- Bem, obrigada mais uma vez pela noite agradvel.
Quando foi abrir a porta, derrubou as chaves no cho. Os dois quase colidiram ao se abaixarem ao mesmo tempo para pegar o objeto. lan hesitou um instante e entregou 
o chaveiro a ela.
Naomi estava prestes a agradecer quando lan se aproximou e beijou-a nos lbios. Por um instante, ela no moveu sequer um msculo, levando lan a pensar se entendera 
errado o brilho que vira segundos antes nos olhos dela. Mas quando os lbios macios se abriram sob os seus, em meio a um suspiro, ele no resistiu. Entrelaou os 
dedos naqueles cabelos sedosos e, com um breve gemido, puxou-a para si.
Naomi sentiu como se o cho houvesse sumido debaixo de seus ps. No entanto, foi impossvel ter certeza de qualquer coisa, com aqueles lbios firmes exigindo uma 
resposta dos seus.
As chaves caram mais uma vez no cho, provocando um breve tilintar, antes de ela levar as mos ao peito de lan. Um peito amplo, forte, protetor... Aos poucos, deixou-se 
levar pelas sensaes e colou seu corpo ao dele.
Ficou zonza, como se tudo aquilo no fosse real. No era possvel que ela, que at pouco tempo se considerava um "patinho feio", estivesse ali, nos braos de um 
homem maravilhoso, sendo beijada a ponto de perder o flego.
Quando lan se afastou devagar, ficou esperando Naomi abrir os olhos e voltar a fit-lo. Deliciou-sc ao ver um brilho de desejo nos olhos acinzentados. Os lbios, 
com o que restava do batom ligeiramente borrado, pareceram-lhe mais convidativos do que nunca. De fato, teve de se conter para no esmag-los em outro beijo ainda 
mais ardente.
Ao segur-la pelos ombros, sentiu Naomi estremecer.
- Preciso fazer isso de novo.
- Oh.
Naomi o fitou com um olhar to surpreso que o fez sorrir. Ian beijou-a novamente, dessa vez com mais intensidade. Sentiu a mesma onda de desejo que experimentara 
durante o primeiro beijo. O leve gemido de Naomi deixou-o maluco.
A hesitante carcia dos dedos dela em sua nuca, enquanto os lbios tmidos se insinuavam sob os seus, fez com que ele sentisse o sangue correr mais rpido nas veias. 
Ciente de que estava prestes a exigir mais, achou melhor se afastar.
Sem dizer nada, abaixou-se e pegou as chaves. Ento abriu a porta para ela.
- Boa noite, Naomi.
Sem desviar os olhos dos dela, Ian entregou-lhe as chaves.
- Boa noite - Naomi respondeu. - Obrigada mais uma vez.
Ela entrou rapidamente no apartamento e fechou a porta atrs de si.
Ian continuou no mesmo lugar por algum tempo, pensando se no errara ao beij-la daquela maneira precipitada. Ou teria errado ao interromper o beijo? Ento ouviu 
o som das chaves caindo novamente no cho, do outro lado da porta.
Com um sorriso satisfeito, ele saiu andando pelo corredor. No, no errara. Precisaria voltar a beijar a encantadora srta. Brightstone. E quanto antes melhor.~

23

No tem sequer um chocolate?
Parando de mexer a panela com molho, lan olhou por cima do ombro para sua prima Jlia. Ela estava linda, ainda que em um avanado estgio da gravidez e, por isso 
mesmo, tambm mais impaciente do que nunca.
- Voc comeu todos da ltima vez em que esteve aqui. Estreitando o olhar, Jlia continuou a vasculhar os armrios da cozinha.
- Poderia pelo menos ir ao supermercado de vez em quando, no?
- H frutas frescas na geladeira, mas, infelizmente, nenhum chocolate. Prove isso - pediu, pegando um pouco do molho ern uma colher e oferecendo a ela.
Chegando  concluso de que sua busca seria mesmo intil, Jlia foi at ele e colocou a mo por baixo da colher, para no deixar cair o molho enquanto o experimentava.
- Est timo - elogiou. - E a sobremesa? Ian riu, colocando a colher na pia.
- Cullum nunca lhe d comida?
- No  culpa minha.  o Jnior aqui quem quer chocolate. - Ela apontou para o ventre avantajado. - Acabei de receber um chute de protesto. No tem nem mesmo um 
docinho qualquer?
- Sinto muito, mas meu estoque acabou. Com Travis era sorvete, no era? Litros e litros.
- Ele ainda adora sorvete - disse Jlia, com um sorriso maternal. - A primeira palavra que ele disse foi "s", ento vi que o menino tinha futuro porque daquilo 
para "vete" seria um passinho. - Quando lan riu alto, ela falou: - Est com um bom humor e tanto ultimamente.
- Sim, eu sei. Conheci uma garota especial.
- Sim, essa  a resposta costumeira. Naomi Brightstone?
- Ela mesma. Ei, como sabe?
- Laura e eu andamos fofocando - confessou Jlia, com seu costumeiro tom sincero.
- Bem, ela logo estar aqui, portanto...
- Cullum e Travis j devem estar chegando para me apanhar. No vou estragar seu encontro, prometo. Onde est o projeto da biblioteca?
- L em cima. Eu o estava examinando ontem  noite.
- Ora, quero dar uma olhada nisso.
- Vamos l.
lan desligou o fogo e passou o brao pelos ombros dela, enquanto se encaminhavam para a escada.
- Se no fosse por voc e Cullum, eu nunca teria conseguido esta casa.
- Ei, voc tambm no ficou de braos cruzados - lembrou ela. - A reforma ficou tima, lan. Sei que muitas pessoas acham besteira um rapaz solteiro morar em uma 
casa grande como esta.
- Mas voc no - completou ele.
- No h nada melhor do que uma casa para morar. Voc tem mais chances de mud-la quando e como quiser. - Deslizando a mo pelo corrimo, ela continuou: - Esta casa 
ficou muito parecida com voc. Alegre, dinmica, com um olho no passado e outro no futuro. - Ela suspirou. - Acho melhor eu no subir esta escada - disse, olhando 
para cima. - No estou mais enxergando meus ps ultimamente.
- Eu trarei o projeto aqui para baixo. Por que no se senta um pouco na sala?
- No preciso me sentar - falou Jlia, colocando as mos na altura dos rins. - Preciso de chocolate.
- Da prxima vez, terei chocolate para lhe oferecer, prometo. Enquanto Ian foi pegar o projeto, Jlia ficou andando pela sala. Fora sincera ao dizer que a casa havia 
ficado muito parecida com seu primo. Sentia-se satisfeita por ha v-lo ajudado a escolh-la e depois por ver Ian se apaixonar pelo lugar. Seu primo precisava de 
um lar.
- Calma, Jnior - murmurou e levou a mo ao ventre quando o beb chutou com mais fora. - Papai j deve estar chegando, e provavelmente trazendo uma grande caixa 
de bombons para ns.
Ao ouvir a campainha, ela foi atend-la o mais rpido que o peso de Jnior lhe permitiu.
A primeira reao de Naomi, quando Jlia abriu a porta, foi de puro espanto.
- Ah, voc deve ser Naomi - disse ela, com um sorriso simptico. - Oi, sou Jlia, prima de Ian.
- Sim, eu sei. Ouvi uma palestra sua durante um almoo da revista Mulheres e Empresrias h alguns anos.
- Oh, sim. Bem, com certeza eu estava bem mais magra naquela poca. -Tocando o ventre, Jlia deu um passo atrs. - Entre. Ian acabou de subir para pegar o papel 
com o design da biblioteca. Meu marido e a equipe dele faro a maior parte do trabalho.
Ela era bonita, pensou Jlia. Um pouco tmida, mas com um corpo maravilhoso e belos olhos. Precisava observar os detalhes porque suas primas Laura e Gwen iriam querer 
saber sobre eles depois.
- Ento voc se tomou a nova gerente-geral da Brightstone's?
- Sim - confirmou Naomi.
- Vocs vendem bombas de chocolate no caf da livraria?
- Sim, e so maravilhosas. Jlia gemeu.
- Calma, Jnior. Ele est desesperado por chocolate - explicou com um sorriso quando Naomi lhe lanou um olhar preocupado. - Mas ainda ter de ficar aqui dentro 
por dois meses, no se preocupe.
- Ele quer chocolate? Bem, acho que tenho um pacotinho com bolinhas de chocolate aqui na bolsa...
Jlia se adiantou e segurou o brao dela.
- Est falando srio?
- Sim. Sempre deixo um chocolate na bolsa para o caso de no ter tempo de almoar.
Aquilo era outra coisa que Naomi aprendera nos ltimos tempos: no era preciso se privar de chocolates e outras coisas do gnero. Bastava saber se controlar para 
no cometer excessos.
Abrindo a bolsa, encontrou o pacotinho.
- Oh, se me der isso - disse Jlia com urgncia - , juro que darei seu nome ao beb. Seja ele menino ou menina.
- Foi o que me disse quando estava esperando Travis e quis meu sundae de caramelo - falou Ian, terminando de descer a escada.
- Ei, seu nome no  Travis? - perguntou Jlia, com ar inocente.
Naomi riu, entregando o pacotinho de doce a ela.
- Divirta-se.
- Nunca esquecerei disso - prometeu Jlia, abrindo a embalagem quase com desespero e jogando um punhado de bolinhas na boca. - Hum... Isto est maravilhoso... Esto 
vendo? Ele est feliz agora.
- Ele est chutando? - perguntou Ian, aproximando-se. Colocando a mo na barriga da prima, ele riu.
- Ei, e direto do meio de campo para o gol - brincou. - Sinta isso, Naomi.
Antes que ela pudesse reagir, Ian colocou a mo dela sob a dele, na barriga de Jlia. Passado o embarao inicial, Naomi realmente sentiu o beb mexendo.
- Oh! Isso  maravilhoso - murmurou.
Quando seu olhar encontrou o de Jlia, as duas trocaram uma espcie de sentimento que somente duas mulheres poderiam compreender.
- A est Cullum - anunciou Jlia, quando ouviram duas curtas buzinadas do lado de fora. - Eu disse a ele para tocar a buzina se Travis estivesse dormindo no banco 
de trs. Vou levar o esquema do design, lan. Eu e Cullum o examinaremos esta noite. - Pegando o rolo de papel da mo do primo, ela sorriu para os dois. - Foi um 
prazer conhec-la, Naomi. E obrigada pelo doce.
- E uma pena que no possa conhecer Travis hoje - lamentou lan, enquanto os dois olhavam Jlia caminhar em direo ao carro. - Ele  incrvel. Mal fez dois anos 
e j fala feito um papagaio.
- Voc gosta de crianas, no?
- Sim, muito. - lan fechou a porta quando o carro partiu. - Na minha famlia,  melhor gostar delas, se no quiser ficar maluco. Temos uma poro delas pulando por 
a e outras sempre a caminho. Jlia est esperando o segundo e meu primo Mac e a esposa esto perto de ter o primeiro. Obrigado por ter vindo - acrescentou, de repente, 
segurando-a pelos ombros e beijando-a nos lbios.
Quando Naomi deu um passo atrs, ele arqueou uma sobrancelha.
- Algum problema?
- No, nenhum.
Exceto pelo detalhe de que, ao chegar, ela j havia se convencido de que lan s a beijara depois do jantar porque era o que as pessoas costumavam fazer ao fim de 
um encontro.
- Ento deixe-me lhe servir um clice de vinho.
- Acho melhor no. Eu vim dirigindo. Pensei que iramos apenas olhar o aposento que voc quer reformar.
lan conduziu-a por um corredor e um delicioso aroma de molho lhe invadiu as narinas. Quando entraram na cozinha, notou que ele estava preparando algum tipo de massa.
- Oh, est esperando algum - deduziu, ao notar o tamanho das panelas. - Prometo que no vou demorar.
lan parou de manusear a garrafa de vinho tinto e olhou para ela.
- Naomi. Era voc que eu estava esperando - disse com pacincia.
- Oh.
Depois de encher dois clices, entregou um a ela.
- Pode tomar. At voc ir embora, o efeito mais forte j ter passado. Depois de convid-la para vir at aqui no sbado  noite, achei que o mnimo que eu poderia 
fazer seria lhe oferecer um jantar.
- No precisava ter todo esse trabalho. Vim apenas para ver seu projeto.
- Hum-hum. - Ian se encostou no balco. - Ser que terei de ficar pensando em uma desculpa toda vez que quiser jantar com voc?
- Eu... no. Claro que no.
Naomi olhou para o vinho, antes de voltar a fit-lo.
- Talvez seja melhor eu perguntar se est interessada na minha biblioteca ou mais especificamente em mim - salientou ele.
Naomi desviou o olhar do dele no mesmo instante. Aquela timidez era realmente adorvel, pensou Ian.
- Bem, de minha parte, estou muito atrado por voc. Gosto de sua companhia e gostaria de passar mais tempo com voc. - Deixando o copo de lado, aproximou-se e roou 
os lbios nos dela. - Quero conhec-la melhor. E tambm quero voc.
A respirao de Naomi se tornou acelerada.
- Voc me quer para qu?
Com os lbios ainda sobre os dela, Ian abriu os olhos. Afastando-se um pouco, balanou a cabea, como se no estivesse acreditando no que ouvira. Ento deixou uma 
trilha de beijos ao longo do queixo dela.
Voltou a beij-la em seguida, insinuando a lngua por entre os lbios dela. Aturdida, Naomi arregalou os olhos por um instante, mas logo se viu rendida  sensualidade 
de seu prprio corpo e ao calor dos braos de Ian.
Seria mesmo verdade que ele a desejava?, perguntou-se, sentindo as pernas trmulas. Um delicioso calor envolveu seu corpo quando ele tornou o beijo mais ntimo, 
colando o corpo ao dela.
Ian no queria apressar as coisas, mas a resposta de Naomi o deixara maluco. Encostando-a junto ao balco, esmagou os lbios macios em um beijo abrasador. Deslizou 
as mos pelos quadris arredondados e foi subindo devagar, at encontrar os seios eretos e deliciosamente arredondados.
Sentiu o corao de Naomi batendo forte abaixo de sua mo.
- Por que no deixamos para nos conhecer melhor depois? - perguntou, roando os lbios na curva sensvel do pescoo dela. - Nossos sonhos, histrias e esperanas, 
tudo isso pode esperar. Mas eu no, Naomi. Eu quero voc.
- Sim. No. Espere um pouco.
Naomi estava assustada com a intensidade de seu prprio desejo.
- Vamos optar pelo "sim" - sugeriu Ian.
- No, por favor. - Ela levou as mos ao peito dele, tentando afast-lo com delicadeza. - Por favor - repetiu. - Sinto muito.
Felizmente, s comeou a tremer quando ele se afastou.
- Acho que apressei um pouco as coisas - Ian admitiu.Tomou um generoso gole de vinho. - Pensei que estivssemos indo no mesmo ritmo.
Ele ficara aborrecido, pensou Naomi. Estava tentando no demonstrar, mas havia um brilho de fria nos olhos azuis.
- Acho que no estamos no mesmo ritmo - confirmou ela. - Pensei que houvesse me convidado para vir at aqui apenas para olhar o projeto.
- No entendeu por que eu a beijei daquela maneira na outra noite? - indagou Ian. - E o modo como voc correspondeu ao beijo? No me diga que tambm no entendeu?
Ela estava certa. Ian havia realmente ficado aborrecido.
- No sei.
Sua voz tornou-se tensa e ela cruzou os braos, lutando para conter uma estranha sensao de embarao e dvida ao mesmo tempo.
- Eu no sei - repetiu. - No tenho nenhuma experincia nesses assuntos. Sinto muito se nunca fao o que voc espera que eu faa.
O aborrecimento de Ian cedeu lugar a um ar surpreso.
- Voc nunca...? Nunca?
- No. Preciso ir embora - anunciou Naomi, sentindo que o embarao vencera sua luta interior.
Passando por ele, seguiu em direo  sala. - Naomi, espere. Droga! - Ian alcanou-a no hall. - Espere! - Segurou-a pelos ombros. - Espere um instante, sim?
- No vou pedir desculpas novamente - avisou ela, por entre os dentes.
- No. Desta vez, sou eu quem pedir se me der um minuto - declarou Ian.
Soltando-a, ele passou as mos pelo rosto. Precisava voltar a respirar normalmente. Ficara aturdido e, para seu maior espanto, excitado com a revelao de Naomi.
- Desculpe-me - disse a ela.
Naomi nunca havia sido tocada. Deus, e pensar que ele fora com tanta "sede ao pote".
- Naomi, sinto muito se fui precipitado. Devo t-la deixado assustada.
- Sim, um pouco.
- No agirei assim de novo. Prometo. - Tocou o rosto dela com delicadeza. - Nem vou for-la a nada. Por que no damos um passo atrs e esquecemos o que aconteceu?
Como ele poderia pedir a ela que esquecesse tudo aquilo?, Naomi se perguntou. Depois de olh-lo em silncio por um instante, fechou os olhos e respirou fundo dez 
vezes.
- E que tipo de passo atrs seria esse?
- Tomaremos o vinho l em cima, enquanto olhamos o cmodo que quero transformar em biblioteca. Vou lhe mostrar uma cpia do projeto e depois jantaremos.
- No est bravo?
- No, claro que no. - Ian sorriu. - E espero que voc tambm no esteja. Promete ficar e me dar outra chance de... de conhec-la melhor?
- Sim, est bem. - Naomi mostrou um breve sorriso. - Eu ficarei.

- timo. Vou pegar o vinho.
Ian voltou para a cozinha, pensando em como um banho gelado lhe faria bem naquele momento. Levaria algum tempo para conquistar a confiana de Naomi. E com certeza 
no melhoraria a situao se dissesse a ela que passara a desej-la ainda mais ao saber que ela nunca tivera ningum.
- Cuidado, MacGregor - murmurou para si mesmo, pegando os clices. - Muito cuidado.

24

No adiantaria continuar sentindo-se embaraada por haver contado a lan que ela era inexperiente em questes amorosas. Claro que uma mulher mais sensata teria dito 
apenas que queria mais algum tempo ou que no estava certa quanto aos prprios sentimentos. Mas ela, como sempre, metera os ps pelas mos.
Algumas mulheres chegariam at a trocar mais alguns beijos ousados, antes de confessarem que no queriam ir alm. "Depois, meu bem. Quem sabe depois?", seria o que 
provavelmente diriam.
Tais promessas eram feitas com um tom de voz sensual, mantendo a "vtima" hipnotizada sob o efeito de um olhar sedutor e de unhas longas e perfeitamente manicuradas 
passeando devagar por seu rosto.
Naomi se convenceu de que aquele tipo de habilidade feminina era algo que ela nunca teria nem em seus mais remotos sonhos, e muito menos na realidade.
Ainda assim, no adiantaria ficar embaraada por haver confessado que nunca estivera com algum em um carter mais... ntimo. De fato, aquilo at servira para amenizar 
o clima tenso que comeara a nascer entre ela e lan.
O lado poltico de lan era realmente bastante eficaz, pensou ela. Tanto que, ao chegarem ao cmodo onde seria a biblioteca, nem parecia que os dois haviam trocado 
um beijo trrido na cozinha, minutos antes.
Sentira-se to embaraada que ainda estava tendo dificuldade para se lembrar daquilo, mesmo depois de alguns dias. Melhor assim, disse a si mesma. Pelo menos isso 
a livrava de sentir aquelas perturbadoras sensaes pelo corpo. Trabalhar era um meio muito mais interessante e menos perigoso de passar o tempo.
Com as mos cruzadas diante de si, continuou de p, observando a rea que ela e sua equipe haviam preparado para a realizao do novo evento mensal da Brightstone's, 
intitulado: "A Noite da Mulher".
A autora convidada daquela noite de quarta-feira estava mantendo a platia bem ocupada com comentrios espirituo-sos e a leitura de pequenos trechos de seu livro 
Como Sobreviver a Si Mesmo.
Risos espontneos ecoavam pelo salo, atraindo a ateno de alguns transeuntes que acabavam entrando na livraria para ver o que estava acontecendo.
Naomi previu que teria um bom lucro naquela noite, depois dos autgrafos. Sem deixar de prestar ateno em cada detalhe, aproximou-se da mesa onde seriam dados os 
autgrafos. Os livros estavam impeavelmente arrumados e as canetas  disposio. Um belo arranjo de flores se encontrava em uma mesinha ao lado, e seria oferecido 
 autora ao final da noite.
Pelo visto, sua primeira noite de eventos estava sendo um grande sucesso. Depois de murmurar a seu coordenador de eventos para que se certificasse de que o nome 
da autora seria anunciado nos alto-falantes, ao final da palestra, virou-se. E esbarrou diretamente em Ian.
- Desculpe-me. - Ele a segurou pelos braos para ajud-la a manter o equilbrio. - Parece que tenho o hbito de viver assustando-a desse jeito.
- Eu no estava olhando...
Naomi o fitou nos olhos e, de repente, conseguiu se lembrar muitssimo bem do beijo que haviam trocado no ltimo encontro.
- Conseguiu reunir uma boa quantidade de pessoas esta noite.
- Sim. - Ela olhou para as pessoas, que haviam acabado de explodir em outra gargalhada. - Ela  SheJIy Goldsmith.
- Eu vi o anncio no jornal. A idia foi sua?
- Trabalhei junto com meu coordenador de eventos - explicou Naomi. - Veio assistir  palestra?
Ele arqueou uma sobrancelha quando as pessoas comearam a aplaudir.
- Se vim, devo estar um pouco atrasado.
- Oh, com licena um instante.
Ela se afastou e foi cumprimentar a autora com um aperto de mos. Naomi tambm possua um tino poltico, pensou Ian. O "obrigada" dito ao microfone foi seguro e 
caloroso, antes de se seguir a um convite ao pblico para que se dirigisse  mesa de autgrafos.
Ela estava muito sexy trajando um camiso de seda azul-turquesa e uma confortvel cala preta de crepe. Os cabelos estavam presos em um coque elegante junto  nuca, 
com alguns fios cados sobre as tmporas.
Ao olhar para aquele pescoo delicado, Ian lembrou-se de como fora bom roar seus lbios nele. Ento balanou discretamente a cabea, censurando-se por estar pensando 
aquilo..
Sara do escritrio decidido a ir direto para casa. E o que estava fazendo ali? Por que cedera  tentao de passar pela livraria s para ver Naomi? No havia prometido 
a si mesmo que daria mais espao e tempo a ela?
No entanto, ali estava ele, somente alguns dias depois de quase haver feito amor com Naomi na cozinha de sua casa, sorrindo e implorando por um pouco de ateno. 
Aquilo era desmoralizante demais. Onde estava seu sangue MacGregor? Provavelmente perdido no brilho daqueles olhos acinzentados, concluiu.
Notando que a eficiente srta. Brightstone ficaria ao lado da autora durante o restante do evento, Ian decidiu peram-bular um pouco pela livraria.
Pelo canto dos olhos, Naomi o viu se afastar e tentou conter o impulso de correr at ele. Pelo visto, lan fora at ali somente por curiosidade. Depois de satisfaz-la, 
nada mais justo do que ir embora.
Voltando a assumir seu ar profissional, virou-se quando algum tocou seu ombro para cumpriment-la.
J passava das nove horas quando o evento finalmente terminou. Naomi considerou as duas horas do evento muito produtivas. Valera a pena aquelas quarenta horas de 
trabalho que haviam tido para preparar a livraria.
Acompanhando sua convidada at a porta, despediu-se com um sorriso e com outro agradecimento.
Dali em diante, tudo que mais queria era um lugar para se sentar e fechar os olhos por pelo menos quinze minutos.
- timo trabalho.
lan no perdera tempo ao v-la ficar sozinha. Trazia na mo uma sacola com o logotipo da Brightstone's.
- No pensei que ainda estivesse aqui - falou Naomi, disfarando a surpresa.
- Fiquei andando pela livraria durante o evento - explicou ele, com um sorriso charmoso. Mostrando a sacola, completou: - Queria acrescentar mais alguns livros  
minha coleo.
- A Brightstone's agradece pela sua preferncia - brincou Naomi, repetindo a frase que costumavam dizer aos clientes. - Encontrou tudo que queria?
"Encontrei voc, no encontrei?"
- Parece que sim - foi tudo que lan respondeu. - Como servio extra, realizei um pouco de espionagem para voc.
- Espionagem?
- Bem, na verdade, andei ouvindo algumas conversas por a. Conseguiu deixar seus clientes bastante satisfeitos. Havia um grupo de mulheres examinando a nova seo 
de fico. Estavam elogiando o evento desta noite e j falando em comparecer ao do prximo ms.
- timo. - Naomi sorriu. - Era essa minha inteno.

- J terminou ou ficar por aqui mais algum tempo?
- Sim, eu j terminei. Graas a Deus. - Ela suspirou, aliviada.
Ian riu.
- Que tal eu comprar uma xcara do maravilhoso caf da Brightstone's para voc? - Ao v-la hesitar, Ian resolveu deixar de lado a promessa que fizera a si mesmo 
e falou: - Eu gostaria de lhe mostrar as mudanas que eu e Culium fizemos no design original da biblioteca.
- Est bem. Quer ir l para cima?
Onde ele poderia ficar sozinho com ela?, Ian se perguntou. No sabia se seria uma boa idia.
- No caf estar timo para mim.
- Est bem. Mas o caf ser por conta da Brightstone's - avisou ela. -  o mnimo que podemos fazer por um cliente to fiel.
Naomi seguiu na frente, notando que o canto reservado para as crianas precisaria de uma boa arrumao. Se Ian no estivesse com ela, com certeza para ria para recolher 
os brinquedos e os livros espalhados.
- Est cansada? - ele perguntou com gentileza.
- Hum? Oh, na verdade estou apenas um pouco ansiosa, s isso. Autorizei o oramento para a propaganda e a promoo deste evento. Quase pude ver as caretas que meu 
pai estava fazendo ao telefone.
- Mas ele lhe deu um bocado de liberdade, no?
- Sim. Ele confia em mim. Ser bom poder mostrar a ele que no cometemos um erro.
Quando chegaram ao caf, ela ficou satisfeita ao ver que vrios clientes ainda continuavam na livraria. Um grupo de mulheres reunidas em uma mesinha estava rindo 
e falando sobre o livro de Shelly Goldsmith.
- Vamos at ali. - Ian levou Naomi at outra mesa, em um canto mais reservado. - Foi sorte termos encontrado uma mesa vaga. Parece que a Brightstone's se tornou 
um lugar ainda mais freqentado ultimamente.
- Sim,  verdade. - Ela sorriu.
- Est deixando sua marca registrada neste lugar, Naomi. Eu a observei enquanto estava trabalhando. Voc  muito boa no que faz.
Naomi no soube se sentiu-se mais lisonjeada com o elogio ou com o fato de Ian t-la observado sem que ela visse.
- Isso  tudo que eu sempre quis fazer - confessou a ele.
- Alguns de ns j nascemos com uma determinada vocao. Essa  a sua.
- Sim, . - Naomi fez um sinal para a garonete que passava por eles. - Estamos com muito movimento hoje, no, Tracy?
- No parei nem um instante desde as cinco e meia. Deseja alguma coisa, srta. Brightstone?
- Dois cappuccinos, por favor - pediu Naomi, olhando para Ian e vendo-o assentir.
- Pode deixar. Deveria provar um pedao daquele "pecado de chocolate", srta. Brightstone. Tambm est trabalhando h vrias horas.
- Oh, eu...
- Ns dividiremos um pedao, obrigado - Ian respondeu por ela.
- Oh, Deus. Seis milhes de calorias - exagerou Naomi, fazendo-o rir.
- Querida, aposto que voc perdeu mais do que isso durante esse evento. De quem herdou sua aparncia?
O "querida" a havia deixado meio perdida e o tom estranho da pergunta contribura ainda mais para isso.
- O que disse?
- A cor de seus cabelos. Tem cabelos muito negros, como os da minha me. Tem sangue indgena na famlia?
-- Sim - respondeu Naomi. - Meu pai  descendente longnquo da tribo cherokee. Na minha famlia, h uma mistura deles com italianos, franceses, ingleses e galeses, 
por parte da minha me. Ela adora dizer que os filhos dela so mestios.
- Tenho sangue comanche por parte de me, mas Laura foi quem mais herdou a cor indgena da famlia.
- Sua irm  muito bonita.
- Sim,  verdade.
- Alis, toda sua famlia tem traos bonitos - salientou Naomi. - Sempre que vejo a foto de algum de vocs, em um jornal ou revista, fico estarrecida. Voc se parece 
com seu pai. Acho que no futuro voc ser uma mistura do respeitvel estadista com o "Gato de Harvard".
Ela arregalou os olhos quando Ian fez uma careta, ao ouvir o apelido. Deus, como tivera coragem de dizer aquilo?, ela se perguntou.
- Desculpe-me - disse a ele. - Que coisa mais idiota para dizer.
Ian inclinou a cabea, surpreso ao notar que ela ficara mais embaraada do que ele.
- Se negou o que disse ento  porque no sou nem um pouco atraente nem tenho esperana de ter sucesso na vida pblica?
- No, claro que voc  atraente e...
Naomi se interrompeu, tendo a certeza de que o Grand Canyon no seria fundo o suficiente para ea se enterrar de vergonha.
Ian riu alto. Tanto que Tracy sorriu ao se aproximar e ver a cena. J estava mesmo no tem de a srta. Brightstone arranjar uma companhia interessante.
- A imprensa adora inventar histrias e imagens sensacionalistas para ganhar dinheiro com isso - disse ele, partindo um pedao do bolo de chocolate e oferecendo 
a ela. - J me acostumei com isso.
Naomi o aceitou, lembrando-se que Ian fizera a mesma coisa quando haviam jantado juntos.
- No sei se eu conseguirei me acostumar - disse ela. - Tenho lidado com a imprense. Divulgar os eventos da livraria, dar entrevistas, esse tipo coisa. E necessrio 
para o negcio, rms no posso dizer que   me acostumei com isso.
Ian provou o bolo.
- O nome deste bolo  muito aprpriado. Ele  mesmo um pecado.
- Pois ter de pecar sozinho - falou Naomi, tomando um gole do cappuccino. - Eu vou parar por aqui.
- S mais um pedao - murmurou ele, oferecendo outra tentadora poro a ela.
Quando Naomi o aceitou, Ian ficou satisfeito ao ver que conseguia tent-la. Por isso mesmo, se quisesse sobreviver  noite, seria melhor voltar a tratar de negcios.
- Veja o projeto e me diga o que acha. - Abrindo a pasta, tirou um papel e abriu-o sobre a mesa. - Vou lev-lo para Cullum amanh, para que ele possa comear imediatamente.
- Voc trabalha rpido.
- Geralmente - insinuou ele, ento voltou a olhar o desenho. Naomi tirou os culos da bolsa e os colocou, deixando Ian hipnotizado.
- Est maravilhoso. Oh, deixou o console, como eu sugeri.
- Foi uma tima sugesto. Obrigado.
- Fico feliz por haver ajudado de alguma maneira. Tem muito espao disponvel e isso  muito bom. A lareira e as poltronas confortveis deixaro o lugar muito convidativo 
para uma boa leitura.
Ian imaginou os dois fazendo exatamente aquilo. Sentados nas poltronas confortveis, lendo, tomando vinho e ouvindo msica suave ao fundo. Ento deixaria seu livro 
de lado a certa altura, beijaria Naomi e...
"Controle-se, MacGregor." Limpando a garganta, perguntou:
- Faria alguma outra mudana?
- No. Acho que est perfeito assim. Eu adorei, Ian.
- Eu tambm. - Ele sorriu.
O discreto aviso de que a livraria fecharia dali a quinze minutos fez Naomi levantar a vista.
- Deus, no imaginei que fosse to tarde - disse.
- Tem mais alguma coisa para fazer?
- No. Na verdade, prometi a mim mesma que me daria folga at o meio-dia de amanh.
- Quer ir ao cinema? - perguntou Ian, em um impulso.
- Cinema?!
- Agora estamos com cafena suficiente no organismo. No conseguiremos dormir logo. Ento por que no ir ao cinema?
- Bem, eu...
- timo. - lan guardou o desenho na pasta. - Meu carro est l fora. Eu a levarei para casa depois.
Quando deu por si, Naomi j estava saindo da livraria com lan segurando sua mo com uma perturbadora intimidade.

25

lan se considerava um homem paciente. Sabia como esperar e valorizava tudo que era conquistado aos poucos, mas com segurana.
Por isso, estava apreciando cada instante que passava ao lado de Naomi. Sempre achara prazeroso ficar na companhia de uma bela mulher, principalmente se ela, alm 
de linda, tambm fosse inteligente e sensvel. Naomi era tudo isso e um pouco mais.
Naquelas ltimas semanas, foram a concertos, a cinemas e saram para passeios a p, algo que ambos apreciavam. Foram a restaurantes finos e a outros mais populares. 
E, como se no bastasse tanto tempo juntos, s vezes ficavam conversando ao telefone at tarde da noite.
Ian acabou se dando conta de que, exceto na adolescncia, nunca experimentara um relacionamento to intenso, maravilhoso e... frustrante em toda sua vida.
Por uma ou duas vezes, quando testara at que ponto poderiam chegar, Naomi recuara feito um coelho assustado. Aquilo o fez pensar com seriedade que, se os dois se 
tornassem amantes, ele seria o primeiro da vida dela. Seria um enorme prazer, claro, mas tambm teria de assumir a responsabilidade por isso.
A situao no era to simples quanto parecia. Mas ele era paciente, repetiu a si mesmo enquanto observava a biblioteca praticamente pronta. Sempre se empenhara 
com cuidado naquilo que achava que valia a pena.
Cullum havia feito um belssimo trabalho, pensou, admirando as estantes de cerejeira, prontas para receber seus livros. Haviam sido fixadas em lugares e em alturas 
diferentes, criando o efeito que Ian desejara desde o incio. O resultado fora um lugar aconchegante e moderno ao mesmo tempo. Perfeito para seu gosto.
Naomi o ajudara a escolher as poltronas e as cadeiras ricamente estofadas. Sentando-se em uma delas, ele suspirou. Havia um pouco dele em cada canto daquele lugar. 
E tambm de Naomi.
Passou as mos pelos cabelos castanhos quando um sbito pensamento lhe ocorreu com a intensidade de um relmpago: estava apaixonado por Naomi.
No podia continuar negando aquilo para si mesmo. De fato, tinha quase certeza de que se apaixonara por ela desde a primeira vez em que a vira. Acreditava em amor 
 primeira vista, em destino marcado para o encontro de um grande amor e coisas desse tipo. Parecia tolice, mas a intuio sempre lhe dissera que aquilo era algo 
possvel de acontecer. E ali estava ele, como a maior prova disso, completamente apaixonado.
Ficando de p, comeou a andar de um lado para outro. No podia usar seus sentimentos para pressionar Naomi. Mas tinha certeza de que, se dissesse que a amava, ela 
se entregaria a ele. Ento poderia convenc-la a se casar e a ficar com ele para sempre. Entretanto, seria esse o desejo de Naomi?
Enfiou as mos nos bolsos e foi at a janela olhar a paisagem. A deciso final teria de ser dela.
Naomi no sabia o que deveria fazer. Leu mais uma vez o papel que Jlia lhe entregara com um endereo anotado e olhou novamente para a suntuosa casa feita de tijolos. 
Uma casa a apenas alguns quarteires da de Ian.
Gostaria de estar com ele naquele momento. Ele estaria arrumando os livros, segundo lhe dissera. Ela suspirou. Os livros que haviam selecionado juntos.
Ian lhe pedira para ir ajud-lo com a parte final da arrumao, e ela iria para l assim que tivesse uma chance. Ele dava muita importncia quele tipo de detalhe, 
e isso o tornava ainda mais especial.
Porm, j havia prometido ir at ali para participar do que Jlia chamara de "Dia das Garotas". Havia feito uma bonita amizade com Jlia nas ltimas semanas, enquanto 
combinavam os detalhes sobre o projeto da biblioteca de Ian. Por isso no tivera coragem de recusar o convite quando Jlia a abordara.
Pegando o embrulho com o logotipo de uma famosa do-ceria da cidade, saiu do carro e se dirigiu a casa. Sorriu consigo quando a idia de "antes tarde do que nunca" 
lhe veio  mente. Nunca havia participado de uma reunio de garotas quando estudara no colgio. Sabia que elas conversavam sobre festas, rapazes e sexo, mas nunca 
tivera facilidade para fazer amizade com aquelas garotas que ela considerava modernas demais para seu gosto.
Portanto, ali estava sua chance de resgatar o tempo perdido, pensou, enquanto se encaminhava para a porta.
- Ei! - Jlia avanou sobre a caixa antes mesmo de abra-la. - O que trouxe?
- Bombas de chocolate.
- Eu te amo, garota. Chegou na hora certa porque acabamos de colocar as crianas para dormir.
- Oh, e eu que estava com esperana de conhecer Travis...
- Vai conhec-lo, no se preocupe. Ele e o Daniel de Laura nunca ficam fora de ao por muito tempo. - Jlia conduziu Naomi at a sala ampla e lindamente decorada. 
- J conhece Laura, no ?
- Sim. Ol, Laura.
- Oi. Fico contente que tenha vindo. - Laura estava sentada sobre o tapete, comendo um pacote de batatas fritas. - O que trouxe na caixa?
- Bombas de chocolate.
- Oh, meu Deus. Me d isso aqui
- No seja to apressada - ralhou Jlia. - Esta  nossa prima Gwen, Naomi.
- J ouvi falar muito a seu respeito - declarou Gwen, ievantando-se da cadeira onde estivera pintando as unhas dos ps. - Vou sempre  sua livraria. Branson vai 
participar de um dos encontros com autores, no prximo ms.
- Branson Maguire? - perguntou Naomi. Quando Gwen assentiu, ela continuou: - Oh, ele  muito bom. Tenho todos os livros dele na minha coleo particular, e autografados 
por ele.
- Sabia que a parte psicolgica de No Faa Mal foi baseada em Gwen? - Laura perguntou.
- No a parte psicolgica - Gwen corrigiu, rindo. - Apenas a parte relativa  aplicao da psicologia. Muito bem, ternos chocolate quente, musse de chocolate, chocolate 
em barras e bolo de chocolate.
- Jlia escolheu o menu - salientou Laura, olhando de soslaio para Naomi.
- Jnior escolheu. - Jlia abriu sobre a mesa a caixa que Naomi levara. - Oh, ele vai adorar isso. Sente-se, Naomi, e ganhe algumas calorias.
Uma hora depois, Naomi j no tinha certeza se voltaria a comer chocolate pelo resto da vida. Permitira-se uma extravagncia que nunca mais cometera nos ltimos 
trs anos, mas considerou que tambm nunca havia rido tanto na vida.
Nem mesmo na poca da adolescncia, tivera a chance de se reunir com colegas, sentar no cho e conversar sobre assuntos srios e banais, dando a ambos o mesmo grau 
de importncia.
Parecia engraado, mas em um tempo suficiente para devorarem uma caixa cheia de bombas de chocolate, ela conseguira ganhar trs amigas de verdade.
- Hum... - Jlia lambeu o chocolate dos dedos. - Espere at ver a biblioteca de Ian - disse a Gwen. - Ficou incrvel.
- Cullum fez um trabalho fantstico na disposio das prateleiras - acrescentou Laura, servindo mais chocolate quente.
- Ei, tambm ajudei no design - protestou Jlia. - E ela tambm - apontou para Naomi.
- No fiz muita coisa. Ian j sabia o que queria.
- Ele j arrumou os livros? - Jlia indagou. - Eu me lembro que a coleo dele  bem considervel.
- Ele est fazendo isso hoje - respondeu Naomi.
- E... como esto as coisas entre vocs? - Jlia quis saber.
- Oh, muito bem. Ian  um timo amigo.
- Amigo? - Laura riu. - Eu no diria que a maneira como ele a estava olhando quando os vi juntos era a de algum que queria apenas amizade.
- Ian no pensa em mim desse jeito.
- Desde quando?
Naomi deu de ombros, decidindo que mais um pedao de chocolate no faria mal.
- Ele at pensava, mas no me v mais assim.
- Com licena. - Jlia levantou a mo. - Somos amigas agora, no somos? - Sem esperar pela resposta, ela assentiu. - timo. Naomi, voc ficou maluca?
- No sei o que est querendo dizer.
- Ian est louco por voc, querida. Gwen, voc no viu os dois juntos, mas conhece Ian muito bem, no ?
- Sim, claro - anuiu Gwen, admirando o esmalte j seco das unhas dos ps.
- Bem, e na sua opinio mdica, j que conhece o paciente, qual seria o diagnstico para algum que passa todo o tempo livre em companhia de uma garota, fala constantemente 
sobre ela, fica com um brilho diferente nos olhos quando a v e prepara jantares para dois?
- Hum... - Gwen apertou os lbios. - Na terminologia mdica, chamaramos isso de "patologia amorosa".
Jlia levou a mo ao ventre, contendo os chutes de Jnior.
- Est vendo?
- Oh, e ele est agindo diferente no escritrio tambm - interveio Laura. - Na semana passada, eu o ouvi dizer  secretria que no transferisse nenhum telefonema 
para ele, porque estava trabalhando em uma documentao importante, exceto se fosse a srta. Brightstone.
- Patologia amorosa em estgio final - disse Gwen, com expresso sria. - Um tipo de patologia que at hoje espanta a cincia mdica.
- Ah, parem com isso. - Sem saber se ria ou chorava, Naomi optou por mais um pedao de chocolate. - lan me trata como uma irm.
- O caso deve ser grave - observou Gwen. - Se der mais detalhes, posso at sugerir algum tipo de tratamento.
- Ele me beija no rosto - continuou Naomi. - D tapinhas na minha cabea. De vez em quando me olha de um jeito que me faz pensar "Agora vai acontecer", mas nada 
acontece. Antes de contar a ele que eu nunca tinlia dormido com ningum, ele me beijou com um ardor que vocs nem imaginam, mas agora... O que foi Laura?
A irm de lan soltara uma gargalhada.
- Oh, coitado do meu irmozinho!
Confusa, Naomi ficou de p. Olhou para as trs em silncio, at que uma lgrima rolou por seu rosto.
- Oh, minha querida. Desculpe-me - disse Laura, levando a mo ao peito. - Duvido que esteja sendo engraado para voc, ou para ele, mas  que lan pertence  famlia. 
No pude conter o riso. Gwen? - Olhou para a prima, pedindo ajuda.
- lan est assustado com a idia de ser o primeiro homem de sua vida - afirmou Gwen.
- Isso  besteira.
- No, no . lan  muito sensvel e deve estar com medo de assust-la ou de mago-la. Se estiver to apaixonado quanto penso que ele est, no deve estar sendo 
fcil trat-la como uma irmzinha, dando-lhe tapinhas na cabea. Com certeza est esperando que voc d o passo seguinte, indicando a ele que pode ir em frente.
Naomi ficou em silncio, olhando para os trs rostos sorridentes  sua frente.
- Vocs acham mesmo que...? - Naomi sorriu, com olhar vago.
- Oh-oh, dra. Maguire, acho que temos outro caso de patologia amorosa. - Jlia sorriu, dando uma piscadela para as primas. - Isso pode acabar virando uma epidemia.
J estava escurecendo quando Naomi parou o carro diante da casa de lan. As luzes se encontravam acesas. Estaria ele na biblioteca, ainda arrumando os livros?, ela 
se perguntou.
Durante a conversa com as garotas tudo parecera muito animador, mas, no trajeto at ali, ela comeara a analisar a situao com mais cuidado. J no tinha tanta 
certeza do interesse de an.
Ele era to charmoso e atraente. Poderia ter as mulheres que quisesse com um estalar de dedos. Por que iria se interessar justo por ela?
- Pare, pare - disse a si mesma. - Essa era a maneira como voc costumava pensar, Naomi. E uma mulher diferente agora. Mais segura e sofisticada.
Respirou fundo dez vezes, mas dessa vez o relaxamento no pareceu funcionar como das outras vezes. "Excesso de chocolate", concluiu.
Mesmo assim, seguiu em frente e tocou a campainha. an apareceu  porta descalo, trajando um jeans desbotado e uma camiseta com o logotipo do curso de Direito de 
Harvard. O sorriso com que a saudou preencheu o peito de Naomi feito um afago carinhoso.
- Oi. No pensei que a veria mais hoje.
- Eu deveria ter telefonado - disse ela. - Estava com Jlia e...
- O "Dia das Garotas", eu sei. - Ele ficou de lado para ela entrar. - Elas fazem isso uma vez por ms. O que diabos vocs fazem nessas reunies?
- Pintamos as unhas, comemos chocolate, falamos sobre rapazes...
-  mesmo? E o que falam sobre ns?
- Ah... Posso tomar alguma coisa?
- Sim, claro. Deixei uma garrafa de vinho na biblioteca e estou louco para lhe mostrar o que fiz por l.
O receio de acabar sucumbindo ao desejo de tom-la nos braos o fez manter as mos nos bolsos enquanto subiam a escada. Ao chegarem  porta, Ian olhou para ela.
- Feche os olhos.
Quando Naomi o obedeceu sem questionar, ele a levou at o interior do aposento.
- Pode abri-los agora.
Ao abrir os olhos, Naomi levou a mo ao peito.
- Oh, Ian... Ficou maravilhoso.
Com os olhos brilhando e um sorriso danando nos lbios, observou as estantes repletas de livros.
- E os mveis tambm chegaram! Oh, eu adorei - disse e olhou para ele.
- Eu queria que voc fosse a primeira pessoa a ver - confessou Ian, voltando a enfiar as mos nos bolsos. - Vou pegar o vinho.
Mantendo a mo ainda junto ao peito, Naomi reuniu toda coragem que lhe restava e perguntou:
- Ian, voc quer ir para a cama comigo?
Ele se virou no mesmo instante, derramando vinho na camiseta.
- O qu?!
- Eu no quis parecer rude ou coloc-lo em uma situao difcil. E que... eu gostaria de saber se voc ainda se sente atrado por mim. Se no se sentir, tudo bem. 
Mas se ainda me quiser e estiver se contendo s porque nunca estive com um homem antes, pode parar agora mesmo. Prefiro que pare de ser to consciencioso, se for 
assim que estiver agindo.
Naomi no soube mais o que dizer. Ian continuou a olh-la, com a garrafa de vinho na mo, um copo vazio na outra e uma mancha de vinho em sua camiseta preferida.

26

lan colocou a garrafa de volta na mesa.
- No quer que eu seja consciencioso?
- No sobre isso - respondeu Naomi. Ele deixou o copo ao lado da garrafa.
- No quer que eu fique longe de voc? Naomi sentiu um arrepio pelo corpo.
- No se voc ainda... Se ainda me quiser.
lan sentiu a boca secar. Desejara Naomi desde o primeiro instante, e ali estava ela, oferecendo a ele o amor que no oferecera a nenhum outro homem. Teria de ser 
muito cuidadoso para no quebrar a magia daquele momento que deveria estar sendo muito importante para ela.
Curvou os lbios em um sorriso, ao se aproximar dela.
- A testemunha deve responder  questo com "sim" ou "no" - falou, usando um tom jurdico. - Quer que eu fique longe de voc?
- No. - Naomi continuou fitando-o nos olhos.
- Ainda bem.
No segundo seguinte, ela j estava nos braos dele, tendo de ficar na ponta dos ps para alcanar aqueles lbios sedentos e exigentes.
- Isso responde  sua pergunta? - murmurou lan, bei-jando-a na base do pescoo.
- Que pergunta?
- Se eu ainda te quero. - Deus, como ele desejara poder fazer aquilo. - No caso de no haver notado minha primeira resposta, deixe-me repeti-la... - Beijou-a novamente 
at que Naomi ficasse sem flego. - Entendeu agora?
- Sim.
Naomi enlaou os braos em torno do pescoo dele.
- Est me deixando louco h semanas - confessou Ian.
- Eu...  mesmo?
- Pensando bem, estava me matando mesmo.
- Pensei que houvesse decidido ser apenas meu amigo.
- J somos amigos. - Tomando-a nos braos, Ian comeou a andar em direo ao quarto. - Mas isso s me fez desej-la mais.
Um brilho de emoo surgiu nos olhos de Naomi, que tocou o rosto dele com carinho.
- Estou com um pouco de receio, Ian. No sei muito bem o que fazer.
Ele virou o rosto, beijando a palma da mo dela.
- No se preocupe com isso. Confie em mim, Naomi. No vou machuc-la, e se quiser que eu pare,  s dizer.
- No vou querer que pare.
Ele sorriu, acionando o interruptor com o cotovelo. Preferiria am-la  luz de uma lareira ou de candelabros, mas no sabia se agentaria esperar tanto tempo.
Naomi estava um pouco trmula, mas os adorveis olhos acinzentados continuaram firmes nos seus. A confiana que ele pedira a ela estava ali, estampada neles. Jurou 
a si mesmo que, por mais que o desejo estivesse ardendo em seu corpo, no faria nada para perder a confiana de Naomi.
Quando voltou a beij-la, mordiscou-lhe os lbios macios.
- Adoro sua boca - murmurou. -  to sexy... Naomi abriu os olhos, surpresa com a excitao que aquilo lhe provocara. Ian sorriu, adorando ver cada reao que ela 
estava tendo.
- Nem imaginou, no ? - perguntou a ela. - Pois sempre tive vontade de fazer isso.
lan continuou mordiscando os lbios dela at deix-la louca de desejo. Com um gemido abafado, puxou-o mais para si, beijando-o com sensualidade.
O sangue comeou a correr mais rpido pelas veias de lan. "Devagar, devagar", ordenou a si mesmo. A reao de Naomi poderia at ser a resposta a toda fantasia sexual, 
mas ela continuava intocada. Alm disso, havia dado sua palavra.
Diminuindo a intensidade do beijo, comeou a soltar os cabelos dela, presos em uma trana cada s costas. Queria v-los soltos, em suas mos, espalhados sobre seus 
travesseiros... Um agradvel perfume de xampu lhe chegou s narinas, quando ele os soltou por completo.
Entrelaando os dedos nas mechas sedosas, afastou-se um pouco. Ento, fitando-a nos olhos, comeou a levantar o suter dela.
A primeira reao de Naomi foi tentar se cobrir, mas lan tocou-lhe as mos com as dele. Esforando-se para recuperar o flego, ela sentiu o tecido subir devagar, 
deixando sua pele exposta ao ar mais frio do ambiente e ao calor do olhar de lan.
Sentiu o corao acelerado quando ele deslizou a ponta do dedo pelo contorno de seu suti de renda. Cravando as unhas na palma das mos, enquanto as mantinha ao 
lado do corpo, ordenou a si mesma para relaxar e ser corajosa o suficiente para fazer o que desejava.
Respirando fundo, levou as mos  camiseta de lan e tambm o fez tir-la. Deus, como ele era lindo. Msculos firmes, pele levemente bronzeada... Sem pensar, levou 
as mos ao peito dele, mas se afastou quando ele estremeceu.
Sorrindo, lan pegou as mos dela e as colocou de volta em seu peito.
- Tire os sapatos - pediu a ela.
Naomi notou que o corao dele estava to acelerado quanto o dela. E aquele peito forte sob seus dedos...
- Meus sapatos?
- Sim, tire-os.
- Hum-hum.
Fascinada com o calor daquele corpo msculo, apoiou-se nele enquanto tirava os sapatos. Porm, voltou a ficar tensa quando Ian comeou a abrir o zper de sua cala.
- Relaxe - murmurou ele junto a seu ouvido, antes de beij-la mais uma vez.
Enquanto se beijavam, a cala de Naomi j havia ido parar no cho. Ainda brincando com os lbios dela, Ian tomou-a nos braos e deitou-a na cama.
Naomi adorou sentir o calor daquele corpo msculo sobre o seu, contrastando com a frieza do lenol junto s suas costas. As mos experientes de Ian comearam a acariciar 
cada parte de seu corpo, fazendo-a gemer baixinho e aninhar-se sob ele, desejando... algo mais.
Porm, antes que pudesse se dar conta do que era, fechou os olhos com um suspiro quando Ian comeou a percorrer a mesma trilha sedutora com os lbios.
Ian nunca havia sido to cuidadoso ao amar algum. Tampouco desejara uma mulher com tanta intensidade. Queria dar a Naomi todo o prazer que ela merecia sentir, mesmo 
sendo sua primeira vez. Despertaria nela toda a sensualidade que nem ela mesma deveria conhecer. De fato, isso estava sendo mais fcil do que conter sua prpria 
urgncia de torn-la completamente sua.
Naomi mantinha os olhos fechados e a respirao ofegante. O suspiro quase de alvio que ela soltou quando ele finalmente abriu seu suti fez Ian estremecer de desejo.
Os seios perfeitos preencheram suas mos como se houvessem sido feitos para ficarem ali para sempre, saciando seu prazer. Naomi ergueu o quadril instintivamente 
quando seus polegares circundaram os mamilos rosados.
Um sorriso de satisfao se insinuou em seus lbios quando uma expresso de puro prazer surgiu no rosto de Naomi. Ento para seu maior encantamento, ela abriu os 
olhos ene-voados de desejo e lhe perguntou:
- O que devo fazer?
O sorriso voltou a brotar nos lbios dele.
- Apenas relaxe.
Com a boca, acariciou-lhe os mamilos at deix-los trgi-dos e mais rosados, feito duas frutas tenras. Naomi gemia e estremecia sob seu toque, levando-o a ter de 
se esforar para manter o controle.
Em meio a outro beijo, deslizou a mo cada vez mais para baixo e comeou a acarici-la com mais intimidade, para que Naomi se acostumasse a compartilhar as novas 
sensaes.
Quando ela gemeu alto, estremecendo sob o poder de seus dedos experientes, Ian afundou o rosto junto queles cabelos perfumados, contendo o desejo que queimava mais 
do que nunca em seu corpo.
Naomi relaxou um pouco, mas sua respirao continuou ofegante. Nada a havia preparado para aquela doce exploso dos sentidos. Ansiosa por mais, buscou o rosto de 
Ian e puxou-o para si at que seus lbios se encontrassem.
Adorou deslizar as mos pelas costas dele e sentir-lhe a pele mida sob o efeito do desejo. Querendo que ele sentisse o mesmo prazer que estava lhe dando, roou 
os lbios pelo pescoo e pelos ombros fortes, enquanto insinuava o corpo sob o dele, em um convite silencioso.
Com um gemido, Ian se afastou apenas o suficiente para se livrar do restante da roupa e voltou para junto dela, mais do que pronto para am-la. Depois de um longo 
beijo cheio de expectativa, ele a ergueu com delicadeza e tomou Naomi para si.
A doce barreira da inocncia o tornou ainda mais gentil. Cobrindo os lbios dela com os seus, abafou-lhe o sobressalto com um beijo carinhoso e sedutor. Naomi era 
sua afinal. Somente sua, pensou ele, amando-a pela primeira vez.
Naomi suspirou, aninhada nos braos de Ian. Estavam assim desde algum tempo, enquanto o ritmo de seu corao e de sua respirao voltava ao normal.
- Tudo bem com voc?
- Hum-hum - foi tudo que Naomi conseguiu dizer, fazendo-o rir.
- Como est se sentindo?
- Hum... leve e meio zonza. - Ela suspirou. - Incrivelmente relaxada. Pensei que me sentiria estranha, mas estou me sentindo tima. Fiz tudo certo?
Ian arqueou uma sobrancelha.
- No. Voc foi um grande desapontamento para mim. Acho que terei de pedir para que me deixe agora mesmo.
Naomi arregalou os olhos, fitando-o no mesmo instante. Porm, voltou a relaxar ao ver um sorriso preguioso danando nos lbios dele.
- E provvel que eu melhore com um pouco de prtica
- disse ela, em um tom de desculpa.
- Bem, sendo assim, pretendo lhe dar outra chance de treinamento muito em breve. - Ian beijou-a na ponta do nariz.
- Quer aquele vinho agora?
- Sim.
Naomi fingiu no observar quando ele levantou-se da cama e saiu nu do quarto. Mas quando ele se retirou, ela levou a mo ao peito. Como conseguira despertar um desejo 
to intenso em um homem to completamente perfeito como Ian?
Melhor no questionar, disse a si mesma. Ento, dando-se conta de repente de que tambm estava nua, puxou mais o lenol para cima no momento em que Ian entrou no 
quarto.
Ele parou por um momento, ento balanou a cabea.
- Como diabos conseguiu ficar virgem com um corpo e um rosto como esses?
Naomi enrubesceu, tornando-se ainda mais sexy aos olhos dele.
- Acho que ningum se interessou realmente por mim. Ele riu, carregando os copos e o vinho para a cama.
- Fale srio. No deve ter prestado ateno ao que acontecia  sua volta.
- Talvez. Sempre fui desajeitada com rapazes, com homens em geral.
Tomou um generoso gole de vinho, tentando se manter relaxada.
- Pois acho que os homens com quem se encontrou eram os verdadeiros desajeitados da histria. Tem um corpo e tanto.
- Eu sempre quis ser alta e esguia, mas comecei a me desenvolver cedo. Foi muito constrangedor.
- Por qu?
- Oh, acho que voc teria de ser uma garota para entender o que  ser uma adolescente e de repente...
- Desenvolver lindos seios - completou ele, sorrindo.
- Os homens adoram seios, Naomi. Ns os consideramos um dos mais perfeitos dons da natureza.
Foi a vez de Naomi rir.
- Passei anos tentando esconder os meus - confessou.
- E continua fazendo isso - salientou Ian, abaixando o lenol at a cintura dela e rindo quando ela se sobressaltou.
- Assim est bem melhor. Gostou do vinho?
- E timo.
Sem se importar com o que ele diria, ela cobriu os seios novamente. No conseguiria ficar ali nua e tomando vinho como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
- Sinto muito pelo vinho ter manchado sua camiseta. Conseguir remover a mancha se a lavar logo.
- Acho que vou mant-la daquele jeito como lembrana da melhor noite da minha vida.
Um brilho de satisfao surgiu nos olhos de Naomi.
- Foi muito gentil em dizer isso. Como pode ter se interessado por mim?
Mesmo j tendo se acostumado  sinceridade de Naomi, Ian no se preparara para uma pergunta como aquela.
- Voc tem lindos seios.
Ela arregalou os olhos. Ento, entendendo o brilho de divertimento nos olhos dele, riu alto.
- Bem, sorte minha.
Ian deslizou o dedo pelo rosto, o pescoo e o ombro dela, descendo em direo ao lenol.
- Quando terminar seu vinho, acho que poderemos ter aquela sesso de treinamento.
Naomi tomou um gole de vinho.
- Tudo bem, mas desta vez quero ir para a biblioteca. 
- Foi a vez de ela ver um ar de espanto no rosto de Ian. - Fao tudo bem melhor quando estou cercada de livros.
A imagem sensual que surgiu na mente de Ian despertou-lhe de imediato uma nova onda de desejo.
- Naomi?
- Sim?
- Termine logo esse vinho.
Ela tomou o restante da bebida de um s gole.
- Pronto.
Era simplesmente maravilhoso ter Naomi daquele jeito, aninhada e adormecida em seus braos em meio  penumbra. Era o que ele queria no apenas naquele momento, mas 
para sempre em sua vida. Engraado como ela entrara em sua vida sem avisar e passara a fazer parte dela de uma forma to completa.
Conseguia imagin-los ali, deitados naquela cama, ano aps ano. Com filhos adormecidos, um co deitado no tapete da sala.
A vida seria um pouco agitada com a profisso que eles tinham, mas seria compensador no final das contas. Conseguiriam criar os filhos, manter o casamento e ser 
felizes para sempre. Podia at parecer romntico demais, mas era o que ele queria.
Tudo que precisaria fazer seria continuar sendo paciente para no precipitar o andamento das coisas. Afinal, fora agindo assim que ele conseguira se aproximar de 
Naomi.
Dera a ela espao suficiente para se acostumar a compartilhar sua intimidade com ele. Por fim, ela se aproximara no apenas por vontade prpria, mas tomada por um 
desejo arrebatador. Sentia o corpo esquentar s de lembrar o modo ardente como haviam feito amor pela segunda vez.
Dali em diante, daria a Naomi algumas semanas, antes de lhe sugerir que fosse morar com ele. Seria um passo de cada vez, para no correr o risco de perder o que 
conquistara. Era a melhor maneira de lidar com algum sensvel e inexperiente como ela.
Sabia controlar sua prpria impacincia e suas necessidades quando o resultado final era recompensador. No caso de Naomi, era mais do que isso. Era sua prpria vida.
Sim, daria espao a ela, pensou, ainda que a puxando mais para si. Depois disso, teriam uma vida inteira juntos.

27

lan desligou o telefone e balanou a cabea. Seu av andara entrando em contato com ele bem mais do que o normal nos ltimos tempos. Tanto que aquele era o terceiro 
telefonema em menos de duas semanas.
Pelo visto, precisaria mesmo arranjar algum tempo para ir a Hyannis Port, pensou, virando-se novamente para seu computador. Estava estudando um documento que teria 
de levar ao frum, mas seus pensamentos teimavam em se voltar para Naomi a todo instante. Pensando bem, talvez fosse uma boa idia lev-la para passar um final de 
semana com seus avs. Porm...
Tinha certeza de que, se o velho MacGregor a visse, comearia uma de suas "campanhas de casamento" no mesmo instante. Falaria sem a mnima discrio sobre casamento 
e o dever de continuar o cl dos MacGregor.
Ian sorriu, mudando uma das frases na tela. Mal sabia o velho MacGregor que era exatamente isso que o neto dele tinha em mente.
Ao ouvir uma batida  porta, levantou a vista. Era sua me.
- Est ocupado?
- No muito.
Diana entrou no aposento com sua costumeira elegncia e os cabelos negros presos em um coque, destacando seu rosto bonito. Colocou uma pilha de papis sobre a mesa 
de Ian.
- Bem, agora est - brincou.
- No me diga que  o caso Perinsky? Ela sorriu.
- Acertou. Desta vez ela est determinada a processar um mercado vizinho por no ter sua marca preferida de ch. Disse que isso  violao de direitos civis.
- Laura se entende melhor com ela - salientou Ian, olhan-do-a com um ar esperanoso.
- Mas a sra. Perinsky gosta mais de voc. - Sorrindo, Diana sentou-se na beirada da mesa. - Acho que ela tem uma queda por voc, querido.
- Ela pesa cem quilos, mame. No mnimo.
- Sei que no  fcil, Ian, mas ela tem sido nossa cliente desde antes de voc nascer.
- Antes de voc nascer,  o que quer dizer - corrigiu ele, fazendo Diana rir mais uma vez.
- E possvel. De qualquer maneira, ela  apenas uma mulher solitria em busca de ateno. Se der um pouco a ela, entregar-lhe alguns doces e conversar com calma, 
talvez a faa desistir dessa tolice.
- Posso tentar. Mas ficar me devendo essa.
- Uma refeio com a comida da mame nos deixaria quites?
Ian pensou por um momento. Qualquer coisa envolvendo
a sra. Perinsky exigia uma grande recompensa.
- Uma torta de damasco de sobremesa ajudaria bastante. Ela sorriu.
- Posso dar um jeito nisso. Domingo est bom para voc?
- Est se voc incluir mais uma pessoa no cardpio.
- Naomi?
- Sim - ele confirmou. - Tudo bem para voc?
- Sim, claro. Gosto muito dela.
- Estou apaixonado por ela.
- Oh.
Sentindo os olhos se encherem de lgrimas, Diana levou a mo ao rosto. Ian se levantou, preocupado, e segurou-a pelos ombros.
- Pensei que havia dito que gostava dela.
- Sim, eu gosto. - Tocando o rosto dele com carinho, continuou: -  que nunca pensei que algum dia veria meu filhinho dizer algo assim. Estou muito feliz por voc, 
lan.
- No est dizendo isso s para me agradar?
- No, estou realmente feliz. - Diana enxugou uma lgrima. - Uma parte de mim ainda o considera um garotinho, e a outra se orgulha do lindo rapaz que voc se tornou. 
- Segurando o rosto dele entre as mos, falou: - Essa foi a primeira vez que o ouvi dizer que est apaixonado. Por isso, sei que est falando muito srio.
- Sim, estou.
- Naomi  uma garota de sorte. - Diana o beijou com carinho. - E digo isso com conhecimento de causa.
- Ento deixe escapar alguns elogios sobre o timo filho que eu sou e coisas do gnero quando estivermos jantando.
- Oh, isso ser fcil.
- Mas seja sutil, est bem? - pediu ele. - Naomi  muito tmida e no quero deix-la embaraada.
Surpresa, Diana arqueou as sobrancelhas.
- Ainda no disse a ela o que sente?
- Estou trabalhando nisso. Mas j tenho tudo planejado.
- lan, minha nica crtica com relao a voc  que sempre planeja as coisas com cuidado demais. Muito  Ia Daniel MacGregor.
- Ora, funciona com ele. Alm disso, no acha que ser divertido quando eu apresentar a ele a garota com quem vou me casar sem que ele tenha interferido na conquista?
Diana apertou os lbios, lembrando-se da lista de livros que Daniel lhe entregara para que lan fosse procurar. Claro que seria bem mais fcil o prprio Daniel telefonar 
para a livraria e pedi-los.
- Sim, ser muito divertido - respondeu, achando melhor deixar o filho com a impresso de que agira por conta prpria.
Naomi acrescentou  pilha mais um volume do ltimo livro de suspense de Branson Maguire. Havia criado um interesse ainda mais especial pelo trabalho dele depois 
de se tornar amiga da esposa dele e de sua famlia. Ele tivera lindas filhas com Gwen. Os filhos de Laura tambm eram umas gracinhas. Ah, e tambm havia Travis. 
Bem, tinha de admitir uma preferncia especial pelo enrgico filho de Jlia.
Pegando outro volume de Busca Mortfera e colocando-o na pilha artesanal que estava formando no centro da livraria, pensou em como vinha imaginando com freqncia 
como seria ter seus prprios filhos.
Se no fizesse nada para estragar o relacionamento, Ian poderia acabar at apaixonado por ela. No era impossvel. Alis, nada mais era impossvel.
Ian a desejava e ela sabia que ele sentia algo intenso por ela. No havia motivo para no ser amor. O mesmo que ela sentia por ele. Algum dia, ainda o veria segurar 
seu rosto entre aquelas mos carinhosas e dizer: "Eu te amo, Naomi".
- Naomi?
O sbito toque em seu ombro a fez voltar os pensamentos ao presente e lanar um olhar confuso para Jlia.
- Fez boa viagem? - brincou ela. Naomi sorriu.
- Jlia! Ei, deve estar prestes a dar  luz - disse, olhando para o ventre avantajado da amiga. - No deveria estar dirigindo por a.
Jlia revirou os olhos.
- Ah, meu Deus, at parece Cullum falando. Alis, no se preocupe porque foi ele quem me trouxe. Est procurando uma vaga para estacionar l fora. Eu estava inquieta 
em casa, e deixando Cullum maluco, coitado. Ento ele teve a brilhante idia de me trazer at aqui para que eu comesse algumas bombas de chocolate.
- Ento vamos at o caf - sugeriu Naomi, fazendo um sinal para que Jlia a seguisse.
- Est bem. Oh, isso est timo - elogiou Jlia, apontando para a pilha de livros. - Bran vender todos em um piscar de olhos.
Naomi passou o brao pelo dela, enquanto seguiam em frente.
- Estamos contando com isso. J leu o livro?
- No estou conseguindo me concentrar direito para ler - disse Jlia. - Tambm fiquei assim quando estava esperando Travis. Mesmo assim, coloquei um exemplar na 
bolsa que vou levar para o hospital. Parece engraado, mas assim que dou  luz, consigo ficar horas parada e concentrada.
- Voc vai adorar o livro de Branson.
- Tenho certeza de que sim. Ei!
Jlia parou de repente, apoiando-se em um balco e derrubando alguns livros no cho.
- Ele est chutando? - perguntou Naomi. - Quer se sentar?
- No, Jnior no est chutando. Est  querendo conhecer o mundo mesmo. No  de admirar que estou esquisita desde a manh.
Naomi arregalou os olhos.
- Agora?
- No exatamente neste minuto. - Jlia se inclinou, surpresa com a intensidade da contrao. - Mas logo. Oh, droga, acho que no dar tempo de comer a bomba de chocolate.
Naomi correu para pegar uma cadeira e a trouxe para perto de Jlia.
- Sente-se um pouco. Vou chamar Cullum.
- Boa idia. - Jlia sentou-se devagar. - E Naomi? Diga a ele para no demorar porque eu acho que Jnior no vai perder muito tempo.
Duas horas depois, Naomi estava andando de um lado para outro, em uma sala de espera repleta de membros da famlia MacGregor. No entendia como eles conseguiam ficar 
to calmos. Como podiam ficar ali sentados, rindo e contando histrias sobre a famlia?
A me de lan ocupava uma das cadeiras, enquanto conversava animadamente com o ex-presidente e a mulher dele. Os parentes de Jlia estavam a caminho de Boston, sendo 
informados pelo celular sobre o andamento do parto.
Caine estava em seu prprio celular, rindo enquanto falava com os futuros bisavs. E Ian, segundo ela percebeu, no se encontrava em nenhum lugar por perto.
Quando Gwen abriu a porta dupla que dava acesso  sala de parto, Naomi se adiantou, esquecendo-se de que no pertencia  famlia.
- Como ela est? O que aconteceu?
Ento arregalou os olhos ao ouvir uma voz enfurecida vinda de algum lugar l dentro.
- No me ensine como respirar, Murdoch! Seu idiota! Sei muito bem como respirar. Por que no troca de lugar comigo?
Gwen riu, dando de ombros.
- Ela est tima, como pode ver. Quer dizer, ouvir. - Olhando para os outros rostos expectantes, avisou: - Vou voltar para l. Jlia est pronta para iniciar o parto. 
Portanto, preparem os. charutos. Oh, ol, Ian - disse ela.
- Perdi alguma coisa? - perguntou ele, ofegante, depois da corrida desde o estacionamento.
- Quase - Gwen respondeu, abrindo novamente a porta dupla.
- No me diga para no empurrar ainda, seu idiota! Est despedido!
- Esta  a terceira vez que Jlia despede o obstetra. Com Travis, foram cinco. - Rindo, Gwen voltou para a sala de parto.
- Ela deve estar sentindo muita dor - observou Naomi, unindo as mos. - Deve estar assustada.
- Assustada? - repetiu Ian. - Jlia? E pouco provvel.
- O que sabe a esse respeito? - Ela se indignou, fazendo alguns membros da famlia olharem na direo dos dois. - Nem mesmo estava aqui - completou em um tom mais 
baixo de voz. - Onde esteve?
- Ocupado com uma mulher capaz de comer dois quilos de doce em dez minutos. Sa correndo assim que me avisaram pelo celular. Quer um pouco de gua?
- No, no quero. Desculpe-me, mas  que nunca estive em uma situao assim antes. Estou um pouco nervosa. Por que ningum mais est nervoso por aqui?
- Passamos por isso com uma certa freqncia ao longo dos ltimos anos - explicou lan. - Querida, por que no se senta?
- No consigo ficar sentada. - Naomi fechou os olhos, fazendo sua respirao de relaxamento. - Sinto muito - desculpou-se, voltando a olh-lo. - Eu no deveria ter 
falado com voc daquela maneira ainda h pouco.
- Pode dizer o que pensa quando quiser. Mas no pensei que faria isso aqui - admitiu lan. Passando o brao pelos ombros dela, levou-a at uma cadeira vazia. - Liguei 
para a livraria quando recebi o recado sobre Jlia. Queria avis-la sobre o que estava acontecendo, mas sua assistente me disse que voc j tinha vindo para c.
Naomi sentou-se, tentando relaxar.
- Acha que ainda vai demorar?
-  difcil dizer - respondeu lan. - Com Travis, Jlia demorou... Deixe-me ver... Cerca de uma dcada.
- Catorze horas - corrigiu Laura. -  Trs horas a menos do que demorei para ter meu primeiro filho.
- Para mim, todo parto parece demorar uma dcada - falou ele. - Onde est Bran?
- Candidatou-se a mrtir - respondeu Caine, rindo. - Disse que ficaria com todas as crianas e pediu para que rezssemos por ele. Tome, beba isso.
Ele entregou um copinho com ch para Naomi.
- Oh, obrigada.
Embaraada demais para dizer que no queria tomar nada, ela bebericou o ch enquanto ouvia a conversa e os risos. S se deu conta de que estava mais calma, ao tomar 
o ltimo gole do ch.
Gwen apareceu  porta novamente, com o rosto suado e uni sorriso satisfeito.
- Senhoras e senhores, quero anunciar o nascimento de Fiona Joy. A me, o pai e a filha esto passando bem. Ela  linda!
Algumas mulheres da famlia enxugaram as lgrimas com discrio. Porm, logo todos estavam falando novamente, abraando-se e comemorando a novidade.
Naomi foi beijada e quase esmagada por tantos abraos calorosos. Quando o pai de lan lhe ofereceu um charuto, ela olhou para a caixa de charutos, no acreditando 
que aquilo realmente estivesse acontecendo.
Antes que pudesse agradecer e rejeitar com polidez, como pretendia, lan tomou-a nos braos e rodopiou com ela.
- No  maravilhoso, Naomi?
- Sim, claro - respondeu ela, sem flego e meio zonza. De fato, os MacGregor formavam uma famlia bastante inusitada.

28

Sim, aquela era a famlia mais incrvel que Naomi j conhecera. E j haviam praticamente permitido que ela se tornasse parte dela, ao aceitarem que ela participasse 
de um momento to importante quanto o nascimento da filha de Jlia.
Tambm ficara do lado de fora do berrio, olhando o lindo beb no colo do pai orgulhoso. Quando Caine anunciara que iriam sair para comemorar, ela tambm fora levada 
com eles, em meio a risos e comentrios bem-humorados. Nenhum deles a olhava como se ela fosse algum de fora, que no tinha o direito de participar daquela alegria.
Eram sinceros, amorosos e, acima de tudo, honestos. Com um peso na conscincia, foi obrigada a admitir que no vinha agindo como eles. Pelo menos no com Ian.
Mas, enquanto estavam indo para a casa dele, naquela noite, ela decidiu que voltaria a agir da forma correta.
- Pode ter certeza de que teremos outra reunio familiar amanh - avisou ele, ao destrancar a porta. - Provavelmente liderada pelo velho MacGregor, que no perder 
tempo em bisbiihotar a vida dos netos e dizer que o novo beb se parece com ele. Se D.C. e Layna vierem tambm, tero de ouvi-lo cobrar outro bisneto. - Achando 
melhor prepar-la para o que iria acontecer, acrescentou: - Ento ele se voltar para voc.
- Para mim?
Nervosa, Naomi foi at o sof e afofou as almofadas que j estavam mais do que fofas.
- "Por que uma bela jovem como voc ainda no se casou?" - disse Ian, imitando os trejeitos e o sotaque escocs do av. - "No gosta de crianas? O que diabos est 
esperando para t-las?"
Pensou que Naomi riria, mas ela continuou sria quando se virou para ele.
- Ian, isso no est certo. Voc, sua famlia... Tm sido to gentis comigo.
- E o que h de errado com isso?
- No tenho sido honesta. Voc nem me conhece direito e me deseja apenas fisicamente.
- Protesto! - bradou ele, como se estivesse em um tribunal.
Quando Ian se aproximou e fez meno de beij-la, ela tocou os lbios dele.
- No, por favor. Eu no deveria t-lo feito pensar que eu sou realmente essa pessoa que voc est vendo. - Abrindo os braos e voltando a abaix-los, completou: 
- Nem eu mesma ainda me convenci disso. Por isso acho que no estou sendo justa com voc.
- Naomi, no sei do que est falando. Estou olhando para voc e tocando em voc - falou Ian, segurando-a pelos ombros.
- Mas s porque mudei a superfcie. H dois anos, duvido que olharia para mim. E por que deveria? Ningum havia olhado at ento. Eu era desengonada e estava comeando 
a ter problemas de obesidade porque achava mais fcil comer feito uma desesperada do que assumir que nunca conseguiria ser como minha me.
- Como sua me?
- Sim. Alta, esguia e muito feminina. Por isso, eu vivia comendo sem parar e me escondendo na livraria.
- Naomi, muitas adolescentes passam por esse estgio.
- No foi um estgio, Ian. Foi uma condio e um sintoma do que havia dentro de mim. S tentei mudar porque comecei a perceber que estava sendo injusta comigo mesma. 
Queria encontrar o que realmente havia dentro de mim, para ento tentar gostar de mim mesma.
- E conseguiu. No h nada de errado com voc.
- Sim, h! - Impaciente, ela se afastou. - Ainda no consigo decidir o que vestir pela manh sem verificar meu computador. - Oh, Deus, teria de criar coragem e continuar 
falando. - Tenho todo meu guarda-roupa arquivado no computador, com os acessrios, os sapatos e o batom adequados para cada modelo. Mantenho outro arquivo indicando 
a freqncia de uso, para no repetir as roupas em intervalos curtos de tempo.
-  mesmo? - Ian inclinou a cabea. - Mas isso  brilhante!
- Brilhante?! E ridculo! Qualquer mulher normal apenas abre o guarda-roupa e escolhe uma combinao de roupa. Na semana passada, tive um problema no computador 
e entrei em pnico. Felizmente, consegui consert-lo a tempo. - Ela suspirou. - Pattico.
No que voc no esteja sempre fascinante, mas no acho que precise se preocupar tanto com isso.
- Voc no entende, Ian.  bonito e sempre foi. No sabe o que  crescer sendo o "patinho feio" da famlia. Ainda mais tendo pais bonitos e elegantes como os meus. 
Meu irmo, ento, parece um astro de cinema.
- Naomi. - Ele a segurou pelos ombros novamente. - Voc  muito bonita.
- No. S consigo ficar apresentavel quando me arrumo com muito cuidado. Mas estou contente mesmo assim. Qualquer coisa  melhor do que voltar a ser como eu era 
antes.
- Acredita mesmo nisso, no?
Com pacincia, Ian a levou at um espelho com moldura de madeira, preso  parede do hall. Virando-a de frente para o reflexo dos dois, perguntou:
- O que est vendo ali?
- Voc. Apenas voc. Nenhum hon n me quis antes de voc, Ian.
Pela primeira vez, o impacto de sab aquilo o afetou de uma maneira que ele no soube explicar.
- Nunca me senti assim em toda minha vida - confessou Naomi, expondo o que ele identificou como culpa. - Sempre estive um passo atrs dos outros em tudo, e nunca 
pensei que algum se importaria comigo o suficiente para me mostrar um caminho alternativo.
- Naomi.
- Deixe-me terminar. - Virando-se, olhou-o de frente. - No quero continuar pensando que sou algo que no sou. Uma parte de mim continua sendo aquela garota desengonada 
que nunca teve um namorado nem mesmo nos tempos do colgio. E que passou toda a adolescncia escondida no meio dos livros porque aquele era o nico lugar que a fazia 
sentir-se segura. Ainda .
Ian continuou a ouvi-la, deixando que ela desabafasse.
- Voc foi o primeiro homem a me dar flores, o primeiro que preparou um jantar para mim e que se interessou pelo que eu tinha a dizer. - Sentindo um aperto na garganta, 
esforou-se para continuar: - Foi o nico que me beijou, que me tocou...
Ian respirou fundo. Fora o primeiro homem na vida de Naomi no apenas fisicamente, mas tambm emocionaImente. Ela estivera adormecida, feito uma borboleta esperando 
para abrir as asas ao ser libertada. Mas ele a soltara no ar antes que ela se sentisse segura para voar.
Oh, Deus. O que ele fizera? O que faria dali em diante?
- Est enganada se pensa que  uma pessoa diferente daquela que conheci. Esse  apenas um lado que j existia em voc, mas que se encontrava escondido. E foi voc 
mesma quem o encontrou, Naomi, no eu.
Puxando-a com delicadeza, abraou-a e manteve o queixo apoiado no alto da cabea dela. Deu-se conta de que teria de dar a ela mais do que algum tempo. Teria de deix-la 
livre, para que Naomi aprendesse a se conhecer melhor e se aceitar.
Depois de apert-la junto de si uma ltima vez, forou-se a dar um passo atrs.
-  uma mulher linda e fascinante, Naomi.
- Voc  o nico que acha isso.
O brilho de lgrimas nos olhos dela o fez sentir um aperto no peito.
- No acho que esteja prestando ateno suficiente. Pensando bem, talvez eu tenha monopolizado demais seu tempo livre nas ltimas semanas.
- Meu tempo livre?
- Sim. Voc ainda estava ocupada com a reforma da livraria quando pedi que me ajudasse com a biblioteca.
Falou devagar, passando por ela e voltando para a sala. Daria a Naomi apenas seis meses, disse a si mesmo. Seis e nem mais um dia. Ento iria procur-la onde quer 
que ela estivesse.
- No lhe dei muita chance de se acostumar  sua nova vida - continuou. - Talvez tenhamos sido precipitados e tenha chegado o momento de diminuirmos o ritmo.
Naomi abriu a boca, mas no conseguiu dizer nada. A dor em seu peito estava intensa demais at para ela conseguir respirar.
- Acho que ter de ser mais especfico, Ian. No tenho experincia suficiente com relacionamentos para ter certeza de que entendi o que voc est querendo dizer.
- Estou apenas sugerindo uma diminuio no ritmo, Naomi. Talvez algum tempo de intervalo.
- No quer mais me ver?
- Sim, ainda quero v-la. Estou dizendo apenas que nosso relacionamento no precisa exatamente ser exclusivo. Voc deveria conhecer outras pessoas.
- Outras pessoas - repetiu Naomi.
E ele, outras mulheres. Ian queria se encontrar com outras mulheres. Claro. Ela deveria haver se preparado para isso.
- Acho que  uma deciso muito sensata. - Curvou os lbios em um sorriso. - No temos sorte por eu tambm ser
uma pessoa sensata? Aposto que, no meu lugar, muitas mulheres ficariam aborrecidas e at furiosas com uma sugesto como essa. Mas eu no sou como elas, no ?
- No, no . Voc  uma em um milho. Naomi riu.
- Uma em um milho - repetiu.
"E mesmo assim ainda no suficiente", pensou.
- Bem, tivemos um longo dia - disse de repente. - Estou cansada. Vou para casa.
- Naomi. No quero que v embora esta noite.
- Mas eu no quero ficar. - Antes que ele protestasse, ela se encaminhou para a porta e virou-se uma ltima vez para ele. - Fui honesta com voc, Ian. E quero terminar 
sendo honesta. Estou apaixonada por voc. Sempre estive, desde o comeo.
Antes que Ian pudesse alcan-la, Naomi saiu e fechou a porta com firmeza.
- Eu sei - disse ele, com um suspiro, sabendo que seria melhor deix-la sozinha para pensar. - S que no teve outra alternativa em nenhum momento, Naomi. Mas agora 
ter.
Ian passara um dia infeliz, depois dois e finalmente sucumbira ao desnimo de toda uma semana. Mas no pegara o telefone para ligar para Naomi, nem fora at a casa 
dela, como tivera vontade inmeras vezes.
Seis meses fora o que prometera a si mesmo. Deus, como agentaria? Apenas uma semana se passara desde que a tinha visto pela ltima vez e, no entanto, mais parecia 
um ano.
Levantou-se de sua cadeira, no escritrio, e foi at a janela, como vinha fazendo com enervante freqncia nos ltimos dias. Fez uma careta de impacincia quando 
algum bateu  porta.
- Droga, j disse que estou ocupado!
- Isso  jeito de falar com seu av, rapaz?
Ian se virou quando Daniel e Arma estavam entrando no escritrio.
- E assim que trata seus clientes, sr. Advogado? Ou esse carinho s  dedicado aos membros da famlia?
- Desculpe-me, vov.
Aproximando-se, abraou o av e beijou a av com carinho.
- No vamos tomar seu tempo - prometeu Anna, lanando um olhar de aviso para o marido, que j se sentara como se estivesse em casa. - Viemos apenas nos despedir.
- Despedir? Mas vocs chegaram h poucos dias.
- Essa mulher no consegue parar quieta em um lugar - resmungou Daniel.
- Est com saudade da sua cama tanto quanto eu, Daniel
- ralhou ela. - Iremos ver o beb de jlia e depois voltaremos para casa.
- Sentirei saudade de vocs.
- Ento por que no vai nos visitar com mais freqncia?
- protestou Daniel. - Anda ocupado demais com sua bela garota para ter tempo de visitar os avs, no ?
- Irei v-los dentro de algumas semanas. No ando ocupado com nenhuma garota no momento.
- E por que no? - Daniel se espantou. - Onde diabos est Naomi?
- No trabalho, creio eu. Por qu?
- Todos na famlia esto falando sobre ela. - Daniel uniu a ponta dos dedos. - Exceto voc. Por que no os vi juntos desde que cheguei se ouvi dizer que estavam 
andando at de mos dadas?
- Demos algum tempo um para o outro.
- Tempo? E por que diabos fizeram isso? Vocs nasceram um para o outro!
lan arqueou uma sobrancelha.
- Como pode saber isso se s a encontrou algumas vezes na livraria?
- Ora, conheo a famlia dela, no conheo?
- Oh, Daniel. - Anna suspirou, balanando a cabea. - Eu deveria ter imaginado.
- Imaginado o qu? - indagou Daniel, fingindo um ar inocente.
- Aprontou outra de suas ciladas, no foi, vov? - lan estreitou o olhar. - Mandou minha me me entregar aquela lista com segundas e at terceiras intenes. - lan 
forou um sorriso, olhando para o teto. - E eu acreditei feito um idiota.
- Ora, tudo que eu fiz foi lhe pedir um favor. Se voc gostou do que viu quando chegou  livraria, o problema no  meu.
- Tem razo - admitiu lan. - Gostei do que vi.
- E o que tem a dizer quanto a isso, rapaz?
- Obrigado.
Daniel pestanejou, com ar desconfiado.
- Obrigado?
- Sim. Por haver tido bom gosto ao escolher a mulher com quem pretendo me casar.
- Hah! Est vendo, Anna? Pelo menos um de nossos netos sabe apreciar a astcia e o bom gosto do av. Por isso  que lan sempre foi meu preferido.
- Jlia era sua preferida h menos de dois dias - lan lembrou a ele. - Ouvi quando disse isso a ela.
- Ora, a garota havia acabado de ter um beb. Precisava de um pouco de incentivo. Mas agora  voc quem est precisando, meu rapaz. - Adquirindo um ar srio, Daniel 
perguntou: - O que quis dizer com "espero me casar"? Eu teria preferido ouvir "com quem vou me casar".
- Estou dando algum tempo a ela. Na verdade, alguns meses.
- Meses?! - Daniel quase rugiu a palavra. - Ele ficou maluco, Anna! O que est esperando afinal? V atrs da garota!
- Daniel, deixe lan em paz.
- Nem pensar! S quero saber uma coisa: est apaixonado por ela ou no?
- Sim. Mas prefiro resolver isso do meu jeito, vov.
- Pois  o jeito mais idiota que j vi!
- Com licena - disse Caine, aparecendo  porta. - Este  um lugar de trabalho. As brigas de famlia no so permitidas antes das seis horas da tarde.
- No vai acreditar no que seu filho me disse - gritou Daniel. - Deve ter herdado sua cabea dura! E melhor ter uma conversa com ele, ou lavarei minhas mos quanto 
a esse assunto.
- Que boa idia, qualquer que seja o assunto - ironizou Caine. - Pode deixar que eu vou falar com ele.
Caine beijou os pais e fechou a porta, depois que eles se despediram do neto e foram embora.
- Sente-se filho. Seu av tem razo em achar que devemos conversar. Quero saber por que voc anda jogando sapatos em todo mundo desde a semana passada.

29

Ian obedeceu, mas no gostou muito da idia. Sem dizer nada, tamborilou os dedos sobre a perna, fitando o pai nos olhos.
A teimosia sempre fora algo muito forte no carter de seu filho, pensou Caine. Mas era tambm o que o fazia ter tanta personalidade.
- O que est havendo entre voc e Naomi?
Ir direto ao que interessava era uma atitude bem tpica de seu pai, pensou Ian.
- Acho que tenho idade suficiente para resolver esse assunto sozinho, papai.
- Eu sei. Mas enquanto no o resolve, conte-me o que est acontecendo.
Ian levantou-se da cadeira.
- Droga. Estou fazendo o que  melhor para ela.
- E o que  melhor?
- Dar um tempo a ela.
-  isso que voc considera o melhor, Ian? Est apaixonado por ela. E no tente negar. Estou vendo isso no seu rosto. Sei como  porque tambm fiquei assim quando 
conheci sua me.
- Eu sei. Vi isso durante toda minha vida. Mas tenho de dar esse tempo a Naomi. Ela precisa saber o que quer.
- Tem certeza de que ela no sabe? Perguntou isso a ela?
- Naomi nunca conheceu outro homem alm de mim. Teve problemas de auto-afirmao na adolescncia e agora acha que me apaixonei no por ela, mas pela imagem que ela 
criou de si mesma ao adotar um novo visual. Quero me casar com ela, mas acho que ela merece a chance de conhecer outras pessoas para ter certeza do que realmente 
quer.
- E voc disse que a amava o suficiente para dar essa chance a ela?
- Se eu dissesse que a amo, ela no teria ouvido o resto. Naomi pensa que est apaixonada por mim.
- S pensa? - Caine arqueou uma sobrancelha.
- Como diabos ela pode saber?
- Pergunta interessante. Como voc sabe que a ama?
- Ora, eu nunca quis passar o resto da minha vida ao lado de algum antes - respondeu lan, comeando a andar, de um lado para outro. - Consigo ver como ser nossa 
vida dentro de um ano, dez anos, at cinqenta. - Parando de repente, olhou para o pai. - No acha que estou certo? No seria justo tirar vantagem da inexperincia 
de Naomi e pedi-la em casamento em um momento delicado como esse.
- A minha opinio importa de alguma maneira?
- Claro que sim.
- Ento vou lhe dizer o que penso. - Caine ficou de p e pousou a mo no ombro do filho. - Voc  um cabea-dura.
- O qu?
- Por mais que eu no queira, tenho de concordar com seu av. Voc  um cabea-dura, lan. No est dando  mulher por quem se diz apaixonado nem mesmo o crdito 
de conhecer a prpria mente e o corao. Est tomando por ela uma deciso que no lhe cabe. Se minha opinio tem alguma importncia para voc, acho que deve ir procur-la. 
E quanto antes melhor.
lan no estava muito convencido de que o pai e o av estavam certos. Mesmo assim, ali estava ele, sentado na escadaria do prdio onde Naomi morava.
Pensara em ir  livraria, mas logo descartara a idia. Se iam falar sobre o futuro do relacionamento, o lugar de trabalho no seria o ambiente mais apropriado.
Porm, quando as horas foram passando e ela no apareceu, comeou a se perguntar se teria tomado a deciso mais acertada. Se houvesse ido  livraria, pelo menos 
teria a certeza de encontr-la por l.
J estava pensando em ir embora quando ouviu passos se aproximando. Ao levantar a vista, notou que Naomi parar de repente ao v-lo. Aps um momento de hesitao, 
ela continuou vindo em sua direo.
- Oi, Ian.
- Trabalhou at tarde hoje.
Deus, como aquele perfume era maravilhoso.
- Sim - respondeu ela, tirando as chaves da bolsa.
- Eu gostaria de falar com voc. Posso acompanh-la?
- Acho que agora no  um bom momento.
Nunca haveria um bom momento, pensou Naomi. No quando a simples viso daquele rosto bonito lhe causava tanta angstia.
- Por favor, Naomi. Precisamos conversar. Ela respirou fundo.
- Est bem. Mas ter de ser breve porque preciso me trocar.
- Por qu?
- Tenho um encontro.
A mentira fora terrvel, e com certeza a deixaria com sentimento de culpa depois. Mas, naquele momento, pareceu-lhe mais importante manter o orgulho do que a honestidade.
- Com um homem?
O ar de espanto no rosto dele a fez sentir um aperto no peito. Sem responder, seguiu at a porta de seu apartamento e abriu a porta.
- O que voc quer, Ian? - perguntou, pendurando o casaco no cabide ao lado da entrada e notando que ele a havia acompanhado.
"Que se case comigo e me d filhos", pensou ele, desesperado.
- Acho que no fui muito claro naquela noite.
- No, no foi.
- No lhe expliquei os motivos que me levaram a tomar aquela deciso.
- Acho que no havia muito o que explicar - falou Nao-mi. - Eu disse que voc havia conhecido apenas meu lado exterior e voc concordou, s isso.
- Ah, meu Deus. Ento foi isso que voc pensou? Sinto muito, Naomi. - Ian tentou segur-la pelos ombros, mas ela se afastou. - Est tudo errado. Deixe-me explicar 
melhor.
- Estou com um pouco de pressa no momento, Ian.
- Seu encontro ter de esperar - replicou ele. Enfiando as mos nos bolsos, seguiu at a sala sob o olhar surpreso de Naomi.
- Quando tivemos aquela conversa e voc me disse que nunca havia estado com mais ningum...
- Voc j sabia que eu nunca havia estado com ningum.
- No estou falando apenas de sexo - declarou ele, com impacincia, virando-se para olh-la. - Sexo  apenas uma parte do relacionamento, Naomi. H tambm o companheirismo, 
os momentos de alegria, sentar-se para conversar at tarde da noite, assistir a filmes de mos dadas. So coisas que as pessoas costumam fazer quando esto apaixonadas. 
Coisas que voc nunca fez com outra pessoa alm de mim.
Certo de que havia recobrado o autocontrole, aproximou-se dela e continuou:
- Eu queria lhe dar tempo para que voc pudesse pensar. Para que tivesse certeza de que queria continuar fazendo todas essas coisas apenas comigo.
- Me dar tempo?
Naomi gostaria de poder mostrar um daqueles risos sarcsticos que as mulheres mais experientes costumavam dar em momentos como aquele, mas esse no era seu estilo.
- Disse que queria se encontrar com outras mulheres para me dar tempo? - indagou, confusa.
- Eu nunca disse que queria me encontrar com outras mulheres! - bradou Ian. Abaixando o tom de voz, prosseguiu: - Mas achei que seria bom voc conhecer outros homens. 
Pelo visto, no perdeu tempo em pr meu conselho em prtica.
- Voc queria que eu conhecesse outros homens - repetiu Naomi devagar, sem deixar de olh-lo.
- Eu no queria! - Os olhos azuis de Ian brilharam com fria. - Mas era o que voc precisava. Como eu poderia pedi-la em casamento se voc no tinha nenhum ponto 
de referncia com relao a mim? No tinha algum com quem me comparar, entende? Eu estava apenas tentando ser justo com voc.
- Justo comigo? Justo? - Naomi sentiu os olhos se enchendo de lgrimas. - E por isso decidiu arrasar meu corao? Para ser justo comigo?
- No! Eu queria proteg-la.
- De quem? De voc? De mim? Como teve coragem de tomar uma deciso dessas por mim?
- No tomei. No exatamente...
- No me toque! - avisou Naomi, quando ele fez meno de se aproximar.
Ian passou a mo pelos cabelos. Nunca tinha visto Naomi ficar to furiosa.
- Naomi...
Ela se afastou, antes que ele acabasse tentando toc-la novamente.
- Deve me achar uma grande idiota.
- Claro que no. Eu apenas...
- Uma desculpa muito lamentvel para uma mulher incapaz de confiar na prpria mente e no prprio corao - continuou ela, andando pela sala, com um brilho de fria 
no olhar. Parando de repente, voltou a encar-lo. - Achou que a nica maneira de eu descobrir se realmente te amava seria dormindo com outros dez homens? Ou vinte 
talvez? Que nmero tinha em mente?
- No quero que durma com mais ningum!
- Oh, claro. No estamos falando apenas de sexo. Ento deixe-me anotar exatamente quantos jantares romnticos, passeios ao cinema e outras coisas do gnero eu devo 
fazer, antes de ser considerada suficientemente capaz de decidir o que pensar e o que sentir.
Dizendo isso, Naomi abriu a bolsa e pegou um bloco de notas.
- Est bem, j chega! - Ian se indignou. Adiantando-se, tirou o bloco da mo dela e o deixou de lado. - Pouco me importa o que  justo ou no para voc. No vou 
passar os prximos seis meses esperando enquanto voc sai por a com outros homens.
- Seis meses - repetiu ela. - Era esse o prazo? Planejou tudo com detalhes, no?
A combinao de fria e de satisfao pelo que ele dissera fez Naomi experimentar uma nova sensao. De poder talvez.
- Muito bem, talvez seja melhor voltarmos a nos encontrar em abril ento.
Encaminhou-se para a porta, pensando em abri-la, mas terminou com as costas junto a ela, com o rosto de Ian a centmetros do seu.
- Esquea o que eu disse - pediu ele, segurando a mo dela. - Esquea tudo. No quero ficar longe de voc nem mesmo por seis minutos, e muito menos por seis meses. 
Vai se casar comigo, e se depois achar que tudo aconteceu rpido demais, problema seu.
- Est bem, aceito a responsabilidade pela deciso - afirmou Naomi, tomada por uma coragem que nunca havia sentido antes.
- Trate de arrumar suas coisas agora mesmo porque... - Ian se interrompeu de repente, dando-se conta de que talvez estivesse indo longe demais. - Tudo bem para voc?
- Sim. - Usando o que lhe restava de coragem, Naomi o segurou pelo colarinho. - Seu bobo - disse e puxou-o para si, at seus lbios se encontrarem.
Ian se surpreendeu, mas logo se rendeu ao beijo, colando o corpo de Naomi ao seu. Deus, como sentira falta dela. O perfume, os cabelos macios em suas mos, os lbios 
macios sob seus...
- Nos ltimos tempos, ganhei o apelido de cabea-dura na famlia - disse ele, quando voltaram a se olhar.
- Sim, combina mais com voc - falou Naomi, com um brilho de pura felicidade no olhar. - Estou muito brava com voc, Ian MacGregor - acrescentou, beijando-o no rosto, 
no queixo e no pescoo.
- Sim, estou vendo. No vou reclamar se continuar brava assim por algum tempo. - Segurando o rosto dela entre as mos, fitou-a nos olhos. - Eu te amo, Naomi.
Ela fechou os olhos, contendo a onda de emoo que a envolveu. Em seus sonhos, imaginara que seria assim. Mas nunca tivera certeza de que seus sonhos se tornariam 
realidade. Quando voltou a olhar para o rosto bonito de Ian, sorriu.
- Eu te amo - repetiu ele. - E no apenas pela sua aparncia, mas por quem voc .
- Oh, Ian, fiquei to infeliz sem voc.
- Tambm no fiquei nada bem. Naomi olhou-o com um ar maroto.
- Espero que tenha sofrido o suficiente para se dar conta de que no deve ficar decidindo o que  melhor para mim.
- Eu sou o melhor para voc, doura.
- Ora, mas que falta de modstia! - Ela deu um tapinha no ombro dele. - Mas tem razo. Eu te amo demais para conseguir viver sem voc.
- Ento vamos unir nossa vida hoje mesmo - disse Ian, beijando-a com paixo.
- Aceito sua sentena, sr. Advogado.

Do Dirio
de
Daniel Duncan MacGregor

Dizem que quando um homem envelhece as lembranas dos fatos mais antigos se tornam mais claras do que as dos acontecimentos mais recentes. Talvez seja verdade.
Ainda me lembro, como se fosse hoje, do dia em que conheci minha Anna. E do olhar frio e desinteressado que ela me lanou. Ah, mas ela no continuou desinteressada 
por muito tempo. No mesmo.
Eu era bem jovem na poca. Cheio de disposio e de energia. Um jovem escocs metido em uma sociedade desconhecida e  procura de uma esposa.
Quando eu menos esperava, l surgiu Anna, trajando seu lindo vestido azul. Decidi que ela seria minha desde o primeiro instante, mas levei algum tempo para convenc-la 
disso.
Lembro-me daquela noite com todos os detalhes. As luzes, a msica, as cores... O perfume que havia no ar quando eu trouxe Anna at esta colina, para mostrar o lugar 
onde construiria a casa onde iramos morar...
Foi com a mesma empolgao que sujei as mos com terra, ao plantar uma pequena rvore para celebrar o nascimento de meu primeiro filho. Sim, tm um pouco de razo 
os que dizem que as lembranas de um velho vo longe. Mas o que me diriam essas mesmas pessoas se eu contasse que me lembro com a mesma nitidez do que aconteceu 
na semana passada?
Outro de meus netos se casou na ltima semana. Garanto que posso descrever com detalhes o perfume das flores que enfeitavam a igreja, o brilho da luz que entrava 
pelas janelas e o som melodioso da msica que acompanhou Naomi at o altar. Ela estava linda, com seu vestido branco e o suntuoso tartan de nosso cl sobre a saia 
armada, alm do longo vu usado pelas noivas da famlia. De fato, o vu formou um belo contraste acima daqueles cabelos muito negros.
Tambm costumam dizer que as noivas tm um brilho especial. E Naomi comprovou isso. S pode ser amor o que faz brotar aquele ar de felicidade no semblante de uma 
mulher.
No altar, parecendo um verdadeiro prncipe, Ian a esperava com um indisfarvel sorriso. Talvez devessem dizer que os noivos tambm ficam com um brilho especial 
no dia do casamento. Sim, porque no consigo imaginar outra definio para o que vi no rosto do meu neto enquanto olhava Naomi caminhar em sua direo.
Felizmente, ele no  to cabea-dura quanto parece. Tive certeza disso quando o vi fazer aquela linda declarao de amor. Segurou as mos de Naomi assim que a msica 
terminou e, antes que o padre pudesse falar algo, ele disse: "Eu te amo, Naomi". E em um tom to alto e claro quanto o dos sinos que anunciavam o casamento do lado 
de fora da igreja.
O rapaz sabe mesmo como conquistar uma mulher. Duvido que algum par de olhos no tenha se enchido de lgrimas naquele instante. Incluindo os meus, claro. Mas ningum 
precisa saber desse detalhe.
Foi um bom ano para nossa famlia. Trs casamentos e um beb so uma boa mdia para os MacGregor. Fiz o melhor que pude e no me arrependo de nada. Afinal, a felicidade 
continua a reinar entre ns. E mais forte do que nunca.
Agora que o ano est terminando, verei outra temporada de neve, provavelmente sentado diante da lareira com minha Anna. Que mal haver em fazer mais alguns planos 
de casamentos enquanto isso, pergunto eu?
Afinal, logo entraremos em um novo ano, e o que no me falta so netos com os quais me preocupar.

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                             Nora Roberts - AMOR NUNCA  DEMAIS - The MacGregor Grooms                          1
